Exaustão emocional e sensação de ameaça: o impacto psicológico do mau tempo prolongado
Nas últimas semanas, Portugal tem sido atingido por sucessivas depressões meteorológicas com chuva intensa, vento forte e estragos significativos em várias regiões do país. A depressão Kristin, que afetou o território nacional com especial intensidade, provocou danos materiais, deixou populações desalojadas e esteve associada a vítimas mortais, levando à declaração do estado de calamidade até ao dia 8 de fevereiro. Em resposta ao impacto emocional provocado por esta situação, a Câmara Municipal de Leiria e o Instituto de Apoio à Criança, por exemplo, disponibilizaram acompanhamento psicológico a habitantes em situação de grande fragilidade emocional, numa das regiões mais afetadas pelo fenómeno meteorológico.
Além dos impactos visíveis no terreno, estas situações têm também consequências ao nível da saúde mental. “Os efeitos psicológicos mais comuns incluem aumento significativo da ansiedade, hipervigilância, dificuldades de sono, irritabilidade, sensação constante de ameaça e exaustão emocional. Muitas pessoas referem estar ‘sempre em alerta’, mesmo quando não estão diretamente em risco naquele momento”, começou por explicar, ao Conta Lá, Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica, autora e CEO da Academia Transformar. “É também frequente surgir uma sensação de perda de controlo, medo de repetição dos eventos e dificuldade em relaxar. Em contextos prolongados, como o que Portugal tem vivido, o impacto tende a acumular-se, levando a estados de cansaço psicológico profundo”.
Segundo a especialista, as reações emocionais não são iguais para todos. “A diferença está menos no evento em si e mais na combinação entre recursos internos, suporte social e contexto vivido antes, durante e depois do episódio. Pessoas com redes de apoio consistentes, estratégias de coping adaptativas e sensação de alguma previsibilidade tendem a recuperar mais rapidamente”, refere. Em contrapartida, “quem já tinha ansiedade prévia, experiências traumáticas anteriores, lutos não integrados ou menor suporte social, tem maior probabilidade de desenvolver ansiedade persistente”. Acresce ainda o contexto local, sublinha: “Naturalmente que vivermos numa localidade onde durante dias e dias, semanas e semanas, mantêm-se consequências da devastação, o que tenderá a constituir um fator de risco". Com peso "na recuperação emocional das pessoas”.
Entre o fenómeno extremo e a exposição contínua à informação
O impacto psicológico resulta tanto da vivência direta do fenómeno como da exposição contínua a alertas, previsões e notícias sobre o risco. “Ambos têm impacto”, explica Filipa Jardim da Silva, destacando que quanto maiores forem “as perdas e prejuízos e quanto mais devastação e impacto danoso na qualidade de vida, tendencialmente será maior o impacto psicológico”. Ao mesmo tempo, alerta para o efeito da exposição constante a discursos alarmistas: “O sistema nervoso humano não distingue bem entre perigo real e perigo antecipado de forma constante. Quando estamos expostos repetidamente a mensagens de ameaça, mesmo sem impacto direto, o corpo reage como se o risco fosse permanente. Isto mantém o sistema de stress ativado, aumenta a ansiedade e dificulta a regulação emocional, sobretudo quando a informação é excessiva, contraditória ou sensacionalista.”
As crianças e os adolescentes constituem um grupo especialmente sensível neste cenário. “São particularmente sensíveis a contextos de instabilidade, porque regulam as suas emoções através dos adultos de referência”, explica a psicóloga. Entre os sinais a observar estão “alterações no sono, regressões comportamentais, maior dependência, irritabilidade, medos intensos, dificuldades de concentração ou queixas somáticas sem causa médica aparente”. Nos adolescentes, “pode observar-se isolamento, alterações de humor mais marcadas ou comportamentos de evitamento”, sendo a persistência destas alterações ao longo do tempo o principal sinal de alerta.
De reforçar que nem todas as reações emocionais indicam um problema psicológico. “Medo, ansiedade e preocupação são reações normais em situações de risco”, esclarece. No entanto, “quando a ansiedade se mantém intensa durante várias semanas, interfere no sono, no trabalho, nas relações ou leva a um evitamento constante, é importante procurar apoio”. A especialista lembra ainda que “nem todas as experiências irão suscitar trauma ou o desenvolvimento de stress pós-traumático”, mas sublinha que “o nível de apoio e suporte nos primeiros dias e semanas é fundamental, precisamente para se prevenir a instalação de perturbação psicológica”.
Durante e após episódios de mau tempo extremo, existem estratégias simples que podem ajudar a reduzir o impacto emocional. Entre elas, Filipa Jardim da Silva destaca a importância de “reduzir a exposição contínua a notícias e alertas, mantendo-se informado em momentos específicos do dia e através de um ou dois canais de televisão”; manter rotinas simples de sono e alimentação; falar sobre o que se sente com pessoas de confiança; e respeitar um período de recuperação emocional. “Quando não controlamos nada lá fora, podemos controlar aquilo que dizemos a nós mesmos, aquilo em que escolhemos acreditar, aquilo em que nos queremos focar”, afirma.
A psicóloga alerta ainda para erros frequentes na forma como as pessoas lidam emocionalmente com situações de risco prolongado, como a minimização do impacto ou a procura de culpados. “Em contextos de crise, o equilíbrio entre informação, regulação emocional e apoio social é fundamental para prevenir sofrimento psicológico prolongado”, sublinha, defendendo uma maior concentração “nas soluções, na reconstrução e em quem aparece para ajudar”.
A especialista sublinha, por fim, a importância de reconhecer o impacto emocional cumulativo destes episódios, defendendo a necessidade de atenção aos sinais de cansaço psicológico, de respeito pelos tempos de recuperação e de procura de apoio sempre que o medo, a ansiedade ou a sensação de ameaça persistam para além do momento de perigo imediato.