Estas mulheres são "Guardiãs da Natureza" e lutam pelo desenvolvimento sustentável do território

No terreno desde junho de 2023, a rede "Guardiãs da Natureza" surgiu para responder às dificuldades de implementar um projeto sustentável e ligado à valorização do património em "regiões que normalmente estão muito isoladas”. A iniciativa está presente em perto de 30 zonas do país, envolvendo mais de 500 mulheres. 
Sofia Santana
Sofia Santana Editora Digital
02 jun. 2026, 08:00

Das paisagens montanhosas do Parque Natural de Montesinho ao coração azul do Algarve, na Ria Formosa, estende-se uma rede invisível que já une mais de 500 mulheres em torno de um propósito comum: o desenvolvimento sustentável do território. São as “Guardiãs da Natureza”, mulheres de diferentes idades e com formações profissionais distintas, que constituem pequenas comunidades de apoio, em regiões do país onde é mais difícil implementar um projeto ligado à proteção do mundo rural e à defesa do clima.

“Já é muito difícil ser empresário, muito mais no meio rural e muito mais sendo mulher no meio rural”, sublinha Susana Viseu, presidente da Bussines as Nature, a associação promotota desta rede, em entrevista ao Conta Lá.

No terreno desde junho de 2023, as "Guardiãs da Natureza" surgiram para responder às dificuldades que existem em "regiões que normalmente estão muito isoladas”. Inicialmente, a rede avançou em oito áreas protegidas, mas, três anos volvidos, o projeto já está presente em perto de 30 zonas do país, de Norte a Sul, estando em permanente expansão. Em abril, por exemplo, a rede chegou à Serra da Gardunha, depois de, em março, ter sido apresentada em Loulé. Atualmente, envolve um conjunto muito heterogéneo de mulheres. 

“Temos mulheres que vão dos 8 aos 80 anos, mulheres com a quarta classe e mulheres PhD, mulheres pescadoras, mariscadoras e pastoras, temos uma pastora que é doutorada em música, várias agricultoras, algumas são ceramistas, músicas, várias nas áreas do turismo, algumas que se dedicam à gastronomia”, detalha Susana Viseu.

Inserida no Movimento das Mulheres pelo Clima, dos países de língua portuguesa para o mundo, a rede conta com o apoio do Fundo Ambiental e do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). O objetivo central pasa por “criar um espaço de partilha e de apoio”, promovendo a capacitação para o empreendedorismo sustentável, ligado à valorização do património.

“Muitas delas estão a trabalhar noutras coisas, têm o seu emprego, mas têm esta vontade de fazer algo de diferente, de criar um projeto seu naqueles territórios”, acrescenta a responsável.

As "guardiãs" são convidadas a apresentarem os seus projetos e, através da rede, têm a oportunidade de desenvolver várias competências, desde ferramentas de comunicação e ligação à comunidade a conhecimentos sobre sustentabilidade e alterações climáticas, contando com o apoio de uma equipa de consultores.

"Começamos por fazer um bootcamp em cada uma das regiões, com guardiãs de vários sítios, em que são feitas várias atividades de team building, mas também de desenvolvimento pessoal para competências que são fundamentais a uma empresária - de resiliência, de comunicação, e onde também se começa a trabalhar o primeiro esboço do plano de negócio do seu projeto, com o apoio de uma equipa de consultores", explica Susana Viseu.

 

Foto: Bootcamp das Guardiãs da Natureza no Centro do país | DR

 

Numa segunda fase, o projeto desenvolve-se de forma mais aprofundada e é apresentado a potenciais investidores, através de um programa de mentoria. 

“Há um programa de mentoria. São atribuídos mentores para ajudarem no desenvolvimento do projeto e na apresentação a potenciais investidores ou parceiros, aquilo que nós chamamos os nature impact tank, uma espécie de shark tank, mas em que não se está tão focado apenas na vertente financeira e de negócio, mas também na componente de impacto: o que estes projetos geram ao nível do território, ao nível social e ao nível ambiental”, explica a responsável.

A rede já incubou cerca de 50 projetos e 35 foram apresentados a potenciais investidores e parceiros. Alguns estão “já muito próximo de uma fase de mercado, outros numa fase de criar as próprias startups e de começar a avançar”. 

Embora a capacitação para o empreendedorismo seja um objetivo central nesta comunidade de mulheres, Susana Viseu ressalva que não é necessário ter uma ideia de negócio para fazer parte da rede.

“Não tem necessariamente que se ter um projeto para desenvolver, o projeto até já pode estar consolidado e o papel da guardiã na rede pode ser só – e este só é também muito importante - de pôr mulheres em contacto umas com as outras, de ajudar à dinamização local, de trazer parceiros também para a própria rede”, destaca. 

De resto, Susana Viseu admite que um das maiores desafios do projeto é manter a rede unida e com dinâmicas de grupo por se tratarem de territórios que são extensos, muitos dos quais com "fracas acessibilidades", e algumas atividades serem em horário pós-laboral. Por isso, a rede criou uma figura que é "a guardiã das guardiãs", cujo papel é essencialmente mobilizar as participantes para os encontros e para as atividades. 

"Em cada território, uma delas fica com esta competência de conseguir puxar pelas outras, ir mantendo o ritmo, ir mantendo os encontros. Porque isto é fundamental para que a rede se mantenha unida e para que ela continue a atingir o seu objetivo", sublinha.

 

Foto: Bootcamp das Guardiãs da Natureza | DR

 

A longo prazo, a rede quer chegar às ilhas, aos Açores e à Madeira, de onde têm recebido pedidos para arrancarem com o projeto. Por outro lado, a internacionalização do projeto é outro objetivo, estando já identificadas "guardiãs" noutros países, com foco para os Países de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

"Temos contactos com as mulheres marítimas de Angola, com as mulheres da Cooperativa das Salinas de Cabo Verde, também em São Tomé e Príncipe, na Guiné. (...) Este é também um objetivo que temos, o de internacionalizar o projeto das Guardiãs, com prioridade para os países de língua oficial portuguesa. Mas temos vindo já a identificar e até a ser contactadas por outros países europeus", afirma Susana Viseu.

No dia 25 de setembro, Dia Nacional da Sustentabilidade, as guardiãs reunem-se num grande encontro nacional, num evento de partilha e divulgação, que vai também celebrar o Ano Internacional da Mulher Rural.