Exposição mostra como o cinema em Faro também foi arma de resistência contra o Estado Novo

Exposição reúne programas e folhas de sala de exibições do Cineclube de Faro entre 1956 e 1974. Visita histórica pode ser feita na biblioteca da Universidade do Algarve até 30 de junho.

João Nápoles
João Nápoles Editor-executivo
12 jun. 2026, 08:00

Não é caso único, mas o nascimento do Cineclube de Faro foi, em si, um ato subversivo. Criado em 1956, durante o Estado Novo, propôs-se a mostrar e a pensar cinema de diferentes latitudes num tempo em que esse tipo de atividades conviviam com o controlo apertado da polícia política. 

“Em muitas cidades deste país, houve cineclubes que foram extintos precisamente por problemas com a PIDE”, conta-nos Jorge Carrega, investigador e coordenador do Grupo de Trabalho em Estudos Fílmicos do Centro de Investigação em Artes e Comunicação, da Universidade do Algarve. “O Cineclube de Faro, com todas as dificuldades que se viviam durante este período, porque havia um controle da censura, conseguiu, apesar de tudo, manter uma atividade regular que se mantém até hoje”, lembra.

O testemunho documental desses anos de “resistência cultural” é agora revelado na exposição “As sessões do Cineclube de Faro durante o Estado Novo”, patente na biblioteca da Universidade do Algarve, até ao final deste mês de junho.

A exposição é estruturada em torno de uma seleção de 30 programas e folhas de sala originais de exibições entre 1956 e 1974. “No arquivo do Cineclube de Faro ainda encontramos um número muito significativo destes programas, que eram impressos aqui nas tipografias de Faro, nomeadamente na tipografia União. E alguns têm uma qualidade gráfica também interessante, do ponto de vista plástico”, explica o também curador da exposição.

“Nós articulamos a exposição em torno dos programas, complementada com algumas referências filmográficas, com alguns DVDs para ilustrar melhor os filmes que eram exibidos, e um conjunto de referências bibliográficas importantes sobre este período”, avança Jorge Carrega.

No limbo da legalidade

Mas voltemos ao início, ao ato subversivo de nascer. “O cineclube é fundado em 1956, e a primeira sessão estava agendada para o início de Março. Mas não se realizou simplesmente porque a folha de sala não tinha sido visada pelo serviço da censura. Acabou por ser adiada para Abril”, conta o investigador.

O arranque das exibições fez-se com o clássico “Ladrões de Bicicletas”, de Vittorio De Sica, um filme de 1948 que é uma obra fundamental do neorrealismo. “Percebemos que há uma seleção de obras que, naturalmente, levantavam questões de ordem social e política”, confirma Jorge Carrega. Isso pode perceber-se no catálogo de exibições. A segunda sessão, por exemplo, foi de um filme sobre a pena de morte, do premiado realizador francês André Cayatte. No catálogo, contam-se ainda filmes como “Há Lodo no Cais”, de Elia Kazan, ou “O Homem de Alcatraz”, de John Frankenheimer. Filmes que, de facto, “revelam essa consciência social”, confirma.

Estes eram, no entanto, títulos autorizados a serem exibidos no circuito comercial, ainda que com cortes, porque todos eram visados pela censura. “Agora, aqui a grande questão é que se percebia que, pela escolha dos filmes, muitos deles com estes temas de preocupação social, que se proporcionava à volta dos filmes o debate. E era isso que mais assustava o Estado Novo e fazia com que a PIDE acompanhasse de perto a atividade cineclubista”, conta o investigador.

E não era por acaso. “Havia, de facto, pessoas de esquerda, alguns até membros do Partido Comunista, na clandestinidade, que eram associados aos cineclubes. Daí que muitos tenham simplesmente encerrado. E muitas vezes, membros das direções dos cineclubes, e também no Cineclube de Faro, eram presos, eram interrogados por atividades que se consideravam suspeitas ou subversivas”, explica. 

Os filmes eram autorizados, as exibições permitidas. O debate promovido a partir das exibições é que era a verdadeira “transgressão”. Mas também os textos dos programas que se faziam circular, que eram retirados de revistas de referência do cinema internacional. “Um texto escrito pelo Truffaut sobre um filme do André Cayatte era uma coisa significativa”, afirma Jorge Carrega.

O curador da mostra resume: “Os cineclubes exerceram essa resistência, ao promover a cultura e o debate em torno da cultura. É tão simples como isto. Vivemos um período em que o pensamento crítico era altamente controlado e suprimido, na medida do possível, pelo aparelho do Estado Novo”.