'JÚLIO': o que dizem as fotografias de seis utentes sobre o hospital Júlio de Matos
O projeto ‘JÚLIO’ nasceu da parceria entre a associação cultural A NARRATIVA, o Hospital Júlio de Matos e a Rádio Aurora, sob a coordenação e curadoria dos fotógrafos Bárbara Monteiro e Mário Cruz. Entre setembro e dezembro de 2025, seis participantes exploraram o hospital com câmaras nas mãos e um olhar próprio, transformando a prática fotográfica numa ferramenta de expressão num contexto onde grande parte das rotinas e decisões é limitada.
O Conta Lá visitou a exposição, patente no Hospital Júlio de Matos, e conversou com os seis participantes que, neste projeto, passaram de pacientes a autores. Nas entrevistas, partilharam o que fotografaram, revelando que cada imagem abre uma porta diferente.
Bruno Oliveira, por exemplo, captou o ruído constante dos aviões que sobrevoam o hospital. Por seu turno, Carlos Vargas – residente no Júlio de Matos – fixou-se nos objetos abandonados que encontrou no edifício. Já Sara Esteves, viu na natureza um espelho para os seus pensamentos.
“Acho que há sempre um estigma muito grande à volta destas pessoas e destes hospitais. Mas a fotografia, e a arte em geral, são um caminho e um veículo para mostrar que essas pessoas conseguem desenvolver trabalho e pensamento, apesar de terem a sua doença”, rematou Bárbara Monteiro.
Ao contrário do discurso habitual sobre saúde mental, ‘JÚLIO’ não transforma ninguém em símbolo nem em lição moral. O que vemos é uma pluralidade de vozes que recusa ser reduzida a diagnósticos ou estigmas. Aqui, a fotografia não interpreta nem traduz: permite escolher o que mostrar, o que calar e o que proteger. Este trabalho evidencia também as tensões entre o espaço físico do hospital e as experiências internas dos seus autores.
A exposição ‘JÚLIO’ pode ser visitada até ao dia 31 de janeiro e convida quem a vê a repensar o que normalmente permanece invisível. Tal como afirma a fotógrafa Bárbara Monteiro, “o resultado desta exposição não é apenas um conjunto de imagens. É uma pluralidade de olhares sobre um mesmo lugar. É um convite à empatia e à não estigmatização da doença mental”.