Janeiro sem álcool: um mês pode fazer a diferença? Explicamos o impacto real do desafio
Quando o calendário vira a página de dezembro para janeiro emerge, em muitos países, um fenómeno sociocultural que ganhou tração na última década: o 'Dry January' ou 'Janeiro sem álcool', em português. Este movimento convida as pessoas a suspender, durante todo o mês de janeiro, o consumo de bebidas alcoólicas como forma de começar o ano com um “reset” para o corpo e para a mente.
O conceito nasceu nas redes sociais e foi abraçado por organizações de saúde como uma oportunidade para refletir sobre hábitos de consumo, mas o seu impacto real, tanto a nível individual como na saúde pública, tem gerado um debate que mistura ciência, cultura e tradições sociais.
Um debate com particular relevância em Portugal: de acordo com os dados recentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o consumo anual de álcool per capita em Portugal situa-se perto de 11,9 litros de álcool puro por adulto, valor que se encontra acima da média dos países da organização, estimada em cerca de 8,5 litros.
Mas afinal o que acontece no corpo humano quando se suspende o consumo de álcool durante um mês? O médico Paulo Santos, especialista em Medicina Geral e Familiar, e docente da Faculdade de Medicina do Porto, explica ao Conta Lá que existem, efetivamente, benefícios fisiológicos mensuráveis num período tão curto como 30 dias.
De acordo com o especialista, “há melhoria de marcadores hepáticos e redução de gordura no fígado, descida da pressão arterial e da resistência à insulina, frequentemente acompanhadas de perda de peso".
"Muitos participantes referem ainda mais energia, melhor concentração e humor, e sono de melhor qualidade”, acrescenta.
Estas observações contrariam a ideia de que um mês é “pouco tempo” para fazer a diferença.
Outra dúvida recorrente é se um mês sem álcool pode levar a uma “compensação” posterior, ou seja, beber mais no mês seguinte. Para o médico, esta configuração é um mito: “O seguimento a seis meses descreve manutenção de consumos mais baixos e raridade de rebound”, sublinha.
Contudo, o clínico introduz uma nuance importante quando se fala de dependência, alertando que, nestes casos, a “dinâmica pode ser diferente e exigir uma avaliação clínica individual”.
Esta distinção entre perfis de consumo é fundamental. De acordo com Paulo Santos, “o consumo social tende a ocorrer em quantidades moderadas, sem perda de controlo nem consequências relevantes”. Por seu turno, o consumo problemático “envolve aumento de tolerância, uso para lidar com emoções, prejuízo funcional e, por vezes, sintomas de abstinência”.
Nesta linha, o médico considera que iniciativas como o Dry January podem ser úteis para ambos os perfis.
“Quem bebe socialmente ganha consciência e controlo; quem tem um padrão problemático pode identificar sinais de alerta e iniciar acompanhamento, lembrando que, em dependência, a paragem deve ser guiada clinicamente.”
Quando se discute o impacto a médio prazo, os dados que cita são consistentes com o que se observa noutros países: “Os participantes relatam, até pelo menos seis meses, menor consumo e menos episódios de embriaguez, com melhor bem-estar”.
Para Paulo Santos, estas campanhas não mascaram problemas, mas sim, sensibilizam: “trazem o tema para o centro da conversa, promovem autoavaliação e motivação para ajustar comportamentos”. Na sua perspetiva, podem até ser “um primeiro passo para o acesso a cuidados”.
Do ponto de vista comportamental, o médico considera que a experiência pode funcionar como “porta de entrada” para a mudança, observando que tende a ser isso mesmo “quando acompanhado de estratégias de continuidade”. Por outro lado, assevera que, “se for performativo e sem plano pós-campanha, o efeito pode diminuir ao longo do tempo”.
Num país onde a cultura do álcool é marcante, Paulo Santos considera que campanhas como o Dry January “fazem sentido na perspetiva da intervenção sobre a literacia” pois “confrontam o padrão cultural e permitem a reflexão”. Não obstante, adverte para a importância destas campanhas serem “conduzidas com cuidado e baseadas na evidência científica, de forma a não criar falsas expectativas, crenças erradas ou banalização”.
No final, deixa um conselho prático para quem decide aderir ao mês sem álcool: “definir um motivo claro; preparar alternativas sem álcool; envolver amigos e família; procurar ajuda médica se houver sinais de dependência”. E acrescenta uma sugestão simples, mas crucial para quem regressa ao consumo: “fazê-lo com limites objetivos”.
Várias autarquias aderem à iniciativa com ações de sensibilização
A APEF - Associação Portuguesa de Estudos sobre o Álcool e outras Dependências lança a campanha “Janeiro Sem Álcool” desde 2024, convidando os portugueses a experimentar 30 dias sem bebidas alcoólicas como forma de refletir sobre os hábitos de consumo.
A campanha ganhou expressão em vários municípios portugueses, que aderiram à iniciativa, promovendo ações de sensibilização e eventos comunitários ligados ao tema. Na Guarda, em Odemira, em Felgueiras e em Vila Nova de Foz Côa, por exemplo, a campanha ganhou eco local através de parcerias com centros de saúde, autarquias e coletivos de cidadãos interessados em discutir o papel do álcool na comunidade.
A autarquia de São Pedro do Sul, por seu turno, associou-se à causa com uma vertente centrada na segurança rodoviária, lembrando que a condução sob influência de álcool continua a ser um dos principais fatores de risco nas estradas portuguesas.
São expressões de um movimento que, internacionalmente, começou no Reino Unido em 2013, promovido por organizações como a Alcohol Change UK. No site da mesma, descreve-se o mês de abstinência, não como um teste de força de vontade, mas como uma oportunidade para observar padrões de consumo e, para muitos, repensar hábitos que estiveram enraizados durante décadas.
De acordo com a organização, participantes do Dry January relatam melhorias no sono, na energia diária e até em medidas biométricas como a pressão arterial - pontos que podem refletir tendências reais para quem reduz ou suspende o consumo, mas que dependem também de variáveis individuais e comportamentais.