"Há cada vez mais jovens nas urgências”: o perigo dos desafios nas redes sociais
“Amarraram um rapaz a uma cadeira, deitaram-lhe gasolina e atearam fogo com um isqueiro. O corpo dele começou a queimar e só depois é que o atiraram para a piscina para apagar.” A descrição é feita por uma jovem de 19 anos – a quem chamamos Inês, nome fictício para preservar o anonimato – que assistiu à cena numa transmissão em direto na rede social TikTok. Nunca participou em nenhum desafio perigoso, mas não esquece o que viu, porque não ficou por ali.
Nos últimos meses, um novo exemplo começou a ganhar visibilidade: ingerir quantidades elevadas de paracetamol e adiar ao máximo a ida ao hospital. Um gesto banal transformado em conteúdo de risco. As consequências podem ser graves, incluindo falência hepática e necessidade de transplante. Contudo, este fenómeno não começa aqui e está longe de ser exceção.
Desafios perigosos têm marcado presença nas redes sociais ao longo da última década e continuam a surgir sob novas formas. O chamado Blackout Challenge, que consiste em provocar a perda de consciência por falta de oxigénio, está associado a várias mortes internacionais, incluindo o caso de um jovem de 12 anos no Reino Unido que acabou em morte cerebral. A Baleia Azul, uma sequência de desafios que culminava em suicídio, foi associada a mais de uma centena de mortes a nível global. Em Portugal, um dos casos mais mediáticos ocorreu em 2017, em Albufeira, onde uma jovem de 18 anos se atirou de um viaduto e acabou com vários ferimentos. Alguns episódios de hospitalização por automutilação também estiveram relacionados com o fenómeno.
Mais recentemente, continuam a surgir desafios que envolvem ingestão de substâncias, equilíbrio em estruturas instáveis ou práticas perigosas, acumulando quedas, intoxicações e intervenções médicas urgentes.
Um fenómeno antigo num sistema que o amplifica
“Isto sempre existiu. Os jovens estão numa fase de construção da identidade e procuram reconhecimento e pertença ao grupo”, afirma Tânia Gaspar, psicóloga e coordenadora do estudo Health Behaviour in School-aged Children (HBSC) em Portugal, em entrevista ao Conta Lá. A predisposição para o risco não é nova. O que mudou foi a escala e a forma como esse risco é amplificado.
Relatórios internacionais, incluindo análises da 5Rights Foundation e da Eurochild no âmbito do Digital Services Act, mostram que o design das plataformas digitais tende a privilegiar conteúdos mais extremos, emocionais ou chocantes – precisamente aqueles que geram maior envolvimento. De acordo com Tito de Morais, fundador do projeto Agarrados à Net e especialista em segurança digital, este tipo de conteúdos encaixa na lógica de funcionamento das plataformas. “Se não fossem estas plataformas, estes desafios não teriam tanta capacidade de disseminação”, sublinha, acrescentando que os conteúdos digitais “são facilmente pesquisáveis, fáceis de replicar e têm tendência para permanecer na Internet”.
“Hoje, esse contacto é muito mais rápido e massivo”, observa Tânia Gaspar, acrescentando que “as redes sociais têm algoritmos que potenciam este tipo de exposição”. “Conteúdos que provocam choque ou curiosidade são mais facilmente distribuídos e sugeridos a novos utilizadores”, refere Tito de Morais.
Cristiane Miranda, também fundadora do projeto Agarrados à Net e investigadora na área dos media digitais e literacia mediática, acrescenta que, mesmo quando os conteúdos são removidos, “o ser humano tem a capacidade de dar a volta ao sistema”, fazendo com que os mesmos regressem sob novas formas.
Uma geração exposta e emocionalmente vulnerável
Essa amplificação acontece num quadro que ajuda a explicá-la. O relatório HBSC Portugal 2022 mostra que uma parte significativa dos adolescentes utiliza o telemóvel durante várias horas por dia, garantindo contacto contínuo com o espaço digital. Mais relevante do que o tempo de utilização é o estado emocional.
De acordo com o mesmo estudo, 17,1% dos jovens referem sentir tristeza frequente e 14,1% dizem sentir-se sozinhos, sendo que mais de metade admite já ter experienciado solidão. Estes dados cruzam-se com conclusões de estudos científicos, incluindo investigações recentes na área da saúde digital e bem-estar adolescente, que apontam para a utilização das redes sociais como ferramenta de regulação emocional, validação e procura de pertença.
“Os jovens estão cada vez mais ansiosos e com dificuldade em gerir emoções intensas”, afirma Tânia Gaspar. “Já ouvi jovens dizerem que o scroll acalma.” Para Tito de Morais, esta combinação entre vulnerabilidade emocional e exposição constante aumenta a probabilidade de contacto repetido com conteúdos de risco. Cristiane Miranda acrescenta ainda que estes conteúdos “não desaparecem verdadeiramente. Entram e saem de circulação”, o que aumenta a probabilidade de contacto continuado. Neste cenário, o consumo de conteúdos deixa de ser apenas entretenimento e passa a assumir uma função emocional.
Entre ver e fazer: o retrato dos jovens portugueses
O Conta Lá elaborou um questionário que permitiu observar o fenómeno em Portugal com maior detalhe. Com 49 respostas de jovens entre os 13 e os 25 anos, o inquérito revela uma exposição elevada a conteúdos de risco e uma participação direta reduzida, mas não inexistente.
Cerca de 65% dos inquiridos afirmam já ter visto desafios perigosos nas redes sociais, enquanto 85% dizem já ter assistido outras pessoas a realizar comportamentos de risco online. Os exemplos referidos incluem consumo de vinagre, azeite ou ovos crus, pessoas atadas a serem atiradas para piscinas ou jovens a “fumar” cotonetes acesos.
A participação direta surge em dois casos. Um dos jovens, entre os 16 e os 18 anos, refere tê-lo feito por aborrecimento. Outro, entre os 19 e os 21 anos, descreve práticas como jogar futebol com uma bola em chamas ou realizar manobras perigosas de condução, motivado pela procura de adrenalina e interação social. O número é reduzido, mas suficiente para demonstrar que a passagem da observação à ação existe.
As motivações apontadas pelos restantes inquiridos concentram-se na procura de aceitação social, visibilidade e pertença, frequentemente associadas ao receio de exclusão. Ainda assim, a maioria afirma não sentir pressão direta para participar, indicando que a normalização destes comportamentos não depende apenas de incentivo explícito.
Esse padrão confirma-se também nos testemunhos recolhidos. Inês refere “likes, atenção, fama e até dinheiro”. Já Madalena Vieira, de 20 anos, acrescenta, em entrevista ao Conta Lá, que “as pessoas fazem isto pela apreciação social” e sublinha que muitos acabam por aderir quando determinados desafios “estão na moda”, mesmo sem consciência total dos riscos envolvidos. A influência não surge apenas de modo difuso, mas também através da observação próxima de comportamentos repetidos.
Normalização: quando o risco deixa de surpreender
A repetição altera a perceção do perigo. O que inicialmente causa estranheza perde intensidade à medida que se torna familiar, sobretudo num ambiente onde os conteúdos circulam de forma contínua.
“Uma vez na Internet, para sempre na Internet”, afirma Tito de Morais, sublinhando a facilidade com que estes conteúdos reaparecem, mesmo após serem removidos. “Mesmo quando desaparecem, voltam a surgir com pequenas variações, o que torna muito difícil travar a sua disseminação”, acrescenta. Cristiane Miranda descreve este processo como uma dinâmica de “gato e rato”, em que os conteúdos são retirados e rapidamente recolocados.
Este ciclo é reforçado pela forma como as plataformas funcionam: conteúdos com mais visualizações, partilhas ou comentários tendem a ser novamente promovidos, criando um efeito de repetição que aumenta a sua visibilidade. Quando um conteúdo aparece várias vezes, deixa de parecer excecional e passa a parecer comum.
A circulação contínua de conteúdos de risco reduz a distância entre o que é observado e o que é percecionado como possível. A influência não depende necessariamente da participação direta, mas da exposição repetida num ambiente onde o limite está sempre presente.
Dos vídeos virais às urgências
Nos serviços de saúde, as consequências destes comportamentos são cada vez mais evidentes. “São cada vez mais frequentes os episódios de urgência resultantes destes desafios”, confirma-nos Mónica Braz, pediatra na CUF. “Recordo-me de um adolescente que apertou o pescoço, tendo desmaiado por falta de circulação cerebral e sofrido um traumatismo craniano na sequência desta brincadeira”, relata.
A médica alerta que muitos jovens não têm noção da gravidade dos comportamentos que reproduzem, descrevendo casos de asfixia induzida, quedas e ingestão de substâncias perigosas, frequentemente registados e partilhados pelos próprios jovens. “As complicações mais frequentes são fraturas, traumatismos cranianos e, em casos mais graves, falência de órgãos e morte”, afirma.
O chamado desafio do paracetamol surge como particularmente preocupante pela sua acessibilidade e pela perceção errada de segurança associada ao medicamento. “É um medicamento de uso comum, mas em doses tóxicas pode causar falência do fígado com necessidade de transplante.” A pediatra deixa ainda um alerta: muitos jovens “só procuram ajuda quando já existem danos significativos”, agravando o risco clínico.
Mónica Braz sublinha que, em alguns casos, os sintomas não são imediatos, o que leva a uma falsa sensação de segurança e ao atraso na procura de ajuda médica. Este cenário acompanha uma tendência mais ampla identificada no relatório HBSC, que aponta para um aumento dos comportamentos autolesivos entre jovens.
Plataformas sob pressão: entre controlo e realidade
O papel das plataformas digitais é central neste fenómeno. O Conta Lá contactou o TikTok a propósito destes desafios e fonte oficial da empresa afirma que “as Diretrizes da Comunidade proíbem estritamente desafios perigosos que promovam comportamentos prejudiciais ou risco de ferimentos graves”.
Segundo a plataforma, “quando recebemos denúncias sobre tendências perigosas, investigamos ativamente e removemos os conteúdos que apresentem comportamentos perigosos, prejudiciais ou criminosos”, acrescentando que também são retirados vídeos que incluam instruções para este tipo de práticas.
A empresa sustenta que atua também ao nível da prevenção: “O nosso algoritmo torna os conteúdos prejudiciais inelegíveis para o feed ‘Para Ti’”, com o objetivo de “quebrar o ciclo viral antes que um desafio possa ganhar qualquer tração”. Além disso, refere mecanismos concretos dirigidos aos utilizadores - “parar, pensar, decidir e agir” - um modelo que incentiva os jovens a avaliar riscos antes de participar e a denunciar conteúdos perigosos. O TikTok indica ainda que “99,7% do conteúdo infrator foi removido proativamente” no último trimestre de 2025.
Ainda assim, os especialistas dizem que não é suficiente. “Temos sempre a noção de que as plataformas poderiam e deveriam fazer muito mais”, assevera Cristiane Miranda. A investigadora destaca que a velocidade de circulação dos conteúdos ultrapassa muitas vezes a capacidade de resposta das plataformas, permitindo que estes desafios continuem a alcançar novos públicos.
Relatórios associados ao Digital Services Act, incluindo análises da European Commission e da Eurochild, apontam limitações na aplicação prática das medidas e dificuldades em acompanhar a velocidade de propagação dos conteúdos.
Mais do que desafios: o contexto que os sustenta
Reduzir estes episódios a desafios virais não permite compreender o fenómeno na sua totalidade. “O que nos preocupa é termos uma geração cada vez mais ansiosa e com dificuldade em gerir emoções”, afirma Tânia Gaspar.
Margarida Gaspar de Matos, investigadora na área da saúde dos adolescentes, alerta que a relação dos jovens com o digital pode tornar-se excessiva e desregulada, potenciando comportamentos de risco. Além disso, a também psicóloga acrescenta que a utilização digital pode assumir um caráter “compulsivo”, limitando experiências fora do ecrã e reforçando uma relação desequilibrada com o mundo online.
Os dados e testemunhos apontam na mesma direção: estes comportamentos resultam da interação entre vulnerabilidade emocional, procura de validação e um sistema que amplifica aquilo que gera mais reação.
Entre os jovens ouvidos, há quem nunca tenha participado, mas reconheça a presença constante destes conteúdos, e quem observe à sua volta comportamentos que se repetem e ganham visibilidade. Como Inês e Madalena, a maioria não atravessa essa linha, mas cresce num ambiente onde o risco está constantemente presente, visível e acessível. Num ecossistema digital onde o extremo circula com facilidade, se repete sem contexto e ganha visibilidade à medida que choca, o risco deixa de ser um desvio. Torna-se parte do cenário onde estes jovens crescem.