Hospital da Covilhã realiza cirurgia inédita em Portugal e devolve esperança a doente amputado

A Unidade Local de Saúde da Cova da Beira realizou, a 5 de junho, a primeira cirurgia de osteointegração transfemural em Portugal, um procedimento inovador que permite ligar diretamente uma prótese ao osso e que poderá melhorar significativamente a qualidade de vida de pessoas amputadas acima do joelho.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
08 jun. 2026, 10:50

A Unidade Local de Saúde da Cova da Beira (ULS da Cova da Beira) realizou, a 5 de junho, a primeira cirurgia de osteointegração transfemural em Portugal. O procedimento, destinado a pessoas amputadas acima do joelho, permite ligar diretamente uma prótese ao osso e poderá representar um avanço significativo na recuperação da mobilidade, autonomia e qualidade de vida dos doentes.

A osteointegração consiste na implantação de uma haste metálica diretamente no osso, neste caso ao nível do fémur, criando uma ligação permanente entre o esqueleto do doente e a prótese externa. Através de um conector colocado na extremidade do coto de amputação, torna-se possível ligar diferentes próteses de forma rápida e segura, adaptando-as às necessidades e atividades do utilizador.

O procedimento foi realizado a um homem de 64 anos que enfrentava há mais de uma década um percurso clínico particularmente complexo. Depois da colocação de uma prótese total do joelho, em 2013, surgiram complicações associadas a uma infeção persistente que motivou várias intervenções cirúrgicas sem sucesso. Em 2018, o doente optou pela amputação do membro inferior esquerdo acima do joelho, passando desde então a utilizar próteses convencionais.

Em junho de 2022, procurou acompanhamento na consulta de Ortopedia da ULS da Cova da Beira em busca de uma solução que lhe permitisse recuperar funcionalidade e independência. Seguiu-se um processo de avaliação clínica, planeamento e articulação multidisciplinar que culminou agora com a realização da cirurgia.

Segundo a unidade de saúde, a osteointegração apresenta várias vantagens face às próteses convencionais. Entre os benefícios apontados estão a redução das complicações cutâneas, a diminuição da dor ao nível do coto de amputação, uma maior estabilidade e conforto e a recuperação da chamada osteoperceção, ou seja, a capacidade de sentir carga, vibração e posição através da estimulação óssea direta.

A tecnologia contribui ainda para o aumento progressivo da massa muscular, permite uma marcha mais fisiológica, reduz o gasto energético associado à locomoção e favorece uma participação mais ativa nas atividades do quotidiano, incluindo a prática desportiva.

Embora a osteointegração já seja utilizada em vários países, continua a ser uma técnica pouco frequente em Portugal. De acordo com a ULS da Cova da Beira, existem registos de apenas duas cirurgias deste tipo realizadas no país desde 2012, ambas ao nível da tíbia. A intervenção realizada na Covilhã assume, por isso, particular relevância por se tratar da primeira cirurgia de osteointegração transfemural realizada em território nacional.

A operação contou com a participação do cirurgião ortopédico Francisco Javier de Santos de La Fuente, do Hospital Universitário Virgen de la Victoria, em Málaga, considerado uma das principais referências europeias nesta área. Participaram também profissionais da ULS da Cova da Beira, da ULS de Santa Maria e da ULS de Santo António.

O processo de reabilitação será agora acompanhado por equipas especializadas de medicina física e reabilitação, numa fase considerada fundamental para maximizar os benefícios da intervenção e permitir ao doente recuperar gradualmente a sua autonomia.