Investigadoras da Universidade de Évora participam em "speed dating" científico
Investigadoras da Universidade de Évora participaram ontem, 9 de fevereiro, numa iniciativa que promoveu o contacto direto com alunos do ensino secundário através de conversas rápidas sobre ciência e percursos académicos. A ação, que volta a decorrer amanhã, dia 11, teve lugar na Escola Secundária Gabriel Pereira, em Évora, e envolveu várias investigadoras de diferentes áreas científicas.
O formato escolhido foi o de speed dating científico, com encontros breves entre investigadoras e pequenos grupos de alunos, permitindo um diálogo direto e informal. Cada investigadora fazia uma apresentação muito curta antes de responder às perguntas dos estudantes. “Nós começávamos com uma apresentação muito rápida, de 30 segundos a um minuto, sobre o que fazíamos, para servir de base às perguntas”, começou por revelar Constança Camilo Alves ao Conta Lá.
Para a investigadora, o formato de speed dating científico distingue-se por fugir às apresentações tradicionais. “Sentamo-nos numa mesa com os alunos, conversamos durante cerca de sete minutos e depois mudamos de mesa”, descreveu, sublinhando que se trata de um método dinâmico e pouco aborrecido. “Acho que estas iniciativas deviam acontecer mais vezes”, defende Constança Camilo Alves.
Para facilitar a conversa e tornar os temas mais concretos, as investigadoras levaram materiais relacionados com o seu trabalho. “Levávamos elementos do nosso trabalho para mostrar, porque isso ajuda a manter a conversa e a despertar curiosidade”, explicou Constança Camilo Alves. No seu caso, levou consigo um pedaço de cortiça, uma vez que trabalha com sobreiro, e exemplares dos animais que estudou durante o seu percurso científico. “Levei também os bichinhos que estudei no Pantanal, os papa-formigas”, contou, acrescentando que os alunos mostraram particular interesse em perceber o que é trabalhar com espécies exóticas.
Percursos científicos fora da caixa
Bióloga de formação, atualmente ligada às ciências florestais, Constança Camilo Alves destacou que uma das maiores curiosidades dos alunos esteve relacionada com a sua experiência fora de Portugal. “O que eles mais gostaram de saber foi sobre a experiência no estrangeiro”, afirmou. “No meu caso, fui para um lugar muito exótico, vivi no meio da selva e da savana, e eles estavam especialmente interessados em saber como é viver no meio do mato”, acrescentou.
Questionada sobre estereótipos associados à ciência ou às mulheres em áreas científicas, a investigadora explicou que surgiram sobretudo dúvidas relacionadas com o trabalho de campo. “A única pergunta mais nesse sentido foi como é que era trabalhar no campo, se para as mulheres havia alguma diferença”, referiu. Com base na sua experiência, garantiu que nunca sentiu discriminação. “Trabalho muito com homens, por exemplo, com sapadores florestais e pessoas ligadas à atividade primária, e sempre me respeitaram bastante. Nunca tive problemas nenhuns”, sublinhou. Segundo a investigadora, muitas alunas mostraram interesse neste tipo de trabalho e ficaram surpreendidas com o seu testemunho.
Para Constança Camilo Alves, os alunos destas faixas etárias ainda não têm uma perceção muito marcada das desigualdades de género. “Eles ainda não sentiram essas limitações. Para eles está tudo em aberto, tudo é possível”, afirmou, considerando que as gerações mais novas encaram as escolhas profissionais de forma mais fluida do que no passado.
Durante as conversas, os alunos quiseram também saber como se constrói uma carreira científica e quais os passos necessários para trabalhar fora do país. A investigadora acredita que este tipo de contacto pode ter impacto real nas escolhas académicas dos jovens. “Eu acho que influencia”, disse, explicando que muitas carreiras na investigação seguem percursos pouco lineares. “Eles percebem que é possível fazer uma carreira na investigação e segui-la ao longo da vida, mesmo que o caminho não seja sempre direto”, referiu.
Desconstruir estereótipos e levar a ciência para fora da academia
Segundo a coordenadora do Gabinete para a Igualdade e Inclusão da Universidade de Évora e coorganizadora da iniciativa, Célia Peralta, a atividade nasceu em 2023 e tem como objetivo principal levar a ciência aos estudantes de forma dinâmica, assinalando simultaneamente o Dia Internacional das Raparigas e Mulheres na Ciência. “Para além de assinalar esta data, queremos levar a ciência aos estudantes de uma forma lúdica e mostrar que existem muitas oportunidades para prosseguir estudos e carreiras profissionais”, explicou ao Conta Lá.
A responsável sublinhou ainda a importância da desconstrução de estereótipos de género associados às profissões científicas. “Há estereótipos muito enraizados na nossa cultura que afastam as raparigas de determinadas áreas, e é importante trabalharmos essa desconstrução desde cedo”, afirmou, acrescentando que o formato de speed dating foi escolhido por ser mais dinâmico e fugir às sessões tradicionais.
De acordo com Célia Peralta, o contacto presencial e próximo com investigadoras permite aos alunos perceber que a ciência é feita por “pessoas normais” e que tem impacto direto na sociedade. “É muito importante levar a ciência para fora da academia e dos centros de investigação, para que os jovens percebam, na prática, o que a ciência pode fazer e trazer à sociedade”, referiu, adiantando que a iniciativa tem recebido feedback positivo e que já existem pedidos para a repetir noutras escolas.
A iniciativa decorreu em contexto escolar, com as investigadoras a deslocarem-se à Escola Secundária Gabriel Pereira, estando previstas novas sessões amanhã, dia 11, com outras turmas. A organização admite que o modelo possa vir a ser estruturado como um programa mais alargado, com o objetivo de chegar também a escolas fora dos grandes centros urbanos.