José Cabeça: o esquiador de Évora que nunca tinha visto neve e que vai para os segundos Jogos Olímpicos

Atleta eborense aprendeu a esquiar com recurso ao YouTube e passados dois anos, em 2022, estava a garantir a melhor classificação de sempre de Portugal no esqui de fundo. Designer de moda amador nos tempos livres, que ostenta com orgulho o sotaque alentejano, regressa agora com expectativa de subir ainda mais na tabela nos Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026 e inspirar uma nova geração de esquiadores portugueses. Mesmo que, como ele, venham de uma terra "onde faz 50ºC" e "nevou uma vez, em 2006".
Tiago Oliveira Jornalista
06 fev. 2026, 08:00

Tudo começou em 2018. José Cabeça estava em casa, em Évora, a assistir aos Jogos Olímpicos de Inverno de PyeongChang, quando ao ver a prova de esqui de fundo sentiu-se, à falta de melhor palavra, inspirado. "A minha mãe foi a primeira pessoa que teve esta ideia louca atirada para a frente dela", recorda ao Conta Lá. E qual era a ideia? Começar a praticar a modalidade para ser atleta olímpico. A resposta não se fez esperar: "Ó Zé, tu já fazes tantos desportos, a gente nem tem neve, deixa-te lá disso". Mas o eborense, que leva com orgulho o sotaque para todo o mundo, não se demoveu e está agora na véspera de se lançar em nova aventura improvável no esqui.

Como parte da comitiva portuguesa de três atletas para os Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026, cuja cerimónia de abertura realiza-se hoje, o esquiador de 29 anos vai competir na prova de sprint (10 de fevereiro) e nos 10km estilo livre (13 de fevereiro). Será a sua segunda participação olímpica, após a estreia nos Jogos de Pequim em 2022, onde ao ficar no 88.º lugar na prova de 15 km estilo clássico garantiu a melhor classificação portuguesa de sempre no esqui de fundo. Apenas dois anos depois de ter começado a esquiar, sozinho ("eu e o YouTube") e a fazer a qualificação "como autodidata".

Para se ter uma ideia, "a maior parte dos atletas que praticam esqui de fundo começaram quando tinham entre 2 e 10 anos. Por isso, iniciar a esquiar aos 23, quase 24, não é propriamente o mais adequado", aponta. "Nos primeiros dois anos até aos Jogos em 2022, eu tive um conjunto de tempo" de apenas "quatro meses na neve, o que não é de todo suficiente". Não espanta por isso que classifique a diferença de preparação para os outros atletas como "abismal". Mas, como já vimos, não seriam 'pequenos obstáculos' como esses a impedir a caminhada de José. 

"O meu sonho desde sempre, desde que me lembro de fazer desporto, era ir aos Jogos Olímpicos", confessa. "Eu disse a toda a gente que eu ia", acrescenta. "Não sabia em que desporto, mas eu ia arranjar um que me desse a possibilidade de o tentar". O primeiro foi o karaté, onde se iniciou na prática com cinco anos, mas uma lesão sofrida aos 12 anos obrigou-o a abandonar. Seguiu-se a natação, também por inspiração olímpica, desta feita de Michael Phelps, em 2008, em Pequim. Ao vê-lo "ganhar oito medalhas de ouro, achei que se ele conseguia eu também... Como é óbvio, longe da verdade, mas eu tentei", conta entre risos.

Melhor experiência da vida

Começou a nadar "já com uma idade bastante avançada", o que em "desportos muito técnicos, como a natação ou o esqui", faz toda a diferença, porque quando se é de idade mais tenra, "a habilidade motora vem um bocadinho de borla, o que não acontece quando se é adulto". Mas deu o seu melhor, trabalhou, e daí até ao triatlo, com 17 anos, foi um salto, para um desporto onde sente que atingiu níveis muito elevados.

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Entretanto, já tinha começado na aventura do esqui em 2020, mas até 2023 "foi um foco a 50%", porque continuou "a realizar competições de triatlo". Só que no início de 2024, teve "um acidente que causou uma lesão grave no joelho" e impediu José "de correr por cerca de seis meses", o que "tornou fácil" a decisão de se focar "a 100% no esqui". Sobram as memórias da "maior parte das pessoas" a rirem-se na sua cara, "e com razão", destaca, e volta à mãe como grande fonte de apoio (sem esquecer o resto da família) mesmo se efetivamente não acreditasse que fosse possível. "Já eram quase 20 anos a dizer que ia aos Jogos", lembra-se: "Tive pessoas a perguntar: tu nunca viste neve, vais fazer isso como? A primeira vez que tentei, até eu pensei por que raio é que fui dizer a tanta gente. Porque não tinha nada a ver com o que eu pensava ser capaz"

Cenário que só serviu para o espicaçar. "Eu sempre gostei de provar que as pessoas estavam erradas", assume. Como treinador de natação, tem memória de ver treinadores "dizerem a crianças que mais valia fazerem outro desporto porque não tinham aptidão", o que acha "a coisa mais estúpida que existe, porque tudo depende do quanto a pessoa quer". E José queria muito.

Por isso, viu vídeos na internet, muniu-se de equipamento que adquiriu "online, sem ter qualquer noção do que estava a comprar, totalmente ao calhas", revela, e partiu para Font-Romeu, na fronteira entre França e Espanha. "É um centro de alto rendimento onde costumava ir como triatleta", explica, e aí deu os primeiros passos em cima de esquis rumo a uma estreia que parecia impensável uns meses antes.

"Foi a melhor experiência da minha vida", garante, em referência à presença nos Jogos Olímpicos em 2022. "Poder estar lá, entrar na cerimónia de abertura no Ninho de Pássaro, o mesmo estádio do Michael Phelps, em 2008, foi incrível. O meu treinador descreve-me como uma criança numa loja de doces com dinheiro infinito. Eu estava boquiaberto", não tem medo em admitir. E se "para muitas pessoas o resultado foi medíocre", declara, para o José "foi incrível porque até um mês e meio antes nunca tinha realizado a técnica que foi feita nos Jogos". Para se perceber, "o atleta que ficou em último lugar tinha-me ganho com quase dois minutos de avanço em provas de vinte minutos dois meses antes; na competição, ficou a oito minutos de mim. A evolução foi estonteante", assevera.

Design de moda

Agora 100% dedicado ao esqui como profissional, o panorama mudou de figura. Representa o clube sueco Mora IFK e, em preparação para estes Jogos Olímpicos de Inverno, tem estado, "quer durante o inverno, quer grande parte do verão em zonas que têm neve", seja nos "países nórdicos, como Noruega, Suécia, Finlândia", mas "também em Itália e França". Parte do tempo conseguiu "estagiar com a seleção nacional da República Checa, que é uma ajuda imensa, pois em Portugal não temos uma seleção nacional grande o suficiente para ter este tipo de trabalho consistente de estágios", afirma. Também treinou "esqui indoor" em "pistas criadas de propósito" numa "espécie de túneis climatizados que produzem neve". Tudo somado, "quatro anos em cima de esquis em vez de quatro meses faz bastante diferença".

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Fora do treino, num dia que "começa às 7h30" e termina muitas vezes por volta das 21h, não sobra tempo para muito, mas ainda deu para o eborense se dedicar a uma das suas paixões, o desenho e o design de moda. O que levou a que, juntamente com a Federação [de Desportos de Inverno de Portugal], desenhasse "os equipamentos de treino e prova que os atletas portugueses vão utilizar agora" em competição nestes Jogos Olímpicos de Inverno em Milão-Cortina. "É algo que me dá prazer e talvez no futuro possa ser designer de roupa", admite. 

Para a participação, o "foco principal são os 10 km" com objetivo de "cortar em metade" o seu "resultado comparado com os Jogos passados". E a esperança de obter "um resultado digno de Portugal", assume. País onde os desportos de inverno ainda são vistos como um parente pobre, muito pouco visíveis e com financiamento quase inexistente" num campo onde o dinheiro é essencial. Veja-se o seu caso, em que só foi possível começar porque teve "apoio de uma pessoa para quem trabalhava no Dubai". Agora, além disso, tem ainda acesso a uma Bolsa Olímpica Internacional (para desenvolvimento de atletas de nações menos desenvolvidas) e outra da Federação de Desportos de Inverno. E somente a partir de dezembro de 2021, "dois meses antes dos Jogos", é que teve treinador, o norueguês Ragnar Bragvin Andersen, com quem ainda hoje trabalha. 

Mudar mentalidades

José Cabeça poderá ser, por enquanto, a exceção que confirma a regra, mas defende que "está a ser feito um excelente trabalho, especialmente na patinagem de velocidade, pois temos uma escola de patins em rodas muito boa. Acredito que no futuro teremos atletas de nível de medalha", atira. Por outro lado, "falta a perceção da população de que é possível realizar desportos de inverno em Portugal através das variantes de verão", como é o caso do esqui com rodas (roller ski). "Vindo de Évora, onde faz 50º C no verão e nevou uma vez em 2006, é complicado achar que vão nascer muitas crianças a querer ser atletas de esqui de fundo", admite.

"Além disso, considera, "temos de mudar a mentalidade dos portugueses que não gostam" de atletas na estrada. "O trabalho está a ser bem feito, mas depende de nós demonstrarmos valor para sermos reconhecidos", tais "como os atletas de verão". Como postula a expressão popular, "Roma e Pavia não se fizeram num dia". Parte do caminho, aponta José, pode passar também por atrair atletas lusodescendentes em países onde os desportos de neve sejam mais comuns.

Sem ir a Portugal desde "agosto porque" decidiu "que não podia ficar doente antes" da competição, fala com "os pais e namorada todos os dias" com a convicção que "Portugal ainda é" a sua casa, "embora não seja exequível trabalhar lá neste momento". Até porque a meta é continuar a crescer, já com vista à próxima etapa. "O objetivo é sempre maior. Antes de 2022 era apenas ir aos Jogos Olímpicos. Quando realizei esse sonho de criança, o objetivo mudou logo para querer competir ao mais alto nível e ambicionar algo muito maior. Ainda não estou ao nível necessário para competir contra os melhores do mundo, mas estou muito mais perto do que já estive". Se há algo que aprendemos, é a não apostar contra José Cabeça.

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