Festival dos Moinhos aposta em experiências imersivas para valorizar património em risco
Num contexto em que muitos moinhos continuam em risco de degradação e perda de função, o Festival dos Moinhos de Portugal regressa a 11 e 12 de abril com propostas que convidam à redescoberta deste património através de experiências imersivas e contacto direto com as comunidades.
Visitar moinhos em funcionamento, acompanhar o processo tradicional de moagem ou participar na confeção de pão são algumas das iniciativas que marcam esta segunda edição, que decorre de forma descentralizada por Águeda, Albergaria-a-Velha, Nelas, Sever do Vouga e Vagos. Ao longo de dois dias, o programa reúne mais de 50 atividades, incluindo recriações históricas, percursos pedestres, mercados temáticos e provas gastronómicas.
Promovido pelos cinco municípios que integram a Rota dos Moinhos de Portugal, o festival assume-se como um projeto conjunto de valorização do património molinológico. Em entrevista ao Conta Lá, a organização do festival sublinha que o objetivo passa por “afirmar a Rota dos Moinhos como um produto turístico integrado, de escala intermunicipal” e transformar estes espaços em experiências “qualificadas, acessíveis e relevantes para diferentes públicos”.
De uma edição fundadora a um projeto em consolidação
Depois de uma primeira edição que “superou as expectativas em termos de adesão, mobilização local e capacidade de execução conjunta entre municípios”, o festival regressa com uma programação mais densa e uma estrutura mais consolidada.
A evolução é visível na diversidade de atividades e na forma como os municípios e parceiros locais se articulam, refletindo uma maior maturidade do projeto. A organização destaca ainda uma abordagem mais estruturada à comunicação e à ativação do território, bem como o reforço das experiências participativas.
Essa aposta traduz-se também numa maior atenção à mediação cultural e à interpretação do património, procurando proporcionar uma experiência mais imersiva. Mais do que visitar, a proposta passa por envolver os participantes no funcionamento e na história dos moinhos, criando uma ligação direta com as comunidades.
Impacto nas comunidades e valorização do território
O crescimento esperado não se limita ao aumento do número de visitantes. Embora a organização admita uma subida na procura e no tempo de permanência, o foco estende-se ao impacto gerado nas comunidades locais.
“Mais do que indicadores quantitativos, o objetivo passa pelo impacto qualitativo, nomeadamente no envolvimento das comunidades, na valorização do património e no aumento do sentimento de pertença”, refere a organização do festival. Ao colocar os moinhos no centro da experiência turística, o projeto procura dinamizar economias locais e reforçar a atratividade de territórios de baixa densidade. “Cria novas dinâmicas de visitação, promove a circulação de pessoas e rendimento e reforça a autoestima das comunidades locais”, acrescenta.
A lógica em rede é, aliás, um dos elementos distintivos da iniciativa, ao promover uma visão integrada do património molinológico, em vez de intervenções isoladas, permitindo dar escala e coerência a um conjunto de recursos dispersos pelo território.
Entre a preservação e o risco de desaparecimento
Apesar da crescente valorização, os desafios na preservação dos moinhos continuam a marcar este património. A degradação das estruturas, a escassez de recursos para manutenção e a perda de conhecimento técnico colocam em risco a sua continuidade.
A organização alerta para a necessidade de encontrar modelos sustentáveis que garantam a utilização regular destes espaços, evitando que se transformem “apenas em elementos estáticos de memória”. Sem iniciativas de ativação, o risco vai além da dimensão física. “Está em causa não só o património material, mas também um conjunto de saberes, práticas e narrativas que lhe estão associados”, sublinha, apontando para um impacto direto na identidade cultural dos territórios.
Ao apostar em experiências que ligam visitantes e comunidades - da moagem tradicional à gastronomia local - o Festival dos Moinhos de Portugal procura dar novo uso e significado a estes espaços. Mais do que preservar estruturas, a iniciativa tenta garantir que este património continua vivo, com função e lugar no presente.