Miradouros, cascatas, lagoas: as Rotas de Mação lutam contra a herança do fogo e do despovoamento
A diversidade do património natural de Mação espalha-se pelos quase 400 quilómetros quadrados que compõem o concelho. Desde a arte rupestre aos antigos balneários romanos, das praias fluviais às pequenas lagoas em estado natural, são centenas de diamantes em estado bruto por descobrir ao longo das oito freguesias do território.
Um património que enfrenta, porém, recorrentes provas de fogo. Com a floresta a representar 90% do território maçaense, quando as chamas aqui passam são difíceis de travar. Foi o que aconteceu em 2017 e 2019, onde a soma da área ardida superou os 40 mil hectares. Mas a resiliência da população tornou a fragilidade em oportunidade.
“As rotas nasceram dos incêndios. Após o fogo de 2017, juntámo-nos um grupo de pessoas do concelho e fizemos uma caminhada solidária para dar a conhecer às pessoas de fora o território. Independentemente de ter ardido, ainda tinha sítios que podiam ser vistos. E qual foi o nosso espanto quando participaram cerca de 150 pessoas de todo o país, de Viana do Castelo até ao Algarve. E aí percebemos que aquele pseudo-projeto tinha pernas para andar”, explica Leonel Mourato, um dos fundadores e presidente da Associação Rotas de Mação.
Em 2019, por altura do segundo grande incêndio no concelho, a iniciativa repetiu-se, desta vez com o nome assumido de “Filhos do Fogo”.
“Queríamos que as pessoas percebessem o que era viver num território que tinha ardido para perceberem o que é a nossa casa, aquela paisagem queimada, e tivemos novamente uma adesão enorme, o que fez com que a Câmara visse potencial na promoção do concelho”, relata.
E assim foi. Em maio de 2019, mesmo antes do despoletar da pandemia, Leonel Mourato conseguiu reunir 35 entidades do concelho para começar a desenvolver os primeiros percursos pedestres. O bancário de profissão deixou o Porto, onde residia há duas décadas, e regressou à terra natal, na freguesia de Ortiga, para trilhar caminho no projeto, que se consolidou oficialmente em 2021.

Hoje, são 14 os percursos disponíveis, nove dos quais já homologados pela Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal.
“Já temos pelo menos um por cada freguesia. Cardigos vai ter dois percursos, Envendos também, Mação tem cinco. E a novidade este ano vai ser nas Matas, ficando a faltar três trajetos que queremos ter prontos nos próximos quatro anos”, revela ao Conta Lá.
Com rotas que variam entre os seis e os 19 quilómetros de percurso, há ainda trajetos que podem ser descarregados através do site das Rotas de Mação para “quem só tem um par de horas e quer descobrir o concelho”.
“Além da promoção de um estilo de vida saudável, praticar desporto, caminhar, o projeto pretende dar a conhecer os locais patrimoniais do concelho, dar a conhecer os moinhos, os miradouros, as azenhas, os geossítios, queremos que os percursos tragam para dentro deles os geossítios, a riqueza cultural e geológica que o concelho tem”, admite.
“Mação é um concelho muito rico em geologia. É o final da Beira Baixa, o início do Ribatejo e uma ponta do Alentejo. É o concelho beirão mais alentejano do Ribatejo"
E é nessa interseção entre desporto e património que se junta um terceiro elemento às rotas: o geocaching. Uma atividade que atrai centenas a Mação pelo desafio da descoberta.
“No geocaching trabalhamos muito a georreferenciação, as coordenadas geográficas. A pessoa entra na aplicação que funciona a nível mundial e encontra caixas por todo mundo. Temos uma caixa num lugar, a aplicação dá um caminho até lá e quando chegar a cerca de dois ou três metros, para e eu tenho de a descobrir. Ao descobrir, num papel que está dentro, coloco o meu nickname. Depois, faço o registo informático na aplicação e volto a esconder a caixa”, elucida Leonel Mourato.

Mas no meio da natureza e num ambiente de aventura, também há que garantir a segurança. Também aqui a Associação Rotas de Mação foi pioneira no desenvolvimento de um plano de socorro, que foi inclusive replicado para a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil.
“Na altura dos incêndios, muitas antenas se perderam e as empresas não voltaram a investir. Ora, num concelho montanhoso como é o de Mação se não existirem antenas de telemóvel, praticamente não há rede. Então, nós ao fazermos os caminhos, identificámos os locais onde havia rede e criámos um posto de madeira ao qual demos um número e uma coordenada geográfica. São balizas de socorro, onde funciona, pelo menos, uma das três operadoras. Ou seja, o caminhante sabe que naquele ponto específico, se tiver um problema, liga o 112 e consegue falar com o CODU”, explica Leonel Mourato.
Ao mesmo tempo, foi distribuído um mapa com a localização das barreiras de socorro aos bombeiros e GNR, para um socorro mais rápido e eficaz. “Nos quartéis, têm exatamente todas as balizas, o número delas e onde é que elas se localizam. O caminhante diz que está na baliza, por exemplo, 150 e eles sabem exatamente onde é que está”, acrescenta.
Com participantes já fiéis vindos de todo o país - 20% são do concelho e 80% de fora -, em 2026 a Associação Rotas de Mação quer abrir-se ao público, através da admissão de sócios, e também pela implementação do “Passaporte Rotas”.
“O objetivo é existir um livro físico e um livro virtual em que nós temos cerca de 100 lugares do concelho de Mação, tipo um Passaporte da Rota Nacional 2 ou dos Caminhos de Santiago, em que a Junta de Freguesia, a Câmara, o turismo e as lojas têm um carimbo, a pessoa vai ao local e assinala que passou ali, ou, no caso do livro virtual, dispara um selo”, refere Leonel Mourato.

Mas o grande objetivo para o novo ano passa por conseguir alcançar o Estatuto de Utilidade Pública.
“Nós somos uma associação sem fins lucrativos e este estatuto, além da própria credibilidade que dá à instituição, vai-nos permitir, por exemplo, ter acesso à consignação de rendimentos do IRS, que é aquele 1%, portanto, é uma fonte-receita. Podemos também candidatar-nos a um conjunto de fundos comunitários que de outra maneira não poderíamos. E podemos ficar integrados na própria lei do mecenato”, refere Leonel Mourato.
Apoios que podem permitir continuar a trilhar um caminho que nasceu da vontade de dar um novo fôlego a um território que ainda luta todos os dias contra a herança do fogo e do despovoamento.