Médicos vão prescrever cultura a doentes no Norte do país: como vai funcionar este modelo inovador

Um modelo inovador de prescrição médica vai permitir às Unidades Locais de Saúde encaminhar utentes para atividades culturais a partir de 2027, entre São João da Madeira e Bragança. O projeto-piloto pretende integrar a cultura nas estratégias de promoção da saúde e bem-estar.
Hugo Santos Gonçalves
Hugo Santos Gonçalves Jornalista
08 jun. 2026, 08:00

A Universidade do Porto (UP) está a desenvolver um modelo inovador de prescrição cultural que prevê que médicos possam receitar atividades culturais a doentes com ansiedade ou depressão ligeira na região Norte do país, a partir de 2027.

Ao Conta Lá, Fátima Vieira, vice-reitora da UP, explica que, com o projeto, profissionais das Unidades Locais de Saúde vão poder prescrever atividades culturais nos espaços museológicos entre São João da Madeira e Bragança.  

“Espero que, a partir de 2027, nos nossos seis espaços museológicos do Consórcio já possam ser oferecidas atividades que possam ser prescritas pelas Unidades Locais de Saúde. Vamos ter financiamento da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N) e esperamos que isto seja possível”, refere.

O modelo-piloto do Consórcio da Prescrição Cultural, integrado pela UP, a Universidade do Minho e a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, com museus municipais do Norte, autarquias, a Direção-Geral da Saúde, a Secção Regional do Norte da Ordem dos Médicos e a CCDR-N, é o primeiro no mundo que parte da academia. 

“As universidades oferecem, em primeiro lugar, formação aos médicos e psicólogos em exercício e também aos facilitadores, ou seja, às associações de prescrição cultural” para que, ao ser praticado “pelo Serviço Nacional de Saúde, só poderão ser implementadas ações por pessoas certificadas”, explica Fátima Vieira.

A UP iniciou a formação no último ano letivo e já certificou os primeiros profissionais de saúde e das artes e cultura do país, tendo já iniciado o segundo ano da formação em Prescrição Cultural nesta universidade.

Também em Évora “já estão a começar os primeiros cursos, tanto para médicos como para artistas, o que quer dizer que este modelo poderá ser também utilizado à escala nacional”, afirma.

A vice-reitora para a Cultura e Museus da UP reforça a importância da formação para a prescrição cultural, tanto de profissionais de saúde, quanto de atores culturais. “Não é por um artista ser artista que sabe implementar ações de prescrição cultural e sabe lidar, por exemplo, com uma pessoa que tenha uma depressão ligeira e que tenha uma crise no meio de uma das ações”, exemplifica. É, por isso, “a primeira vez que as universidades dão formação, quer a médicos e psicólogos, quer a artistas e mediadores culturais” para este método.

Depois da formação, o modelo prevê a implementação, “em espaços neutros, como são os museus, que podem realmente despertar nas pessoas processos criativos e de bem-estar”, a monotorização e o estudo destas práticas, para que a eficácia possa ser comprovada.

A UP tem em curso uma intervenção-piloto, a partir dos psicólogos que prescrevem atividades à comunidade estudantil muito isolada, resultado dos efeitos da Covid-19. Os estudos a partir de intervenções como esta “vão contribuir também para a evidência científica” e permitir “uma certificação que seja reconhecida e que valida estes conhecimentos”, refere Fátima Vieira.

O projeto-piloto para integrar a cultura nas políticas de saúde e bem-estar em Portugal foi apresentado no 3.º Encontro Internacional de Prescrição Cultural, na UP, que contou com a participação da Direção-Geral de Saúde (DGS).

“A própria DGS está muito comprometida com este projeto e com a ideia de que temos de recorrer à cultura e à arte no quadro de prevenção da saúde”, garante a académica.

Este modelo vai ser experimentado ao longo de três anos. “O objetivo é testar o modelo, certificar os profissionais que estão a exercício e, também, monitorizar, estudar e produzir a evidência científica para poder justificar também o investimento feito”, afirma Fátima Vieira.

Em Portugal, existe um projeto de prescrição cultural disponível na região do Alentejo Central. É promovido pela Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central e abrange nove municípios: Alandroal, Arraiolos, Borba, Estremoz, Évora, Montemor-o-Novo, Portel, Redondo e Viana do Alentejo.