Lágrimas e abraços marcam despedida de Bininha do Mercado do Bolhão ao fim de 65 anos

Albina Ferreira é uma das comerciantes mais antigas do Mercado do Bolhão. Aos 74 anos, tomou uma decisão difícil: reformar-se. Entre lágrimas e abraços, despede-se daqueles que durante tanto tempo foram a sua família. 
 
Joana Amarante
Joana Amarante Jornalista
31 jan. 2026, 08:00

Albina Ferreira está a caminho dos 75 anos e este sábado deixa aquela que foi uma segunda casa desde os dez: o Mercado do Bolhão. “Eu praticamente nasci e vim para aqui. Vou fazer 75 anos e a minha vivência foi toda aqui”, refere em entrevista ao Conta Lá.

Neste local mítico do Porto é conhecida por Bininha, alcunha que também dá nome à sua banca. 

É peixeira e uma das comerciantes mais antigas do mercado. Ao fim de 65 anos de trabalho, tomou uma decisão difícil: reformar-se. “Acho que está na hora certa, custou muito tomar esta decisão porque eu sei que vou fazer falta a muitos clientes e eles vão sentir muito, mas tudo na vida tem um limite e ninguém é eterno”, confessa.

O Bolhão surgiu na sua vida com apenas 10 anos. “Eu vim para aqui de pequenina porque a minha mãe já cá vendia, na banca da minha tia que me criou. Vinha depois da escola ajudar, mas aos dez comecei logo a trabalhar”, explica Albina Ferreira.

Bininha passou a infância, a juventude e a vida adulta ali, a trabalhar: “Era aqui que ganhava o pão para comer e dar aos meus dois filhos”.

“É um trabalho duro”, admite. Durante uma vida, foi sempre a primeira a chegar e a última a ir embora, acordando todos os dias às 5h30. Com a ajuda do marido, António, a peixeira sempre atendeu todos com um sorriso rasgado, mesmo "os mais rabugentos”. O resto do dia era passado apenas com a companhia da sua colega Cristina e dos que por ali ainda param.

O que mais entristece a peixeira é deixar aqueles que para ela são já família. Bininha não serve só o “melhor peixe e o mais fresquinho". É também conselheira e amiga de muitos dos fregueses que resistiram à transformação do espaço.

“Os meus clientes já fazem parte de mim, do mercado, são clientes muito antigos que eu levo no coração porque é tudo muito boa gente”, sublinha. 

Nos últimos dias, alguns foram chegando apenas para se despedir, com ramos de flores, lágrimas e abraços. Alguns, como é o caso de Josefa, dizem mesmo que vão deixar de vir ao mercado: “Eu sou um bocado exigente e, como ela, eu aqui não tenho ninguém. Peixe eu não venho comprar mais ao Bolhão”. A banca da Bininha era o único motivo que os levava àquele sítio.

A peixeira não esconde que sentiu uma grande diferença com a transformação do mercado. “Antigamente, o Bolhão era diferente, éramos todas mais chegadas, agora é um estilo diferente de mercado, não conheço a maioria da malta nova que trabalha aqui”, confessa. 

“Ao sábado o mercado enchia-se, era uma azáfama muito grande e toda a gente se conhecia. Eu dizia que o Porto era uma aldeia.”

A realidade é que por ter passado a vida nesta “aldeia”, Bininha admite que a família ficou para trás.  Por isso, sai agora “para desfrutar a minha vida fora do Bolhão porque a minha vida é Bolhão”. 

Apesar dos últimos dias serem agridoces, muito pelas despedidas, Albina diz emocionada: “Saio daqui de cabeça levantada, ao longo de 65 anos vou com orgulho de ter feito o meu melhor e ter dado o meu melhor ao mercado”.

O futuro da banca ainda é incerto. A peixeira explica que terá de ir a leilão, mas que ainda tem uma réstia de esperança de que a sua banca continue a ser de peixe. “Prometeram que ia ser de frescos, espero que quem venha faça jus à minha banca”, diz confiante.
 
Agora, vai descansar e gozar a reforma, com a certeza de que leva um pouco do Bolhão consigo, mas que também deixa muito de si naquele lugar.