Manifesto pelo Futuro do Artesanato em Portugal propõe a aplicação de estratégia nacional e nova tutela para o setor

Um grupo de artesãs lançou o Manifesto pelo Futuro do Artesanato em Portugal, defendendo uma estratégia nacional e uma tutela única para o setor, num documento construído com o contributo de cerca de centenas de profissionais da área. 
Rui Mendes Morais
Rui Mendes Morais Jornalista
29 jan. 2026, 08:00

Numa altura em que o artesanato regressa ao centro das atenções em Portugal, impulsionado pelo interesse nas tradições, pela procura de um ritmo de vida ligado ao trabalho manual e pelo papel crescente das redes sociais, um grupo de artesãs lançou o Manifesto pelo Futuro do Artesanato, um documento que contou com o contributo de cerca de 400 artesãos de todo o país.

O documento defende a implementação de uma estratégia nacional para o artesanato e a existência de uma tutela única, capaz de articular formação, património, economia e comunicação, reunindo as estruturas que já existem e colocando-as a trabalhar de forma articulada. “Nós não nos propomos a criar uma estratégia nova, nós o que dizemos é que há uma necessidade urgente de haver uma estratégia implementada” (das que já existem), explicam ao Conta Lá, Ana Marta Clemente e Célia Macedo, duas das cinco artesãs que criaram o manifesto. 

A necessidade de uma tutela única é explicada pelas autoras como uma forma de dar coerência ao setor: “nós somos um corpo sem cabeça e há vários membros que contribuem para que este corpo funcione, mas não há uma cabeça”, sublinham. 

O documento identifica a importância de rever o Estatuto do Artesão e criar categorias profissionais que reconheçam diferentes saberes e ofícios, assim como a necessidade de integrar as artes e ofícios no sistema educativo. “Integrar estes conceitos, estas noções, numa fase muito embrionária da educação é fundamental para o devido reconhecimento e valorização”, destacou Célia Macedo.

É ainda sublinhado que a comunicação do setor, junto do público, é fundamental para ajudar a compreender o valor associado ao artesanato, desde o tempo de trabalho ao saber-fazer, à sustentabilidade e à ligação ao território. O documento sublinha a importância de critérios mais claros e rigorosos para mercados e pontos de venda, de forma a distinguir a produção artesanal dos industrializados e a garantir condições de valorização justas para quem produz.

As autoras recordam que parte do trabalho já existe: “durante o mandato Graça Fonseca como ministra da Cultura (entre 2019 e 2021) foi desenhada uma estratégia nacional e criada uma associação para o efeito”, em junho do último ano de mandato, que chegou a estar presente em Diário da República (Decreto-Lei n.º 43/2021), mas que “com a mudança política ficou na gaveta, não avançou”. O manifesto pretende assim dar visibilidade a estas necessidades e mostrar que é possível articular os esforços existentes.

Além do documento, foi também lançada uma petição pública, na passada sexta-feira, 23 de janeiro, aberta não apenas a artesãos, mas também à sociedade civil em geral. Até ao momento, a iniciativa conta com mais 700 assinaturas, “a intenção é reunir massa crítica para depois poder chegar com mais força junto das entidades competentes”, sublinharam as artesãs.