Estacionamento abusivo ainda marca Avenida da República após fim da ciclovia em Gaia há seis meses

Seis meses após a remoção da ciclovia da Avenida da República, em Gaia, o estacionamento abusivo continua a marcar a principal avenida da cidade. A retirada da ciclovia gerou críticas de especialistas e utilizadores de modos suaves, enquanto alguns comerciantes destacam vantagens para cargas e descargas.
Agência Lusa
Agência Lusa
08 mai. 2026, 08:50

Seis meses após retirada a ciclovia da Avenida da República, em Gaia, o estacionamento abusivo é marca permanente da principal 'artéria' de comércio e serviços da cidade que, recheada de peões, poderia ser "mais amigável" também na logística urbana.

Foi no dia 8 de novembro de 2025, um sábado, que funcionários municipais deste concelho do distrito do Porto começaram a remover os pilareres da ciclovia da Avenida da República, a principal da cidade, pintando por cima das linhas que a delimitavam e que, com o desgaste, foram reaparecendo.

Após uma providência cautelar que interrompeu a remoção, o processo foi concluído em março, mas as pinturas permanecem, o que não parece demover os automobilistas de encostarem ilegalmente os seus carros ao passeio.

Esta semana, a Lusa constatou no local que o estacionamento abusivo se normalizou entre as estações de João de Deus e Jardim do Morro, tanto por condutores que deixam os quatro piscas, como por outros que não o fazem e até arriscam prolongar a sua estadia.

Na manhã de terça-feira, 11 viaturas estacionadas faziam fila, no sentido norte da Avenida, entre a Câmara Municipal de Gaia e General Torres, sem que se tivesse visto sinal da Polícia Municipal, e o cenário repetiu-se em mais dias da semana.

Ana Ferreira, que trabalha numa papelaria na zona, refere que, em termos de crescimento de clientela, "não se sentiu assim tanto" a retirada da ciclovia e a tomada do espaço pelos carros, notando apenas que "as pessoas aproveitam mais para vir buscar encomendas, coisa que não faziam tanto" e afirmando que costuma ver fiscalização.

Mais abaixo, André Silva, proprietário de uma confeitaria em frente à estação de metro General Torres, afirma que, com a retirada dos pilaretes da ciclovia, "principalmente nas mercadorias, é uma facilidade", pois "muitas das vezes tinham que colocar os camiões em cima do passeio, e isso causava algum transtorno".

"Uma pequena paragem de um minuto, dois minutos, cinco minutos eu acho que vem favorecer, mas ainda não noto mudança de afluência", refere ainda.

Com a retirada da ciclovia, a única possibilidade aberta aos automobilistas foi mesmo a do estacionamento ilegal, uma vez que não há espaço para dois veículos circularem no mesmo sentido em segurança, o que não os livra do trânsito, que continua intenso em certos horários e partes da avenida.

A remoção obriga também os utilizadores de modos suaves, como bicicletas e trotinetes, a ir para o meio do trânsito ou, até, ilegalmente para o passeio, quando anteriormente tinham uma alternativa mais segura.

Após André Silva dizer à Lusa que o seu estabelecimento estava "no centro da cidade" e que "todas as ruas com bastante movimento e casas com bastante afluência" têm de estar habituadas a circunstâncias como barulho, trânsito e baixa qualidade do ar, um carro entrou indevidamente no canal do metro e causou um acidente que interrompeu a circulação durante quase uma hora, transtornando a vida a centenas de pessoas.

Estudos realizados até agora sobre clientelas em locais que passaram a ser servidos por ciclovias e retiraram carros, alguns citados pelo jornal Público em agosto de 2024, demonstram que, por exemplo, na cidade de Graz (Áustria) a perceção dos utilizadores do comércio que o fazem de carro era superior à real, e num estudo da Universidade de Washington de 2013 sobre Seattle (Estados Unidos), a construção de uma ciclovia aumentou a clientela de algumas lojas.

"Acho que em geral não há nenhuma razão para uma avenida tão central, um espaço urbano de Vila Nova da Gaia, não se pôr mais amigável da mobilidade mais ativa, ou seja, do peão e da bicicleta", diz à Lusa o urbanista Daniel Casas Valle, lembrando que a avenida, em termos de transportes públicos e acessibilidades, "é excelente" ao nível da Área Metropolitana do Porto.

Para o especialista, "há vários modelos" para se aplicarem boas práticas de logística urbana, mas "um 'master plan' seria o mais adequado", onde a componente do tempo também poderá ser importante, com "horários para cargas e descargas" e zonas dedicadas, bem como o diálogo com os agentes locais, que considera "complexo" tanto para logística urbana como para novas práticas de mobilidade.

Para logística urbana, na Avenida da República "seguramente há zonas em que talvez seria uma abordagem muito mais de praça, e há outras que em que ficaria quase como a avenida é hoje em dia", vendo o especialista "espaço potencial de ter micrologística, com veículos, de bicicleta ou elétricos mais pequenos", apesar de esta solução não dar para tudo, como no caso da recolha de lixo ou das grandes superfícies.

Para Daniel Casas Valle, a questão é "muitas vezes, que tipo de rua, que tipo de espaço público, a cidade, a Câmara, a cidadania, querem com esta avenida".

Contactada pela Lusa, a Câmara de Gaia considera que o estacionamento abusivo "não se normalizou" e "está a ser diariamente combatido e fiscalizado pela Polícia Municipal e demais autoridades", dizendo ainda que, "em breve", a avenida terá "uma faixa de rodagem e uma faixa bus, pelo que está, assim, garantida a segurança dos utilizadores, a proibição de estacionamento abusivo, bem como a melhoria da logística urbana, seja no serviço de entregas ao comércio ou o transporte de doentes".

A Lusa questionou adicionalmente qual o prazo para a implementação dessas duas faixas, se há espaço para tal entre João de Deus e Jardim do Morro, e se não há a possibilidade de a faixa bus ser precisamente ocupada pelos veículos de entregas ou de transporte de doentes, aguardando resposta.