Granizo destrói dezenas de hortas e culturas agrícolas no Norte. O que explica estas tempestades?
Ao longo da semana, várias regiões de Trás-os-Montes e Douro foram atingidas por tempestades repentinas e trovoada que provocaram prejuízos avultados. O IPMA admite que a instabilidade regresse nos próximos dias.
No domingo à tarde, a trovoada, a chuva intensa e a queda de granizo deixaram toda a população de Carvalhelhos em sobressalto. Em menos de uma hora, a aldeia do concelho transmontano de Boticas ficou com a maioria da área agrícola arrasada.
"Na minha horta, perdi cebolas, tomates, curgetes, pimentos, couves e alfaces", conta Albano Álvares, morador em Carvalhelhos e presidente da CONFAGRI – Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola de Portugal. Segundo o dirigente, só na aldeia ficaram destruídas cerca de 40 hortas familiares. "Não são hortas de negócio, são de autoconsumo, mas são muito relevantes para o sustento das casas", sublinha.
A violência da tempestade causou ainda prejuízos nas explorações de mais de uma dezena de agricultores da comunidade. O granizo rasgou folhas de milho, atingiu campos de batata e deitou por terra áreas de feno que estavam prestes a ser cortadas.
Numa região de montanha situada a cerca de 800 metros de altitude, onde os ciclos agrícolas decorrem mais tarde, os produtores aguardam agora para perceber se algumas culturas conseguirão recuperar até à colheita.
"O milho seria para apanhar em setembro ou outubro. Vamos ver como cresce e se ainda dará para aproveitar alguma coisa", afirma Albano Álvares, que lembra que os prejuízos poderão estender-se à atividade pecuária, sustentada por algumas destas culturas.
Temporal atingiu várias zonas agrícolas do Norte
Carvalhelhos não foi, porém, um caso isolado. Os episódios de trovoada que atravessaram o Norte do país, e até o Alentejo, esta quarta-feira, provocaram acumulações invulgares de granizo e danos agrícolas em diferentes localidades.
Na Região Demarcada do Douro, foram reportados estragos em vinhas, olivais e pomares, precisamente numa fase crucial do desenvolvimento vegetativo das culturas. Para uma região cuja economia depende fortemente da agricultura, sobretudo da produção vitivinícola, episódios desta natureza podem traduzir-se em perdas significativas de produção e de rendimento.
Em Portugal, o granizo é um dos riscos normalmente cobertos pelo Sistema de Seguros Agrícolas apoiado pelo Estado mas nem todos os agricultores estão protegidos. Em zonas como Trás-os-Montes, muitos pequenos produtores não fazem seguro por considerarem que o custo é elevado face ao valor da produção. No caso de quem foi atingido em Carvalhelhos, Albano Álvares diz que ninguém avançou pedidos de apoio.
"É difícil calcular o valor das perdas. Também não sabemos se haverá algum mecanismo de ajuda. Não somos queixinhas. É ir à luta. Ainda havemos de recuperar alguma coisa", afirma.
O que explica estas tempestades?
A meteorologista Alexandra Fonseca, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), explica que as chamadas “trovoadas de verão” resultam de uma situação de forte instabilidade atmosférica, típica dos períodos mais quentes do ano.
Segundo a especialista, a combinação entre massas de ar quente e húmido e o relevo do interior Norte cria condições favoráveis à formação de nuvens de grande desenvolvimento vertical e ao aumento de energia na atmosfera.
"Há dois gatilhos bastante fortes para estas situações: a temperatura e a existência de uma massa de ar quente e instável, mas também a orografia. As terras mais altas fazem com que o ar suba e se desenvolvam estas nuvens de convecção", explica.
A meteorologista adianta que o risco de novos fenómenos pode aumentar a partir do fim de semana, com a subida das temperaturas e a aproximação de uma depressão em altitude.
Questionada sobre uma eventual relação com as alterações climáticas, Alexandra Fonseca defende prudência. "Todos os verões acontecem situações deste género. O aumento da temperatura e os eventos extremos podem eventualmente contribuir para fenómenos mais localizados, mas não existem estudos que permitam estabelecer uma relação direta", conclui.