Há espécies invasoras tão presentes em Portugal que muitas pessoas acreditam que “sempre fizeram parte da paisagem”

A Semana sobre Espécies Invasoras, que decorre entre 23 e 31 de maio em Portugal e Espanha, quer alertar para o impacto silencioso de plantas e animais invasores nos ecossistemas e no quotidiano das populações. Especialistas alertam que muitas destas espécies já estão tão presentes na paisagem portuguesa que deixaram de ser vistas como uma ameaça.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
22 mai. 2026, 08:00

Flores amarelas que cobrem montes e bermas de estrada, plantas exóticas em jardins ou rios quase escondidos sob manchas verdes densas fazem hoje parte da paisagem portuguesa. O problema é que muitas dessas espécies nunca pertenceram aos ecossistemas do país e estão a transformar silenciosamente a biodiversidade, os solos, os cursos de água e até o quotidiano das populações.

As espécies invasoras são organismos introduzidos fora da sua região natural que conseguem espalhar-se de forma descontrolada, dominando ecossistemas e eliminando espécies nativas. “A maioria das pessoas olha para uma mata verde e vê ‘natureza’, sem perceber que aquela mancha verde e bonita pode ser um deserto de biodiversidade dominado por acácias”, explica Hélia Marchante, em entrevista ao Conta Lá. A investigadora acredita que a invisibilidade do problema está ligada à chamada “cegueira vegetal”, fenómeno que dificulta a perceção das alterações ecológicas à nossa volta.

A Semana sobre Espécies Invasoras, que decorre entre 23 e 31 de maio em Portugal e Espanha, pretende precisamente alertar para um fenómeno que continua muitas vezes a passar despercebido, apesar das consequências crescentes nos ecossistemas, na economia e na saúde pública. A iniciativa reúne dezenas de atividades de sensibilização, ações de voluntariado, caminhadas, projetos de ciência cidadã e atividades de controlo de espécies invasoras, abertas à participação da população.

Segundo Hélia Marchante, os impactos das invasões biológicas raramente têm o efeito visual imediato de um incêndio florestal ou de uma maré negra, o que contribui para a falta de consciência pública. Ainda assim, a longo prazo, podem tornar-se igualmente devastadores para o património natural.

Das acácias à vespa-asiática

Entre os exemplos mais conhecidos estão precisamente as acácias, frequentemente associadas à paisagem portuguesa. “Há uma autêntica normalização de espécies que vieram de outras regiões”, explica a investigadora. Para muitos portugueses, a mimosa – classificada como uma das espécies invasoras mais agressivas em Portugal – “faz parte da paisagem típica”, apesar de ser uma espécie invasora originária da Austrália.

O mesmo acontece com espécies como a vespa-asiática, a erva-das-pampas, o jacinto-de-água ou o lagostim-vermelho-da-louisiana, atualmente presentes em diferentes regiões do país.
Além da perda de biodiversidade, as consequências fazem-se sentir de forma concreta no quotidiano. As acácias acumulam grandes quantidades de biomassa, aumentando o risco de incêndios mais intensos e difíceis de combater.

A erva-das-pampas está associada ao agravamento de alergias respiratórias e várias espécies aquáticas invasoras acabam por sufocar linhas de água, comprometendo ecossistemas inteiros e a própria qualidade da água.

Para Hélia Marchante, existe também uma espécie de “amnésia geracional” em relação à paisagem. “As pessoas assumem que o que esteve lá a vida toda sempre pertenceu àquele lugar”, afirma.

“O ser humano é o motor absoluto deste problema”

A investigadora considera que a expansão das espécies invasoras está diretamente ligada à atividade humana. “O ser humano é o motor absoluto deste problema”, refere, apontando o comércio global, a utilização de plantas ornamentais exóticas, a destruição de habitats naturais e a circulação de equipamentos contaminados como alguns dos principais fatores de propagação.

Mesmo pequenas sementes, fragmentos ou ovos podem espalhar-se através de roupa, ferramentas, máquinas ou sapatos. Hélia Marchante explica que muitas espécies usam as pessoas e os seus equipamentos como autênticas “boleias grátis” para chegar a novos locais.

As alterações climáticas poderão agravar ainda mais este fenómeno. O aumento das temperaturas, as secas prolongadas e os eventos extremos fragilizam espécies nativas e criam condições favoráveis à expansão de organismos mais resistentes e adaptáveis. Em muitos casos, admite a investigadora, o combate chega tarde. “O melhor momento para erradicar uma invasora era ontem; o segundo melhor momento é hoje”, remata.

“O colapso da natureza entra e senta-se connosco à mesa”

Apesar da dimensão do problema, Hélia Marchante acredita que continuamos a olhar para a biodiversidade como algo distante do quotidiano. “Tendemos a ver a biodiversidade como um documentário de televisão ou um cenário de fim de semana”, afirma.

A investigadora alerta que a destruição de ecossistemas naturais acaba inevitavelmente por afetar a vida humana, desde a qualidade da água à fertilidade dos solos ou à produção de alimentos. “O colapso da natureza nunca fica à porta de casa; entra e senta-se connosco à mesa”, conclui.

Talvez seja precisamente esse o maior desafio das espécies invasoras: perceber que muitas delas já vivem entre nós há tanto tempo que deixámos de as ver como uma ameaça, mesmo quando continuam, silenciosamente, a transformar a paisagem à nossa volta.