IA na saúde mental: uma máquina de diagnósticos não substitui o profissional

O recurso à Inteligência Artificial para fornecer aconselhamento emocional levanta preocupações entre os psicólogos, que advertem para a potencial dependência destas interações. Sublinham que a tecnologia não consegue substituir a relação humana, considerada fundamental na prática da psicologia.
 
Rui Mendes Morais
Rui Mendes Morais Jornalista
02 dez. 2025, 08:00

Há mais de duas décadas que a frase “pergunta ao Google” ganhou espaço nas rotinas e nas dúvidas da sociedade. Agora a premissa tem vindo a alterar-se, nos corredores das escolas, no universo laboral e até nas casas dos portugueses onde já se faz ouvir: “pergunta ao ChatGPT”. É a ferramenta de Inteligência Artificial (IA) mais utilizada em Portugal, representando cerca de 90% das utilizações quando comparada com outras aplicações, sublinha o estudo “IA - Impacto e Futuro 2025” coordenado pela Magma, em parceria com a CIP e apoio da DSPA. 

As novas tecnologias, que estão sempre disponíveis, são utilizadas para esclarecer dúvidas, criar conteúdos e até facilitar tarefas diárias. São rápidas e acessíveis e, por vezes, utilizadas como conselheiro, devolvendo respostas “genéricas e normativas”, representando “um padrão” que não “caracteriza a intervenção psicológica” que é personalizada “àquela pessoa que conhecemos”, sublinha Miguel Ricou, Presidente do Conselho de Psicologia Clínica da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP).

O especialista destaca que “estamos na quarta, perto da quinta, revolução tecnológica” e que “nos fomos adaptando e integrando da melhor maneira”. No entanto, a utilização das novas ferramentas no campo da saúde mental, desconsiderando o apoio por um profissional, é e deve ser uma preocupação, dado que “são coisas diferentes e que supostamente não se deveriam substituir uma à outra”, explica ao Conta Lá. 

Nos Estados Unidos, o recurso à inteligência artificial, em particular ao ChatGPT, como fiel confidente, causou cerca de 50 crises graves de saúde mental desde março. Segundo o The New York Times, alguns dos  episódios levaram a mortes e hospitalizações, o que colocou a OpenAI, detentora da tecnologia, com pelo menos sete processos judiciais na Califórnia, em que famílias alegam que a IA contribuiu para suicídios e crises prejudiciais. 

Atualmente é possível até ter uma conversa de viva-voz com os chatbots. Miguel Ricou sublinha que os casos de pacientes que recorreram à IA para desabafar e pedir conselhos, o que considera “um erro”, acrescentando que “deve ser visto de uma forma bastante crítica”. 

Psicólogo de bolso? 

O psicólogo usa um exercício do quotidiano profissional para explicar a utilização destas ferramentas, salientando: “Se me chegar alguém ao consultório” e perguntar “o que deve fazer, eu não lhe sei responder, porque tenho de conhecer muito bem os contextos. 

Admite assim que estas ferramentas não estão preparadas para serem terapeutas digitais, acrescentando que “em vez de ajudarem as pessoas a sentirem-se cada vez mais capazes por elas próprias” têm o efeito contrário. Uma prática que se distancia daquilo que pretendemos com a psicologia” que vai ao encontro de ajudar o paciente, mostrando-lhe que são capazes de encontrar as respostas através de um processo. 

Para o Presidente do Conselho de Psicologia Clínica da OPP é a “procura por um diagnóstico” e a “velocidade em que vivemos” que leva a uma maior utilização destas aplicações ou sites. Reforçando ainda que a utilização contínua “deste tipo de tecnologias poderá ter como implicação, em vez de promover a autonomia, criar dependência”, devido também à acessibilidade, o que revela uma necessidade de “perceber as consequências para as pessoas”. 

Pode a IA ser o futuro da psicologia? 

É verdade que o avanço tecnológico veio transformar algumas profissões, mas para o psicólogo Miguel Ricou, a inteligência artificial está longe de substituir um profissional.  “Só iria substituir no dia em que o algoritmo tivesse a capacidade de criar verdadeiras relações interpessoais e para isso tinha que ser um agente moral com defeitos, com falhas, tinha que ser alguém que era único” tal como os humanos, acrescenta. 

Por enquanto vê potencial nestas ferramentas, acreditando que podem ser um ótimo facilitador de tarefas, como o agendamento de consultas, organização de informação, entre outras, salientando que mesmo assim teriam de ser tecnologias aprovadas pelas entidades oficiais.