Filme coletivo "Ali, Aqui" dá a voz a moradores do Monte da Caparica

“Ali, Aqui” resultou de uma oficina de cinema comunitário, intitulada “Atlas Almada”, que foi desenvolvida pela produtora Terratreme Filmes. O filme é feito com moradores de bairros do Monte da Caparica e mostra que “o cinema ajuda a compreender o lugar de cada um"
Agência Lusa
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25 mai. 2026, 14:18

O filme “Ali, Aqui”, feito com moradores de bairros do Monte da Caparica, em Almada, estreia-se na quinta-feira, mostrando que “o cinema ajuda a compreender o lugar de cada um”, disse à Lusa a produtora e realizadora Susana Nobre.

“Ali, Aqui” resultou de uma oficina de cinema comunitário, intitulada “Atlas Almada”, que foi desenvolvida pela produtora Terratreme Filmes, a convite da autarquia de Almada, no distrito de Setúbal, com os moradores do Monte da Caparica e com orientação de profissionais, nomeadamente dos realizadores Basil da Cunha e Falcão Nhaga.

Susana Nobre, da Terratreme Filmes, explicou à Lusa que o “Atlas Almada” funcionou como “uma espécie de ramo de um projeto mais cultural de melhoria nas condições de vida, materiais, sociais, neste território do Monte da Caparica”.

“A presidente da Câmara [Inês de Medeiros] queria que fosse um projeto de cinema e que perdurasse no tempo”, teve apoio do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e envolveu o Centro Social e Paroquial Cristo Rei, que trabalha no terreno com os residentes dos bairros sociais e informais do Monte da Caparica.

Susana Nobre recorda que os primeiros contactos com associações locais, como o Centro Social e Paroquial Cristo Rei, foram essenciais para o sucesso do projeto, desenvolvido ao longo de várias semanas, entre 2024 e 2025.

“Os projetos têm de criar a sua teia, temos de conhecer as pessoas. Usámos o espaço de uma loja, que dava para a rua, e criou-se ali uma convivência com a vizinhança. São zonas com muitas crianças na rua e toda essa convivência ajudou a que o projeto tivesse um lugar. Pertenceu àquele sítio, de facto”, contou.

"Ali, Aqui" foi feito por Daniela Mendes, Danty Alves, Fábio Lima, Jamir Mendes, José Monteiro, Marlene Nobre, Martina Maher, Milton Fernandes, Mónica André, Nelson Semedo, Paulino Varela, Rafael Moura, Rodrigo Galego, Edmilson Furtado e Victoria Catarino.

“Rafa sai de casa para fazer um recado ao pai, ir comprar vinho para a cachupa do almoço. Contrariado, anda de loja em loja num vaguear que o distrai do regresso a casa. A partir da história principal, o filme vai revelando outras”, lê-se na sinopse de “Ali, Aqui”, que já teve algumas exibições, nomeadamente no festival DocLisboa em 2025.

São as histórias dos moradores de um território desfavorecido, com problemas graves de habitação e de estigmatização, em bairros como Penajoia, Três Vales, Asilo, Bairro Branco, Bairro Cor-de-Rosa e Bairro Amarelo.

“O cinema pode trazer uma imagem mais completa, mais integrada, pode abrir o prisma e o olhar para estas comunidades e para estes espaços e para estas vidas. As próprias populações pedem isto, não se sentem representadas nos discursos veiculados nos meios de comunicação social”, sublinhou Susana Nobre.

Para a realizadora e produtora, o cinema também “pode ajudar a prevenir uma certa violência, porque ajuda a compreender o lugar de cada um, os motivos de cada um”.

“Atlas Almada” encaixa-se ainda num trabalho de mediação artística que a produtora Terratreme tem desenvolvido e que gostaria de replicar noutros territórios. "Não é uma linha editorial da Terratreme, mas há uma afinidade em trabalhar nestas margens", disse Susana Nobre.

“Ali, Aqui” tem na quinta-feira a estreia comercial, mas é uma “micro-exibição” para responder a algumas solicitações.

“Decidimos fazer este investimento de levar o filme a sala, aproveitando a abertura que o Cinema City [exibidora] tem para projetos um bocadinho mais marginais”, esclareceu. O filme vai passar nos cinemas City Alvalade (Lisboa) e Setúbal, e na Academia Almadense.