Investigadora defende melhor conhecimento do território e fiscalização de infraestruturas
Maria José Roxo, da Universidade Nova de Lisboa, defende melhor avaliação de políticas públicas, vigilância das infraestruturas e maior sensibilização das populações. A especialista em riscos ambientais diz que prevenir é mais barato do que reconstruir e critica soluções “chapa cinco” no ordenamento do território.
Uma geógrafa especializada em riscos ambientais defende a necessidade de um melhor conhecimento do terreno pelos responsáveis políticos, uma vigilância das infraestruturas após as recentes tempestades e reforço da sensibilização das populações para a proteção civil.
Para Maria José Roxo, há muita falta de conhecimento do terreno a todos os níveis, incluindo “dos políticos, sobretudo daqueles que têm mais poder de decisão e que deviam conhecer melhor o país”.
A catedrática do departamento de Geografia e Planeamento Regional, da Universidade Nova de Lisboa, que falava à Lusa sobre os efeitos das recentes depressões Kristin, Leonardo e Marta, referiu que, nas políticas sobre o território ou mudança do uso do solo, devia-se verificar se as políticas agrícolas “foram positivas” ou não.
“Há aqui uma falta de avaliação de políticas e também há uma falta de monitorização daquilo que é fundamental num território, e isso também nos prejudica para ter bons diagnósticos e para fazer prevenção devidamente, porque a prevenção será sempre muito mais barata” do que a reconstrução, apontou.
A também investigadora do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (CICS) admitiu que, das recentes tempestades, ficou demonstrada a importância de saber “lidar com esta incerteza climática” e verificar “quem são as pessoas”, as “áreas que estão em risco” e como minimizar esse risco.
A especialista em catástrofes e riscos ambientais salientou a necessidade de vistorias, reabilitação e reconstrução de obras públicas, diques e pontes e defendeu que “o Estado, os privados, têm que ter cuidado com as infraestruturas”, que “têm que ser vigiadas” e intervencionadas.
“E aqui há um papel muito importante das autarquias, sem dúvida nenhuma. A proximidade, o conhecimento do território é fundamental e há também uma coisa que me parece que é crucial no futuro e que nós temos muito pouco que é o espírito de comunidade, apoiar-se uns aos outros, por exemplo”, destacou.
Nas áreas de risco, notou, é necessário conhecer as pessoas e quem precisa de mais ajuda, nomeadamente “idosos que não conseguem ler avisos por telemóvel” e, nesse caso, “as rádios locais têm um papel crucial em auxiliar, apesar do trabalho espantoso dos bombeiros”, mas tem de se criar espírito de “inter-ajuda, porque a proteção civil” começa na autoproteção.
Perante a devastação de áreas florestais, Maria José Roxo salientou ainda que “choveu imenso” e há “imensa vegetação” e, à beira de março, já se devia “estar a pensar verdadeiramente qual é a estratégia para minimizar o risco de incêndio no verão”.
No entanto, para a investigadora do CICS, a solução “não pode ser chapa cinco”, como constatou por exemplo em Vouzela, com a execução de “uma faixa de proteção de incêndio em torno de uma barragem, que é a coisa mais absurda” que viu na sua vida.
“Não há consciência sobre as particularidades geográficas deste país. Eu não posso tratar o Alentejo da mesma maneira que trato o Centro ou que trato o Norte, são especificidades geográficas muito próprias, de relevo, de clima, de vegetação, de pessoas, de culturas”, sublinhou.
Por isso, reforçou, a limpeza de matos não deve só depender do calendário e feita “a eito” e “essa particularidade tem que ser interiorizada”, havendo a necessidade de “repensar o território, redesenhar, reorganizar” e insistir na visão de meios urbanos e rurais.
“Não podemos mais pensar planeamento urbano sem pensar na bacia hidrográfica dos cursos de água que atravessam essas cidades, porque não há outra maneira de pensar”, frisou, insistindo na importância de “pensar bem o território”.
Embora admitindo que “há muitos interesses”, a especialista contrapôs que está em causa “um bem comum”, da floresta, do solo e da água, pelos quais todos se devem entender.
“O que eu acho que falta em Portugal, é espírito de bem comum. Pensar bem e, por isso, é que temos um território como temos”, concluiu.