Media em “tempestade perfeita”, associação de imprensa defende concorrência na distribuição de jornais
Cláudia Maia, alerta que a Vasp, responsável pela distribuição de jornais, tem de ter rotas que não podem dar prejuízo, incentivando ao aumento da concorrência.
A administração da Vasp - Distribuição e Logística, S.A. informou no dia quatro deste mês que estava a avaliar a necessidade de fazer ajustamentos na distribuição diária de jornais nos distritos de Beja, Évora, Portalegre, Castelo Banco, Guarda, Viseu, Vila Real e Bragança.
Caso a decisão da distribuidora avance “é muito grave, porque se um jornal diário não chega todos os dias, o leitor acaba por perder interesse na subscrição e não tem informação atualizada”, diz Cláudia Maia, em entrevista à Lusa.
A presidente da Associação Portuguesa de Imprensa, afirma que os jornais e órgãos de comunicação estão a passar por uma tempestade perfeita que se arrasta há muitos anos.
Entre os fatores que contribuem para este panorama, Cláudia Maia refere à Lusa uma queda de 65% do investimento publicitário em cinco anos, porque a publicidade anteriormente direcionada para os meios de comunicação está agora canalizada para grandes plataformas.
A responsável refere que para esta tempestade contribuíram também as alterações nos hábitos de consumo, uma vez que a proliferação das redes sociais transformou como as notícias são produzidas, distribuídas e consumidas.
“A somar a tudo isto, durante muitos anos não houve qualquer tipo de apoio do Governo no sentido de olhar para esta realidade e estudar, de facto, o que se estava a passar. Não havia medidas concretas, nem estruturas para o setor”, refere Cláudia Maia.
Ademais, “há dois ou três anos que se fala de novos hábitos de consumo dos jovens que deixaram de ler em papel para passarem a ler ‘online’”.
A presidente da APImprensa afirma compreender “que estejam a fazer esta pressão junto do Governo, até porque apoiar a distribuição de jornais e revistas nas zonas de baixa densidade populacional era uma das medidas do Plano de Ação para a Comunicação Social, apresentado em outubro de 2024".
“Mas mais de um ano depois não aconteceu nada”, sublinha a presidente.
Ainda assim, Cláudia Maia refere que “no ano passado o Governo disse que iria lançar um concurso público internacional para garantir esta distribuição, para ver se havia outros interessados em fazer parte do mercado da distribuição, mas nada se sabe sobre este concurso”.
Além disso, a presidente da APImprensa critica os problemas na distribuição porta-a-porta, pois os CTT, responsáveis por levar a subscrição à casa dos leitores, “desde 2016 que não cumprem os critérios de qualidade que lhes são exigidos para a distribuição de jornais”.
"Um jornal diário tem de ser entregue no dia a seguir na casa das pessoas e isso não é cumprido, estes escalões de cumprimento que os CTT têm, sistematicamente, são falhados”, afirma.
Tendo em conta este panorama, a presidente da APImprensa salienta que existem jornais que encontraram soluções alternativas, nomeadamente a distribuição própria, contudo “isto não é uma solução nas zonas de baixa densidade populacional”.
Cláudia Maia reflete que o fim da distribuição tem consequências óbvias, uma vez que “nega um direito que está na Constituição, o direito da informação às populações das zonas de baixa densidade populacional”.
“Em causa está a coesão territorial, porque em sítios onde não há informação a circular e não há escrutínio, as populações ficam ainda mais isoladas. Põe-se em causa a democracia”, remata.
No Dia Nacional da Imprensa, 18 de dezembro, a Vasp assinalou ter uma responsabilidade acrescida enquanto única distribuidora nacional em Portugal, "não por ser uma empresa monopolista, mas sim por ser, de facto, a única empresa sobrevivente do setor".
Segundo a presidente da associação, em 2025, até 16 de dezembro, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) tinha registado 111 inscrições e 106 cancelamentos de publicações periódicas.
Cláudia Maia admite que grande parte dos novos títulos funcionem digitalmente, uma vez que “estão a surgir novas publicações periódicas mais no digital”, embora confesse não saber se o digital é mais sustentável que o papel.
Por sua vez, a presidente da ERC, Helena Sousa, foi ouvida em 16 de dezembro na comissão parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, onde apontou que "em 2010 estavam registados na ERC perto de 3.000 títulos de imprensa”.
Passados 15 anos, "este número reduziu-se para quase metade, com apenas 1.675 títulos registados no ano de 2024", prosseguiu a presidente da ERC.
Além disso, “atualmente, os jovens consultam a informação em ferramentas de Inteligência Artificial (IA) como o ChatGPT ou Gemini, e isto é muito desafiante porque o tráfego dos ‘sites’ de notícias está a cair”, explica Cláudia Maia.
Ainda assim, “muitas vezes, o papel ainda paga as contas, mas está a desvanecer”, afirma a responsável pela APImprensa.
Na perspetiva da formação, para que a IA seja devidamente utilizada pelos jornalistas, a APImprensa lançou um programa de formação de 100 horas, gratuito e que abrangia tanto jornalistas como quadros superiores, porque “não adianta de muito que um jornalista esteja apto a fazer, a aprender e a aplicar conhecimentos, se depois no topo não houver este casamento”.
Cláudia Maia refere ainda o lançamento de um programa de mentoria para os 175 associados da associação, apoiado pela Google, com uma equipa que vai trabalhar nas redações, perceber as suas necessidades e encontrar soluções com recurso a IA.