Leques de palha e malas de folha de flandres ganham nova vida pelas mãos de dois artesãos do Sardoal

Célia Santos e Rui Dias recuperaram duas artes extintas no país. Lado a lado, na vida e no amor pelo artesanato, é na oficina improvisada na última malaria da vila do Sardoal que o casal mantém viva parte da identidade deste povo do Ribatejo. 
Ana Rita Cristovão
Ana Rita Cristovão Jornalista
31 mai. 2026, 07:00

Usados para atiçar o lume dos fogareiros de barro ou abanados para afugentar o calor dos dias quentes do Ribatejo, os leques de palha eram criados pelas mãos das mulheres do Sardoal, numa época em que os recursos eram escassos e a pobreza exigia o saber desenrascar.  

Feitos com palha de palanco, uma planta parecida com aveia selvagem que existe em abundância nos terrenos da região, os leques de palha ganharam vida “há mais de 200 anos, segundo os registos disponíveis, na aldeia de Andreus, pelas mãos das senhoras que aproveitavam a palha”.

Com a evolução do tempo e a oferta de produtos mais sofisticados, esta arte foi-se desvanecendo e no início dos anos 2000 chegou a ser considerada extinta. Mas houve quem tivesse a audácia de resgatar este pedaço de identidade da vila do Sardoal.

“Já lá vão 23, 24 anos que comecei a fazer os leques. Ou mais, já perdi a conta”, recorda ao Conta Lá Célia Santos, a única artesã a produzir os leques de palha do Sardoal.

“Comecei a fazer por desafio de um amigo meu que era um grande amante das tradições. Isto já estava extinto na altura, mas era uma coisa que representava e ainda representa muito o Sardoal, porque é um objeto único. Na altura, não encontrámos ninguém para me ensinar as técnicas, então foi através de uns leques que ele me deu da coleção particular que tinha, para eu desmanchar – mas não tive coragem para o fazer e andei três anos a tentar perceber aquilo, porque não havia muitos registos escritos, só alguns testemunhos de pessoas vivas”, recorda Célia Santos.

Desde aí, a arte voltou a florescer pelas mãos da nova artesã, num trabalho minucioso onde um leque médio demora oito horas a estar pronto e pode levar até 135 palhas. Um trabalho dedicado e onde a sustentabilidade marca presença.

“Eu acho que os nossos avós já na altura se preocupavam mais do que nós com a sustentabilidade, aproveitavam tudo. Aproveitavam as sobras das costureiras, os restos de trapos, e com linha e agulha decoração os leques”, conta Célia, que explica a utilidade dos tecidos usados na palha: “Além de ter, a nível decorativo, um efeito visual completamente diferente, também a deslocação de ar é diferente, faz mais vento”, refere.

Sustentável e acessível, a artesã refere ainda uma característica comum aos leques de palha: a proteção contra o mau olhado. 

“O vermelho é a cor predominante, porque havia uma mítica em que o fiozinho vermelho era para afastar o mão olhado, as más energias e as bruxas, então acaba por ser um utensílio que servia ao mesmo tempo para o calor e como proteção para outro tipo de energias”, refere Célia Santos, lembrando a colocação dos leques a enfeitar as lareiras das casas.

Num produto feito com um material único e cuja durabilidade permite haver ainda hoje “leques com mais de 100 anos”, a artesã de 53 anos quer não só manter a tradição como reinventá-la.

“Já registámos os leques como sendo do Sardoal mas do leque surge toda uma maternidade, os filhos do leque, como lhes chamo. E comecei a fazer pregadeiras, colares, decorações de parede com a base do leque, cestas feitas com a palha entrançada, até malas”, enumera, com significado especial destas últimas, que representam também um pedaço da identidade da vila que se tenta hoje recuperar.

As Malas de Folha de Flandres do Sardoal, únicas no país

A oficina onde Célia Santos dá vida aos leques de palha, no coração da vila, é na verdade o lugar onde outrora existia uma malaria, a última loja de malas que existia no Sardoal antes do fechar de portas de mais uma tradição que o tempo condenou.

Pertencia ao pai de Rui Dias, que é hoje o único artesão em Portugal que continua a fabricar as tradicionais malas de folha de flandres. 

“Comecei por culpa dela”, diz o artesão ao Conta Lá, referindo-se a Célia Santos, sua esposa. 

“Depois de casarmos, ela lançou-me o repto e eu fui atrás e desde então não parei”, diz-nos Rui Dias, de 54 anos. 

Sardoal era conhecido nos quatro cantos do mundo pelas malas que daqui saíam. Uma arte que entre as décadas de 1940 e 1970 chegou a ter 30 fábricas dedicadas à sua produção. 

“As malas de folha de flandres eram as malas de enxoval, que na altura todas as senhoras, e os homens também, tinham quando casavam. Eram também chamadas de malas brasileiras, porque nos anos 40 e 50 vivia-se uma grande emigração para o Brasil e as pessoas levavam estas malas com os pertences porque eram resistentes”, lembra Rui Dias ao Conta Lá. 

Mas tal como no caso dos leques de palha, com o surgimento de novos produtos, a mala de flandres caiu em desuso.

Quando Rui Dias reativou a fábrica deixada pelo pai, o objetivo tornou-se em produzir malas apenas por encomenda, até porque os materiais são hoje escassos.

“Uma mala leva em média dois dias e meio de trabalho. São feitas em madeira de pinho, são forradas por fora com chapa de flandres, que é litografada e por dentro é forrada a papel de arroz, que é muito antigo, e eu ainda tenho aí da altura do meu pai”, refere Rui Dias, que admite a dificuldade em arranjar estes materiais hoje em dia. 

“A chapa é muito cara e muito difícil de arranjar, vem do Brasil, mas depois para litografar não pode ser em qualquer gráfica e só já resta uma litografia ao pé do Porto, onde mando fazer”, explica.

A tradição além fronteiras e a valorização do artesanato

Os tempos mudaram, os usos também e hoje tanto as malas de folha de flandres como os leques de palha são elementos decorativos e em crescente valorização.

“Houve uma altura em que não se procuravam muito. Mas eu acho que isso também tem a ver com a mentalidade do artesanato, estamos a mudá-la muito. Acho que o público está a redescobrir o artesanato e está a perceber que atrás de uma peça de artesanato, há uma história. É arte com as mãos e com o coração”, admite Célia Santos.

“Já está muito valorizado”, acrescenta Rui Dias. Apesar de “ainda não ser possível viver só disto”, o artesão admite que o trabalho do casal já fez parte de “coleções de desfiles de moda no estrangeiro, nomeadamente nos Estados Unidos”.

Numa vida dedicada à arte onde ainda se dá “um passo em frente e dois atrás”, o casal admite “já ter valido a pena” o caminho feito, mas tem um desejo para o futuro: “Gostava que alguém seguisse os meus passos, os do meu pai, porque acho que isto carrega uma base muito forte da nossa história e identifica-nos como povo”, diz Rui Dias.

“O ideal era passar às gerações futuras, que dessem continuidade mas que a tradição não saísse do Sardoal, que fosse feito cá”, acrescenta Célia Santos.

“Acima de tudo que preservassem estas artes com todas as suas características, não deixassem morrer o original, e que fossem devidamente reconhecidas, em homenagem aos nossos antepassados e à nossa história”, conclui.