Nova associação quer manter viva a olaria de Redondo e “cuidar do que é só nosso”

A nova associação BarroVivo nasceu em Redondo para preservar e transmitir a tradição local da olaria e pintura artesanal, numa altura em que muitos dos mestres oleiros envelhecem e cresce a preocupação com a continuidade de uma das expressões culturais mais identitárias do Alentejo.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
21 mai. 2026, 08:00

Entre alguidares, assadeiras e peças pintadas à mão, que durante décadas fizeram parte das casas alentejanas, há uma tradição artesanal que Redondo, no distrito de Évora, não quer deixar desaparecer. Foi com esse objetivo que nasceu, a 28 de maio de 2025, a BarroVivo, uma nova associação criada para preservar, dinamizar e transmitir uma das expressões artesanais mais identitárias da região.

“A BarroVivo surgiu porque não havia nenhuma associação com a missão de preservar a tradição oleira e de pintura de Redondo”, explica Helena Recto. Apesar da existência de cursos de formação e algumas atividades pontuais com públicos jovens e seniores, “não havia, formalmente, nenhuma entidade com esta missão”.

A olaria de Redondo distingue-se pela produção de peças utilitárias ligadas ao quotidiano doméstico e rural, desde alguidares e assadeiras até antigos tubos de escoamento e algerozes. “É um centro de produção de tudo o que fazia falta, antes da época do plástico se impor”, refere Helena Recto.

Além da funcionalidade, a tradição destaca-se também pela decoração característica, marcada pelas cores verde, castanho e amarelo, e por elementos ligados à natureza e ao mundo rural. Flores, árvores, animais e cenas do trabalho agrícola fazem parte dos temas mais recorrentes da pintura tradicional de Redondo.

Mestres oleiros envelhecem, mas há quem queira aprender

Embora continue a existir atividade oleira em Redondo, a continuidade desta arte preocupa quem trabalha para a preservar. “Em Redondo ainda existem vivos e ativos mestres oleiros”, sublinha Helena Recto. “Mas estes artesãos, mestres neste ofício, são pessoas que já pensam em abrandar.”

A associação acredita, no entanto, que existe uma nova geração interessada em aprender e manter viva esta herança cultural. “Somos ativos que descobriram a olaria e encontraram um espaço para ela nestas vidas atarefadas”, afirma.

A criação da BarroVivo surge poucos meses depois de as técnicas de decoração da olaria de Redondo terem sido inscritas na lista de salvaguarda urgente do Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, reconhecimento que veio reforçar a preocupação com a continuidade do ofício.

Para Helena Recto, este tipo de distinção pode ajudar a impulsionar projetos e iniciativas ligadas à preservação desta identidade artesanal, embora admita que, por si só, não resolve o problema. “O reconhecimento só por si não é garantia de continuidade”, alerta. Ainda assim, considera que pode “facilitar os projetos e iniciativas que se queiram promover e manter viva esta tradição e identidade”.

No fundo, o objetivo da associação passa também por reforçar o reconhecimento público da olaria de Redondo e da sua singularidade. “Gostaríamos que as pessoas conseguissem dizer: ‘olha, isto é de Redondo’”, afirma Helena Recto. “O reconhecimento da identidade e da singularidade é sinal que se percebe, se estima e se cuida. E cuidar do que é só nosso e só daqui, é essencial para a continuidade do Centro Oleiro de Redondo.”