Floresta privada e proprietários ausentes ou desconhecidos: o "grande problema" do abandono na Sertã
Do turismo de natureza à gastronomia, é a cerca de 20 quilómetros do ponto mais central do país que a vila da Sertã chama a atenção pelas praias fluviais idílicas e pelo maranho, enchido certificado com Indicação Geográfica Protegida.
O concelho tem na Estrada Nacional 2 – que o Conta Lá está a percorrer – um dos principais chamarizes para atrair turistas, mas por estes dias até uma simples viagem é um desafio.
“Temos um troço da Nacional 2 encerrado ainda, devido às tempestades. É um troço sobre a alçada da Infraestruturas de Portugal, há risco de derrocada de taludes e estará fechado até que sejam realizadas obras”, admite o presidente da Câmara da Sertã, Carlos Miranda.
Na emissão do Conta Lá dedicada a este concelho, o autarca confessa que a situação deste troço, que liga a freguesia de Pedrógão Pequeno, na Sertã, ao concelho de Pedrógão Grande, “causa muitos transtornos porque há veículos agrícolas e bicicletas que não podem usar a alternativa do IC8”, A única “solução viável” encontrada foi a de intervir num caminho “de terra batida, que acresce dois quilómetros de distância, onde estamos a regularizar o piso para que possa haver alguma segurança, embora seja uma situação muito precária”.
A informação por parte da Infraestruturas de Portugal é a de que “a análise foi feita, o projeto para a empreitada de estabilização de taludes está pronto para ir a concurso, esperemos, até ao final deste semestre de 2026”, diz o edil.
Num município onde as consequências das tempestades são de “milhões de euros de prejuízos”, o impacto faz-se sentir ainda por esta altura ao nível das comunicações móveis, que "não estão restabelecidas na totalidade, é o setor que está mais atrasado neste momento".
"O estrago foi gigantesco no que diz respeito à rede elétrica e telecomunicações - a rede elétrica já foi reposta, embora de forma um pouco precária”, expõe Carlos Miranda, com “dezenas de quilómetros de rede destruída”.
Com a floresta dividida, não há mãos para assegurar a prevenção
Com perto de 15 mil habitantes, o concelho da Sertã encaixa-se num vale xistoso onde mais de 70% do território é floresta. São “dezenas de milhares de parcelas florestais, pequenas propriedades, 0.3 hectares por parcela” que se traduzem numa difícil gestão para quem governa.
“Toda a floresta na Sertã é privada e essa é uma dificuldade que existe porque os proprietários são ausentes ou já nem sabem que são proprietários. O grande problema é [a autarquia] não conhecer a maior parte dos proprietários”, expõe o autarca Carlos Miranda.
O governante admite mesmo ao Conta Lá que há “uma grande parte da floresta que vai ficar sem intervenção, seguramente, e não posso fazer nada quanto a isso”.
Num território suscetível a grandes incêndios, como já aconteceu em 2017 ou 2021, o município admite que além de não ter forma de chegar aos proprietários, não tem também meios para chegar a todo o lado.
“A grande preocupação neste momento é a desobstrução e regularização dos caminhos florestais, essenciais para o combate aos incêndios – só os caminhos contemplados no plano de defesa contra incêndios estamos a falar de quase dois mil quilómetros – e, por outro lado, temos que tentar retirar as árvores que caíram [com a tempestade] e que pode alimentar incêndios. São mais de 30 mil hectares de floresta e a maior parte foi atingida”, sublinha.
“Nós, município, já não temos meios. E mesmo as empresas privadas que trabalham na floresta, porque os estragos são muito grandes e o trabalho é enorme por toda a região, já não têm mais capacidade”, alerta.
“O país tem de se confrontar de forma muito séria e rigorosa que é saber se queremos transformar efetivamente a paisagem do Pinhal Interior temos que tomar medidas muito sérias e muitas vezes nem tem a ver com recursos financeiros, tem a ver com legislação. Tem de haver legislação corajosa para fazer com que as pessoas se interessem e responsabilizem pela sua propriedade”, diz o presidente da Câmara da Sertã, concluindo que o cenário este ano “não será muito diferente da realidade que temos noutros verões, temos é o acréscimo de árvores caídas, mas o grande problema que temos nesta região do Pinhal Interior é um problema de abandono da propriedade e falta de gestão”.
Uma falta de gestão que foi também elencada na emissão do Conta Lá pela coordenadora Centro de Inovação e Competências da Floresta, Sofia Knapic. A responsável quis deixar a mensagem de que "não há espécies que sejam árvores incendiárias ou árvores bombeiras", mas sim "um preconceito que existe por ignorância e falta de conhecimento".
"É importante as pessoas perceberem que a floresta é um bem essencial que tem de ser preservado e se for bem gerido e cuidado é uma mais valia. O que arde é floresta mal gerida”, sublinha.