Inteligência artificial começa a ser usada no diagnóstico do AVC

A inteligência artificial está a dar os primeiros passos no tratamento do acidente vascular cerebral em Portugal, sobretudo no apoio ao diagnóstico e à organização dos cuidados. O tema está em destaque no Congresso Português do AVC, que decorre até amanhã, 30 de janeiro.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
29 jan. 2026, 11:30

O acidente vascular cerebral (AVC) continua a ser uma das principais causas de morte e incapacidade em Portugal. Nos últimos anos, a inteligência artificial (IA) tem vindo a ser estudada como uma ferramenta de apoio ao diagnóstico e à decisão clínica e à organização dos cuidados, num contexto em que o tempo de resposta é determinante. A sua utilização prática, contudo, permanece limitada e desigual, num debate que está a marcar o Congresso Português do AVC, que decorre até amanhã, 30 de janeiro, em Braga, refletindo o interesse crescente numa área ainda em desenvolvimento e a necessidade de integrar estas ferramentas de forma criteriosa na prática clínica.

As áreas onde estas ferramentas se encontram mais desenvolvidas estão sobretudo relacionadas com a fase aguda do tratamento. “As aplicações com maior maturidade situam-se no apoio à interpretação de exames, triagem e otimização de fluxos assistenciais”, elabora ao Conta Lá, Diana Aguiar Sousa, vice-presidente da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral. Tratam-se de sistemas que podem apoiar a leitura de exames de imagem e contribuir para decisões mais rápidas em contextos de urgência, funcionando como complemento à avaliação médica.

Com a certeza que a inteligência artificial é apontada como uma tecnologia com potencial para trazer ganhos concretos aos doentes, sobretudo ao nível da organização dos cuidados. “Tem potencial, por exemplo, para reforçar a rapidez e a consistência dos processos, incluindo apoiar a identificação de doentes elegíveis para tratamentos tempo-dependentes e melhorar o encaminhamento dentro das redes de referenciação”, refere Diana Aguiar Sousa.

Mas de acordo com a neurologista, a integração da IA na prática clínica do AVC em Portugal não é generalizada. “A inteligência artificial ainda não está integrada de forma sistemática. Existem, contudo, experiências localizadas e projetos em alguns contextos, e uma utilização crescente em investigação, nomeadamente na análise de grandes volumes de dados clínicos e de imagem”, revela.

Utilização desigual nos hospitais portugueses

Apesar da utilização ainda limitada, segundo a neurologista, a meta passa por ganhos sistémicos. “Em última instância, o objetivo é contribuir para maior eficiência do sistema e melhores resultados clínicos, desde que implementada com validação e monitorização adequadas”, sublinha.

Questionada sobre a adoção destas ferramentas nos hospitais portugueses, a especialista aponta um cenário marcado pela assimetria. “De momento, a utilização é heterogénea. Na maioria dos casos permanece associada a iniciativas locais, projetos-piloto e investigação, sem integração generalizada nos circuitos clínicos”, afirma.

Esta realidade levanta a questão do acesso equitativo às novas tecnologias no tratamento do AVC. Para Diana Aguiar Sousa, a adoção desigual pode ter consequências. “A adoção desigual pode agravar assimetrias já existentes”, alerta, acrescentando que o risco pode ser reduzido: “Este problema potencial pode, no entanto, ser mitigado se houver planeamento nacional para integração nas redes de AVC, critérios de interoperabilidade e investimento em infraestrutura e formação.”

Limites clínicos e éticos na utilização da IA

Do ponto de vista médico e ético, a especialista defende que a inteligência artificial deve assumir um papel claramente definido. “A IA deve ser um suporte à decisão, não um substituto. A responsabilidade clínica mantém-se sempre na equipa assistencial”, sustenta.

Entre os princípios considerados essenciais estão a validação científica e a supervisão humana. Por isso “é essencial assegurar transparência, validação em populações reais, supervisão humana, proteção de dados e mecanismos de auditoria para reduzir vieses e garantir segurança e equidade”.