Fernando Gonçalves é o único habitante de um lugar conhecido como a "aldeia dos hobbits"

Fernando Gonçalves é o guardião da Branda de Santo António de Vale de Poldros, um pequeno recanto em plena Serra da Peneda, no concelho de Monção. Aos 58 anos, é o último habitante deste lugar conhecido pelos turistas como a “aldeia dos hobbits”. 
Pedro Marcos Editor de imagem
Ana Rita Cristovão
Ana Rita Cristovão Jornalista
João Lacerda
21 mar. 2026, 08:00

No alto da Serra da Peneda, em Monção, o som do vento rompe com o silêncio. Não se vê vivalma, consequência das inevitabilidades do tempo.

Em tempos idos, era nestes lugares cimeiros, as brandas, que as populações do Alto Minho viviam durante os meses de verão, na prática da transumância: mudavam-se com os animais para pequenas casas de xisto e granito – as cardenhas – e aqui subsistiam entre a pastorícia e a agricultura até à chegada do inverno, altura em que desciam para as inverneiras – as zonas baixas onde o frio se suportava melhor.

Uma tradição que se desvaneceu com o tempo e a saída das populações em busca de uma vida melhor. O mesmo fez Fernando Gonçalves. Emigrou para Andorra para “fugir à tropa”, diz na brincadeira. Dedicou-se à agropecuária, depois ao turismo, e foi então que começou a desenrolar a ideia de um dia voltar a casa.

E assim foi. Aos 35 anos regressou à Branda de Santo António de Vale de Poldros. A 1200 metros de altitude e a 45 minutos de carro da vila mais próxima, Monção, Fernando Gonçalves é hoje o único habitante deste lugar recôndito.

“Aqui há paz e sossego, é um sítio bonito, mas quem gosta gosta, quem não gosta… as pessoas hoje sonham com o urbanismo, estão todas ‘urbanitas’ ”, confessa em conversa com o Conta Lá.

Há 23 anos a honrar o título de guardião da branda, não esconde “o bocadinho” que custou passar da azáfama para o silêncio. “Fazia-me mal, quando vim para aqui estava acostumado ao barulho”, diz.

“Às vezes dizem-me ‘Você é feliz?’. Umas vezes sou feliz, outras sou muito feliz, outras vezes estou contente, é como toda a gente. Eu já vivi em apartamentos… conhecemos os vizinhos? Na cidade andam lá a controlar os carrinhos de compras sozinhos para se entreter…aqui há paz.”

O trabalho foi o grande aliado para fugir ao som ensurdecedor do silêncio. Num ato de coragem, Fernando Gonçalves pôs mãos ao caminho e abriu um restaurante no cimo da branda que, apesar de distante dos grandes centros urbanos, chama gente de todos os pontos, incluindo do país vizinho.

 “Foi uma das coisas que gostava e é uma forma de estar em contacto com pessoas, com clientes, falar, vêm de muitos lados”, admite, lembrando que no início assumia simultaneamente as funções de proprietário, anfitrião, cozinheiro e servir às mesas. “Ao princípio foi difícil porque não havia gente, cheguei a trabalhar sozinho aqui e pedia ajuda às pessoas que vinham comer para descascar batatas”, recorda.

Num lugar encantado, o esquecimento vai sendo colmatado com a visita ocasional de turistas, movidos pela fama que a branda ganhou de “Aldeia dos Hobbits”, pelas parecenças com os cenários verdejantes da saga “Senhor dos Anéis” – título que Fernando desaprova, diz que preferia “um nome português, para honrar a língua de Camões”.

Entre a força do vento, os raios de sol e o cheiro da natureza, é numa luta diária contra o tempo e o silêncio que Fernando Gonçalves se mostra convicto em contrariar a tendência prosseguir a vida na branda.