Inácio Barata, tetraneto de Eça de Queiroz, é campeão mundial de kickboxing aos 18 anos
Enquanto muitos jovens da sua idade dividem os dias entre aulas, saídas e redes sociais, Inácio Barata passa grande parte do tempo entre treinos, competições internacionais e horas de estudo roubadas ao sono. Tem 18 anos, frequenta o 12.º ano na Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho e já soma títulos nacionais, europeus e mundiais em boxe e kickboxing. Mas garante que o percurso até aqui esteve longe de ser simples.
“Perdi parte da minha vida social, tanto com amigos como com família, abdiquei de muito tempo pessoal e também de momentos de descanso”, conta. “Muitas vezes tive de trocar férias de verão, férias de inverno ou fins de semana com amigos por treinos e competições.”
A rotina divide-se entre os estudos e os treinos na Associação Jorge Pina / Equipa Pavlo Lenkov, depois de uma primeira passagem pela Academia Jorge Pina ainda em criança. O contacto inicial com o boxe surgiu aos 10 anos, incentivado pela família e por uma ligação antiga do avô à modalidade. Mais tarde, depois de experimentar outros desportos e de se afastar temporariamente do ringue, acabou por regressar aos 15 anos. “Gostei tanto da sensação e da adrenalina que decidi voltar à modalidade”, recorda.
Hoje, representa a Seleção Nacional de Kickboxing e tornou-se campeão do mundo ICO 2025, no País de Gales, campeão europeu ISKA 2025 e campeão nacional de boxe 2025, entre vários outros títulos acumulados nos últimos anos.
Entre o ringue, a escola e a pressão
Conciliar a alta competição com o ensino secundário tornou-se um dos maiores desafios do percurso. “Este ano, por causa dos exames nacionais, e no ano passado, pela carga horária e pela quantidade de matéria, tornou-se necessário um grande esforço, não só dentro do ringue, mas também nos estudos”, explica.
O atleta admite que muitas vezes precisa de compensar matéria perdida fora do horário escolar e abdicar de descanso para conseguir acompanhar ambas as exigências. “Não é fácil, mas quando se quer muito uma coisa e se trabalha verdadeiramente para isso, acaba por ser possível conciliar ambas as áreas.”
Apesar da idade, fala da pressão competitiva com naturalidade. “Existe sempre pressão, nervosismo e ansiedade, independentemente do nível competitivo”, afirma. Ainda assim, diz que tudo muda no momento em que entra no ringue. “Esses sentimentos acabam por desaparecer, porque sei o quanto trabalhei, sei o quanto quero conquistar os títulos em questão e sei o orgulho que é representar Portugal ao mais alto nível.”
As conquistas internacionais trouxeram reconhecimento, mas também uma responsabilidade acrescida. “A partir do momento em que se conquistam títulos importantes, existe a obrigação de manter e elevar constantemente o nível”, admite. Passei a sentir que tinha o dever de continuar a trabalhar para fazer jus ao nome que construí.”
O desgaste físico e mental acabou por fazer parte do processo. “A falta de descanso constante acaba por desgastar física e mentalmente e há momentos em que uma pessoa questiona se todo o esforço vale realmente a pena”, confessa. “Mas, no final, acaba sempre por compensar.”
Uma adolescência diferente da maioria
Ao longo do percurso, Inácio Barata diz ter aprendido que o boxe e o kickboxing vão muito além da dimensão física associada às modalidades. “Tornaram-me uma pessoa mais calma, mais disciplinada e mais focada em todos os aspetos da vida”, explica, defendendo que o desporto teve impacto não só na competição, mas também na escola e na forma como lida com o quotidiano.
A influência dos treinadores foi decisiva nesse processo. Segundo o atleta, tanto Jorge Pina como Pavlo Lenkov tiveram um papel fundamental no seu crescimento desportivo e pessoal. “O Jorge Pina ajudou-me sobretudo na parte dos valores desportivos e na construção do meu próprio estilo dentro do ringue”, conta. Já Pavlo Lenkov, acrescenta, foi essencial “na componente técnica e em ensinar-me o verdadeiro significado de disciplina, dedicação e compromisso com o desporto”.
Apesar das conquistas, o jovem admite que o percurso obrigou a renúncias que acabaram por marcar a adolescência. “Sim, sem dúvida”, responde quando questionado sobre aquilo a que sentiu ter de abdicar para competir ao mais alto nível. Ainda assim, não demonstra arrependimento. “Se pudesse voltar atrás, repetia tudo exatamente da mesma forma.”
Essa convicção estende-se também à forma como olha para a adolescência e para o futuro. “Claro que também gosto de estar com amigos e de ter momentos de lazer, mas sinceramente não me identifico muito com o estilo de vida de grande parte da adolescência atual”, afirma. E acrescenta: “Para mim, desperdiçar a adolescência é viver sem objetivos, sair constantemente à noite e não trabalhar para alcançar algo maior no futuro.”
Do legado literário ao sonho olímpico
Tetraneto de Eça de Queiroz, Inácio Barata reconhece que o apelido desperta curiosidade, embora veja essa ligação familiar com leveza. “Costumo brincar com isso, porque acabei por escolher um caminho bastante diferente do Eça de Queiroz”, diz. Ainda assim, acredita que continua, “de certa forma”, a honrar esse legado, mesmo num universo completamente distinto.
Ao mesmo tempo, tenta combater alguns dos preconceitos associados ao boxe e ao kickboxing. “Gostava que as pessoas deixassem de olhar para estas modalidades apenas como violência gratuita”, afirma. “São desportos que exigem enormes níveis de dedicação, disciplina e muitas horas de treino.”
O jovem atleta rejeita também a ideia de que estas modalidades estão associadas a comportamentos agressivos. “Muitas das pessoas que conheci através do boxe e do kickboxing são pessoas educadas, disciplinadas, trabalhadoras e com excelentes valores”, sublinha.
Quanto ao futuro, prefere não ficar preso ao que já conquistou. “Há uma frase que o meu pai sempre me disse e que levo muito comigo: ‘O passado é para o museu’”, conta. Os títulos, garante, ficam para trás assim que termina cada competição.
Agora, o foco está noutro objetivo. “O meu grande sonho neste momento é qualificar-me para os Jogos Olímpicos e representar Portugal ao mais alto nível.”