"Free-Way: Pega e Leva", um projeto do Porto para combater pobreza menstrual
Um grupo de sete estudantes universitárias do Porto está a combater a pobreza menstrual com dispensadores gratuitos de produtos de higiene feminina, como pensos e tampões, em faculdades e escolas, tendo começado este trabalho ainda no 11.º ano.
Intitulado "Free-Way: Pega e Leva", o projeto começou na Escola Secundária Inês de Castro, em Vila Nova de Gaia, no ano letivo 2022/23, com a instalação de cinco dispensadores nas casas de banho daquele estabelecimento de ensino.
As alunas cresceram e, hoje, chegaram à Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), que este mês assinou uma parceria com o projeto para instalar a mesma solução no ‘campus’, a última de uma série de conquistas.
Além do Bairro Feliz, iniciativa solidária do Pingo Doce, têm recolhido apoios em vários sítios, e em 2025 concorreram, com sucesso, ao Orçamento Participativo de Gaia, aguardando agora respostas do Gabinete da Juventude para poderem alargar a oferta de dispensadores a mais escolas daquele concelho, mas também a “todas ou quase todas as faculdades” do Grande Porto, disse à Lusa uma das fundadoras, Maria Seco.
Outra das fundadoras, Maria João Duarte, nota que decidiram “não esperar pelo amanhã para fazer mudanças” no seu entorno, uma vez que começaram o projeto quando foi anunciado que estes produtos de higiene menstrual seriam disponibilizados gratuitamente em escolas pelo Governo.
O projeto tem evoluído para chegar, agora, ao ensino superior, onde os custos destes produtos podem acabar por "pesar" no orçamento de alunas deslocadas. Pelo ‘feedback’, perceberam que pode levar a que “faltem às aulas”, se não tiverem estes produtos disponíveis.
Às seis fundadoras juntou-se, recentemente, o primeiro rapaz, além de alguns núcleos que ajudam a manter o projeto na Inês de Castro, onde tudo começou, depois de verem uma curta-metragem neerlandesa, “Sem Mancha”, realizada por Emma Branderhorst, sobre a pobreza menstrual nos Países Baixos.
Maria João Duarte, Catarina Silva, Mafalda Costa, Beatriz Azevedo, Maria Seco e Beatriz Lago criaram o projeto para combater uma lacuna de serviço público e combater “realidades injustas”, atira Maria Seco.
“Quão assustador é sabermos, por exemplo agora que conhecemos mais pessoas, rapazes e mulheres, (quantos) não têm noção do corpo da mulher e das suas necessidades”, lamenta.
Depois de o Estado ter anunciado ter chegado a todas as escolas de ensino básico e secundário em 2025, quase dois anos depois do início do projeto das adolescentes, respondem a uma necessidade ainda premente no ensino superior, mas querem depois chegar “aos locais de trabalho, às mulheres que já estão inseridas no meio profissional”, para universalizar o acesso.
A solução mantém-se simples: um dispensador, alimentado com pensos e tampões, com o apoio dos parceiros que têm, como a FEUP no que aos seus diz respeito, e em que qualquer pessoa que precise pode tirar o que necessita, e quem puder pode ajudar a repor o material, numa lógica de “entreajuda” e solidariedade comunitária.
Também pretendem “diminuir o tabu quanto ao tema”, afirma Maria João Duarte, razão pela qual têm participado e dinamizado palestras para normalizar o assunto, entre raparigas e rapazes, e aos 19 anos sentem que o feedback “maravilhoso”, que vem de “alunas, professoras, pais, professores homens” e outros parceiros, dá alento para “ter mais voz e tentar melhorar a realidade e o mundo” que as rodeia e em que vivem.
Para a frente, além da expansão, querem também alargar a equipa, até porque “qualquer pessoa que queira fazer parte é bem-vinda”, diz Maria Seco, porque “toda a ajuda” faz a diferença.
“A longo prazo, pretende-se integrar esta iniciativa em políticas públicas, tornando a distribuição de produtos de higiene feminina uma medida institucionalizada e permanente, assim como desenvolver o projeto a nível tecnológico e sustentável”, pode ler-se num documento de apresentação do Free-Way.