Há espécies invasoras tão presentes em Portugal que muitas pessoas acreditam que “sempre fizeram parte da paisagem”
Flores amarelas que cobrem montes e bermas de estrada, plantas exóticas em jardins ou rios quase escondidos sob manchas verdes densas fazem hoje parte da paisagem portuguesa. O problema é que muitas dessas espécies nunca pertenceram aos ecossistemas do país e estão a transformar silenciosamente a biodiversidade, os solos, os cursos de água e até o quotidiano das populações.
As espécies invasoras são organismos introduzidos fora da sua região natural que conseguem espalhar-se de forma descontrolada, dominando ecossistemas e eliminando espécies nativas. “A maioria das pessoas olha para uma mata verde e vê ‘natureza’, sem perceber que aquela mancha verde e bonita pode ser um deserto de biodiversidade dominado por acácias”, explica Hélia Marchante, em entrevista ao Conta Lá. A investigadora acredita que a invisibilidade do problema está ligada à chamada “cegueira vegetal”, fenómeno que dificulta a perceção das alterações ecológicas à nossa volta.
A Semana sobre Espécies Invasoras, que decorre entre 23 e 31 de maio em Portugal e Espanha, pretende precisamente alertar para um fenómeno que continua muitas vezes a passar despercebido, apesar das consequências crescentes nos ecossistemas, na economia e na saúde pública. A iniciativa reúne dezenas de atividades de sensibilização, ações de voluntariado, caminhadas, projetos de ciência cidadã e atividades de controlo de espécies invasoras, abertas à participação da população.
Segundo Hélia Marchante, os impactos das invasões biológicas raramente têm o efeito visual imediato de um incêndio florestal ou de uma maré negra, o que contribui para a falta de consciência pública. Ainda assim, a longo prazo, podem tornar-se igualmente devastadores para o património natural.
Das acácias à vespa-asiática
Entre os exemplos mais conhecidos estão precisamente as acácias, frequentemente associadas à paisagem portuguesa. “Há uma autêntica normalização de espécies que vieram de outras regiões”, explica a investigadora. Para muitos portugueses, a mimosa – classificada como uma das espécies invasoras mais agressivas em Portugal – “faz parte da paisagem típica”, apesar de ser uma espécie invasora originária da Austrália.
O mesmo acontece com espécies como a vespa-asiática, a erva-das-pampas, o jacinto-de-água ou o lagostim-vermelho-da-louisiana, atualmente presentes em diferentes regiões do país.
Além da perda de biodiversidade, as consequências fazem-se sentir de forma concreta no quotidiano. As acácias acumulam grandes quantidades de biomassa, aumentando o risco de incêndios mais intensos e difíceis de combater.
A erva-das-pampas está associada ao agravamento de alergias respiratórias e várias espécies aquáticas invasoras acabam por sufocar linhas de água, comprometendo ecossistemas inteiros e a própria qualidade da água.
Para Hélia Marchante, existe também uma espécie de “amnésia geracional” em relação à paisagem. “As pessoas assumem que o que esteve lá a vida toda sempre pertenceu àquele lugar”, afirma.
“O ser humano é o motor absoluto deste problema”
A investigadora considera que a expansão das espécies invasoras está diretamente ligada à atividade humana. “O ser humano é o motor absoluto deste problema”, refere, apontando o comércio global, a utilização de plantas ornamentais exóticas, a destruição de habitats naturais e a circulação de equipamentos contaminados como alguns dos principais fatores de propagação.
Mesmo pequenas sementes, fragmentos ou ovos podem espalhar-se através de roupa, ferramentas, máquinas ou sapatos. Hélia Marchante explica que muitas espécies usam as pessoas e os seus equipamentos como autênticas “boleias grátis” para chegar a novos locais.
As alterações climáticas poderão agravar ainda mais este fenómeno. O aumento das temperaturas, as secas prolongadas e os eventos extremos fragilizam espécies nativas e criam condições favoráveis à expansão de organismos mais resistentes e adaptáveis. Em muitos casos, admite a investigadora, o combate chega tarde. “O melhor momento para erradicar uma invasora era ontem; o segundo melhor momento é hoje”, remata.
“O colapso da natureza entra e senta-se connosco à mesa”
Apesar da dimensão do problema, Hélia Marchante acredita que continuamos a olhar para a biodiversidade como algo distante do quotidiano. “Tendemos a ver a biodiversidade como um documentário de televisão ou um cenário de fim de semana”, afirma.
A investigadora alerta que a destruição de ecossistemas naturais acaba inevitavelmente por afetar a vida humana, desde a qualidade da água à fertilidade dos solos ou à produção de alimentos. “O colapso da natureza nunca fica à porta de casa; entra e senta-se connosco à mesa”, conclui.
Talvez seja precisamente esse o maior desafio das espécies invasoras: perceber que muitas delas já vivem entre nós há tanto tempo que deixámos de as ver como uma ameaça, mesmo quando continuam, silenciosamente, a transformar a paisagem à nossa volta.