No Sardoal, cantaram-se as janeiras para combater a solidão

Os alunos da Universidade Sénior de Sardoal saíram à rua para espalhar a tradição. O Conta Lá acompanhou o momento e conheceu um pouco mais da história deste projeto que procura promover um envelhecimento ativo. 
Ana Rita Cristovão
Ana Rita Cristovão Jornalista
07 jan. 2026, 07:00

Grupo de mulheres a tocar instrumentos musicais no Dia de Reis
Fotografia: Mais de três dezenas de alunos da Universidade Sénior de Sardoal cumpriram a tradição e cantaram as janeiras pelas ruas da vila

“De Belém vimos, com os pastores,
Dar Boas Festas aos meus senhores”.

A música ecoa ao virar de cada esquina e ao entrar em cada porta das ruas da vila de Sardoal, no distrito de Santarém. É Dia de Reis, a data que assinala o fim da época natalícia e celebra a visita dos três Reis Magos ao menino Jesus. Neste caso, não são Belchior, Gaspar nem Baltazar mas sim os alunos da Universidade Sénior de Sardoal os responsáveis por espalhar alegria, sorrisos e música pela comunidade.

“É muito importante manter-se a tradição, não só pelo convívio mas também para animar as pessoas que se sentem mais sós, ir a casa dar-lhes um bocadinho de conforto e alegria”, confessa ao Conta Lá Luís Emídio, aluno e também professor auxiliar de cavaquinho da Universidade Sénior de Sardoal.

“É importante para que não caia no esquecimento”, acrescenta ao lado Maria de Lurdes Roseta, a aluna mais recente da universidade, com dois meses de casa.

A conversa é pouca porque não se pode parar a cantiga. Guiados pelo ritmo do cavaquinho e pela batida do bombo, cerca de 30 alunos percorreram nesta terça-feira o centro histórico da vila para desejar um bom ano à população.

“O que nós queremos é que venham e se divirtam, o cantar bem não é importante, o que é importantíssimo é que se sintam felizes, saiam de casa, é o principal”, diz-nos Manuel Costa, o professor de música responsável pelo aquecimento da voz, horas antes da saída para a rua.

Mas o treino não se faz apenas em época festiva, nem somente nas “cantorias”. Faz-se todos os dias, desde manhã cedo, ao corpo, à mente e também à alma.

 

Dança, informática ou walking football são armas para combater a solidão

A assinalar os 10 anos de existência, a Universidade Sénior de Sardoal é hoje a segunda casa de 160 alunos, que aqui encontram uma forma de combater o marasmo e o sedentarismo que a reforma veio trazer, mas também a solidão e o silêncio que tantas vezes se apodera do dia a dia.

“A Universidade Sénior tem muito essa função social de apoio, combater a solidão e o isolamento, quer através da aulas quer pelas atividades extra que promovemos, desde visitas a museus, ao teatro, a bibliotecas, por todo o país”, sublinha ao Conta Lá Sandra Esteves, socióloga envolvida no projeto.

“E é importante para lhes dar uma rotina, terem de cumprir horários, ter algo que as faça sair de casa, que é algo que se perde após a reforma”, acrescenta Sofia Pires, assistente social na Universidade Sénior.

Maria José é exemplo da vontade de querer manter um dia a dia ativo. Foi uma das primeiras alunas a inscrever-se, em 2016, após ficar viúva. Vem “praticamente todos os dias”, a pé, de casa até ao Centro Cultural Gil Vicente, onde decorre a maioria das aulas. Já perdeu a conta às disciplinas que frequenta: “educação física, yoga, informática, música…”, enumera. Mas há uma que tem um lugar especial no seu coração.

“A aula de português. Porque o meu português é fraco, éramos sete irmãos e era difícil juntar todos na escola e com a universidade sénior posso aprender, a professora que temos é muito boa, gosto muito”, confessa a aluna de 76 anos ao Conta Lá.

Num lugar onde há espaço para a aprendizagem, são hoje 17 as disciplinas disponíveis, desde dança, informática, cerâmica, walking football, hidroginástica ou até yoga, uma das mais apreciadas pelos alunos.

Com a concentração no máximo, a coordenação no ponto e uma espreitadela rápida de vez em quando para o colega do lado para verificar se a posição é a correta, nem o frio faz demover os alunos de encher a sala.

“Aqui dentro não entra o frio, metemo-nos a mexer. Até nos sentimos mais jovens”, diz, entre risos, Laurinda Santos, de 69 anos. Natural de Mouriscas, no concelho vizinho de Abrantes, entrou há um ano para a universidade sénior para “não estar em casa parada”. Hoje, diz que aqui se sente “em família”.

Ao lado está Manuel Cabedal, de 71 anos. “Comecei como professor voluntário no início da universidade, em 2016, e logo no segundo ano passei a aluno também”, conta-nos. “Estava a sentir mesmo a necessidade de fazer qualquer coisa e acaba por ser um dois em um: faço exercício e também posso partilhar a minha experiência com estas pessoas”, admite com o sorriso no rosto. 

Um sentimento de partilha que se estabelece pelas relações que se criam, quer entre alunos quer com profissionais.

“Tentamos estabelecer uma relação com todos, perceber se estão bem, conversar um bocadinho, mesmo havendo períodos de pausas letivas, eles pedem-nos para vir e fazemos na mesma”, revela Mariana Martins, assistente social e uma das responsáveis pelo projeto.

O Sardoal foi o último concelho do distrito de Santarém a implementar uma Universidade Sénior. Hoje, é das instituições que mais alunos acolhe, inclusive de concelhos vizinhos, e das poucas que cuja frequência é “totalmente gratuita”.

Para o reitor da Universidade Sénior e presidente da Câmara de Sardoal, Pedro Rosa, este é um caminho para “continuar a acarinhar” e onde o sucesso se mede não só pelo crescente número de novos alunos a cada ano mas, sobretudo, “pela alegria e disponibilidade com que estas pessoas, mesmo nesta altura de muito frio, saem dos seus lares e vêm partilhar a sua alegria com todos os sardoalenses”.

“Queremos, cada vez mais, chegar às pessoas que estão mais isoladas e dar-lhes a oportunidade de continuar a aprender e estabelecer laços entre a comunidade”, conclui.