Nova plataforma digital reúne décadas do acervo de José Mário Branco e fica disponível para investigação e consulta
O acervo do músico português José Mário Branco, com milhares de documentos, entre escritos, fonogramas e imagens, vai passar a estar disponível numa nova plataforma digital 'online', a apresentar esta semana na Universidade Nova de Lisboa.
Essa nova plataforma do Centro de Estudos e Documentação José Mário Branco - Música e Liberdade, acessível em cedjmbbase.pt, pretende “continuar a ideia de disponibilização pública da informação, mas espelhando na íntegra” a forma como o músico a organizou.
“É um arquivo muito rico em termos de conteúdos, que achamos que interessam não só a pessoas que queiram trabalhar sobre música, mas também sobre outros aspetos da vida cultural e política dos últimos 60/70 anos”, explicou à Lusa um dos curadores do centro de estudos, Ricardo Andrade.
A nova plataforma de pesquisa vai ser apresentada na quinta-feira, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, num dia dedicado a debater as várias dimensões de atividade daquele centro de estudos, criado em 2021.
José Mário Branco, um dos mais importantes nomes da música portuguesa do século XX, morreu aos 77 anos, em novembro de 2019.
O músico e produtor tinha encetado em vida um trabalho de identificação e catalogação da sua obra com o Instituto de Etnomusicologia - Centro de Estudos em Música e Dança e com o Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical, daquela universidade, tendo dado origem a um arquivo 'online'.
Depois da morte, a família decidiu ceder e depositar naquela universidade todo o arquivo de José Mário Branco, que está ainda em processo de digitalização, sendo agora aberto para consulta pública na nova plataforma 'online'.
“Era vontade dele que a documentação em papel, sonora e videográfica estivesse toda na mesma plataforma”, explicou Ricardo Andrade, dando conta da existência de cerca de 60 caixas com documentos, dos quais estão disponíveis para consulta cerca de 5.500 itens.
“Ao espelhar na íntegra a documentação tal como ela nos chegou à faculdade, isso diminui a necessidade de manuseamento físico da documentação e [o utilizador] tem oportunidade de ver documentos nas pastas, a sua sequência, o relacionamento entre projetos, sobre o que [José Mário Branco] pensava sobre cada disco e espetáculo”, explicou o investigador.
Ricardo Andrade esclarece que, de momento, a nova plataforma 'online' só tem disponível para consulta documentação em papel, “mas irá ter documentação digital, porque nos anos 1980 [José Mário Branco] começa a trabalhar muito com computadores, e terá também gravações”.
O investigador reconhece que “é um processo muito longo”: são mais de 60 caixas, “200 suportes digitais em muitos formatos e várias centenas de suportes fonográficos obsoletos, com gravações caseiras, de estúdio, em formatos diferentes, além da coleção de vinis e CD”.
“Não é só um acervo relevante para a compreensão do percurso do José Mário Branco, mas também das muitas pessoas com as quais se cruzou, para as quais trabalhou, as múltiplas organizações nas quais esteve envolvido”, disse.
A título de exemplo, desse trabalho de investigação foram produzidos para o público um duplo álbum com inéditos e raridades, gravados entre 1967 e 1999, editado em 2018, e o livro “José Mário Branco – Entrevistas para a imprensa 1970-2019”, que saiu em 2025.
Ricardo Andrade adiantou que há ainda “algum material inédito, no sentido de não publicado”, e está em produção um volume sobre o percurso musical de José Mário Branco, uma espécie de "biografia musical", a partir de todo este arquivo e de cerca de 100 horas de conversas tidas entre dois dos curadores do centro de estudos com o músico.
Segundo Ricardo Andrade, mantém-se igualmente em processo a criação de uma fundação, pela família, cumprindo uma vontade expressa de José Mário Branco, e que ficará responsável pela gestão do acervo deixado.
A apresentação da nova plataforma 'online' e do trabalho atual do centro de estudos, na quinta-feira, contará com a presença dos curadores e representantes da família, assim como dos responsáveis dos centros de investigação envolvidos, de arquivistas e musicólogos.