Góis luta por melhores acessibilidades e espera ter 85% do concelho com fibra ótica até ao final do ano
No centro do país, no percurso da Nacional 2, Góis destaca-se pela imponência da serra da Lousã e das Aldeias de Xisto, pelas águas cristalinas das praias fluviais, a tradição das máscaras do Entrudo e por ser ainda a casa da segunda maior concentração motard do país. Com capacidade de triplicar a presença de pessoas no concelho durante eventos como este, o município vê ainda a fixação de novos habitantes como uma difícil missão, consequência da falta de acessibilidades e difíceis comunicações.
Na emissão do Conta Lá, o presidente da autarquia de Góis, Rui Sampaio, admitiu que um dos maiores obstáculos é a falta de “uma intervenção estrutural” na Estrada Nacional 342, que liga o concelho à A13 (variante da A1).
“É uma tarefa difícil atrair jovens para o concelho porque, para os territórios serem atrativos tem de haver uma conjugação de fatores - habitação, emprego, boas acessibilidades e comunicações. Temos tido uma luta muito forte no sentido de melhorar as acessibilidades ao concelho de Góis, em tempos esteve prevista uma intervenção estrutural na EN342, que nunca se concretizou e foi posta na gaveta”, recorda.
Com a requalificação da principal via de acesso ao concelho fora dos planos do Governo, o edil admite porém uma “janela de oportunidade” que surgirá com a requalificação do IP3.
“Foi anunciada pelo primeiro-ministro uma variante da ligação que vai surgir do IP3 à A13, creio que a Infraestruturas de Portugal já foi instruída no sentido de fazer o respetivo estudo – e isso permitirá uma ligação a Vila Nova de Poiares e a Góis”, explana, admitindo que apesar de “não ser o ideal, é o possível”.
Até ao final do ano, Góis espera ter 85% do concelho com fibra ótica
Também nas comunicações, Góis enfrenta outra dificuldade. Com várias aldeias dispersas, ter acesso a rede móvel e Internet é hoje um recurso essencial para fixar população.
Apesar dos casos esporádicos, como o da jovem Cátia Lucas, uma das únicas quatro habitantes da aldeia de Aigra Nova e que na emissão do Conta Lá deixou o testemunho da “resiliência de quem habita na serra”, é difícil conseguir atrair novos habitantes.
“Os jovens quando chegam não têm internet e é logo um motivo que os afasta. Temos muitas aldeias e a maior parte tem pouca população, mas há períodos sazonais em que há muita gente e essas pessoas quando vêm querem ter comunicações e alguns deles, ainda durante a pandemia, queriam vir para cá mas não tinham comunicações”, admite o presidente da Câmara.
“O que queremos é melhores comunicações, porque isso permite o teletrabalho. Hoje qualquer jovem é licenciado em áreas que não há emprego neste território e isso acrescenta dificuldade, mas com o teletrabalho já é possível”, acrescenta o edil.
Nesse sentido, o município está já a preparar-se para dar resposta, integrando um projeto da ANACOM para implementar fibra ótica no concelho. “O que se pretende é que mais de 85% fique coberto e mais de 2.500 habitações com acesso facilitado à rede de comunicações. Está previsto que até ao final do ano a primeira parte esteja concluída, sendo que Góis vai ser dos primeiros a nível nacional”, sublinha.
O rasto das tempestades ainda se faz sentir
Num território 90% florestal, Góis é um dos concelhos onde os efeitos das tempestades de fevereiro ainda se faz sentir e gera preocupação. Desde as comunicações, onde “nem todas as pessoas têm hoje ainda as melhores condições de acesso” ao combustível que falta limpar na floresta.
“40% do que foi impactado já está limpo mas há algumas estradas secundárias e zonas onde ainda há muito material lenhoso caído”, refere o autarca Rui Sampaio.
“Um caso de estudo”: como Góis consegue passar do isolamento a 15 mil visitantes
Não obstante os obstáculos que Góis enfrenta, é no turismo de motards que o concelho tem uma dos seus motores para a economia local.
Ricardo Pinto, do Góis Moto Clube, referiu na emissão do Conta Lá a capacidade agregadora que o evento, a acontecer desde a década de 90, traz todos os anos ao concelho.
“Góis é caso de estudo por várias situações e esta é uma delas. O que começou por ser uma brincadeira de um grupo de amigos foi crescendo” até se atingir hoje a bandeira das 15 mil pessoas num fim de semana, “a segunda maior concentração de Portugal”, refere.
“A concentração de Góis é muito maior do que que o concelho de Góis, vai muito além do concelho, todos os concelhos à volta ficam repletos de motas”, explica o responsável.
Também para conseguir dar resposta de alojamento a todos os que procuram o concelho, a Cooperativa Agrícola do Concelho de Góis tem em curso a construção da primeira unidade hoteleira da região. Uma obra que para o vice-presidente da autarquia, responsável pelo Turismo, Nuno Bandeira, admite que vai “colmatar uma falta e evitar que os turistas tenham de pernoitar no hotel mais próximo que fica a 50 quilómetros, em Pedrógão Grande”.
Para mudar territórios como Góis, são precisas “políticas nacionais”
Com perspetivas risonhas para o futuro, na emissão do Conta Lá o presidente da Câmara de Góis deixou no entanto um apelo ao Governo para conseguir inverter o cenário de despovoamento e falta de atração de territórios de baixa densidade, num trabalho onde a diferença “não pode resultar só do que é feito pelos autarcas”.
Territórios como o nosso, onde é preciso trabalhar o dobro para conseguir metade do que os outros conseguem… há políticas estruturantes que não resultam só do que os autarcas têm de fazer. Quem está no Governo tem de olhar para estes territórios e ver de facto o que é diferente, o que é preciso fazer”, admite, referindo por exemplo a necessidade de alterar a lei das finanças locais para criar mais equidade entre municípios.
“Isso tem de ser combatido com políticas locais e nacionais. É preciso caminhar noutro sentido mas é preciso que haja vontade de o fazer e que se crie, junto daqueles que têm mais financiamento, a possibilidade de distribuir por todos e podermos tratar o território de forma mais igual”, conclui.