Movimento do Douro contra festival de Forró em Gaia

O movimento cívico SOS Estuário do Douro está preocupado com a ameaça que a realização do Festival Internacional de Forró no Parque de São Paio, em Gaia, pode representar para a avifauna na Reserva Natural Local.
Agência Lusa
Agência Lusa

“O movimento cívico SOS Estuário do Douro vem manifestar a sua oposição à realização do Festival Internacional de Forró no Parque de São Paio, em Vila Nova de Gaia, um espaço contíguo e funcionalmente complementar à Reserva Natural Local do Estuário do Douro, integrando, no seu conjunto, uma área ecológica de valor inestimável”, pode ler-se em comunicado divulgado pelo grupo.

O festival, marcado para os dias 29 e 30 no Parque de São Paio, veio reacender um movimento – e um tema – que, há 10 anos, em 2016, motivou batalhas legais e trocas de argumentos, pela proposta de realização, no mesmo local, do festival Marés Vivas, uma intenção depois abandonada.

“Durante a primavera e o início do verão — período em que está prevista a realização do evento – a Reserva acolhe diversas espécies em plena fase de reprodução e nidificação. Entre estas, destaca-se o borrelho-de-coleira-interrompida ('Charadrius alexandrinus'), uma espécie particularmente sensível à perturbação humana, que nidifica diretamente no solo, em zonas arenosas e dunares”, alertam.

Para o SOS Estuário do Douro, que voltou à ação pública para repetir a posição sobre aquela reserva, o estuário é frequentado por espécies de avifauna que importa conservar, “como a garça-branca-pequena, a garça-real, o guarda-rios, o corvo-marinho-de-faces-brancas e várias limícolas associadas ao sapal e à zona intertidal”, e um festival pode apresentar “uma ameaça séria à integridade ecológica do local e ao cumprimento do regime de proteção associado à classificação da reserva”.

À Lusa, Jorge Moreira, que integra o SOS Estuário do Douro, explicou hoje que este movimento está preocupado com os danos ao prado do parque, “com o pisoteio e resíduos deixados”, mas também com o ruído e a iluminação noturna, que aliados à presença humana em massa terão “impacto grande” na reserva e nas espécies que a frequentam.

“Não estamos contra os espetáculos culturais, sejam eles quais forem. O que está em causa é o local. Há outros locais mais possíveis de colocar estes espaços, por exemplo, em salas de espetáculos que seria o ideal. (...) O Parque de Campismo da Madalena, onde já se fez no passado o Marés Vivas, eventualmente o recinto da Festa da Broa, em Avintes, lembrando-me apenas de algumas”, sugere.

Com o “historial” do local em si, considera que “é um contrassenso” colocar lá um evento desta envergadura, apelando à organização e às autoridades competentes que possam alterar o sítio onde se realizará o festival.

O evento, organizado pela No Porto Produções, promete “o verdadeiro clima de São João brasileiro” num “lindo local a céu aberto em mais de 10 horas de festa diárias”, entre as 13:00 e a 00:00, com nomes como João Gomes, JC Lima e Maurício do Recife entre a programação de sexta-feira e sábado.

O SOS Estuário do Douro já entrou em contacto com a Câmara de Gaia, pedindo uma reunião com o presidente, Luís Filipe Menezes, e com a divisão municipal de ambiente, esperando poder ver ouvidas as preocupações com a reserva.

“O que gostaria de focar é que não há qualidade de vida numa cidade sem os serviços do ecossistema, sem uma natureza preservada. A Reserva Natural Local do Estuário do Douro, além de ser um exemplo próximo de zona urbana, é foco de turismo para todo o mundo. Há pessoas de todo o mundo que viajam para Gaia”, lembra.

Também o Movimento Gaia Verde, criado por alguns cidadãos que também integraram o SOS Estuário e destinado a debruçar-se sobre questões ambientais no concelho, alertou para os riscos do evento numa “área de elevada sensibilidade ecológica”, que é “desaconselhável para eventos desta dimensão”.

No final de 2015, a autarquia de Gaia divulgou que o festival de verão Marés Vivas teria de mudar de local, escolhendo um novo espaço junto à reserva do Estuário do Douro.

A escolha motivou protestos de ambientalistas, por lá existirem espécies protegidas como o lagarto de água, e a apresentação de duas providências cautelares pela Quercus. Uma das ações levou à suspensão das obras de preparação do terreno para o festival, impedindo a montagem atempada do equipamento do evento, que por isso regressou ao espaço original, no Cabedelo.

Também a Campo Aberto e o PAN se juntaram ao coro de críticas, com o partido a denunciar ao Ministério Público a “destruição ambiental” alegadamente realizada.

No auge da polémica, em abril de 2016, o Movimento Cívico SOS Estuário do Douro referiu ter apelado aos artistas do cartaz do festival, como Elton John, para que se recusassem a atuar no festival.