Novo livro de Ana Cristina Pereira retrata cinco séculos de resistência da comunidade cigana em Portugal

“Portugueses ciganos, Cinco séculos de resistência” revisita o passado da população cigana portuguesa e procura contrariar preconceitos ainda presentes na sociedade. O livro junta testemunhos, investigação histórica e histórias de vida, percorrendo cinco séculos de resistência, discriminação e transformação social.
 
Agência Lusa
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27 mai. 2026, 16:58

 A jornalista Ana Cristina Pereira escreveu o livro “Portugueses ciganos, Cinco séculos de resistência”, lançado no sábado em Lisboa, que parte de 1509 para mostrar, hoje, “a pluralidade da população portuguesa cigana”.

Desde o primeiro “registo conhecido de anticiganismo em Portugal”, assinado em 1509 pelo rei D. Manuel I, a pedir que saiam de Portugal, a jornalista traça um caminho até aos cerca de 70 mil portugueses ciganos dos dias de hoje, retratando “o passado e o presente desta minoria em Portugal”, como pode ler-se na sinopse.

A jornalista recupera a história e assina um retrato “das feiras às universidades, do futebol de elite aos acampamentos nómadas”, mas também um novo ativismo cigano e, do outro lado, a discriminação contra esta minoria.

Partindo do trabalho que tem desenvolvido nos últimos 25 anos, a jornalista do Público voltou às reportagens “mais significativas”, aos sítios e às pessoas com que tinha contactado, mas também aos arquivos e à academia para olhar para o fenómeno do maior número de perspetivas possível.

“Falei com mais de trinta pessoas ciganas e perto de 20 não ciganas que trabalham no terreno, em sítios tão diversos como Viana do Castelo, Braga, Porto, Maia, Matosinhos, Figueira da Foz, Torre de Moncorvo, Belmonte, Lisboa, Barreiro, Loures, Seixal, Montemor-o-Novo, São Brás de Alportel”, refere a autora, em entrevista à Lusa.

Uma série multimédia para o Público, em 2023, contava a viagem desde a Índia e de como “se forjou uma cultura de resistência”, até ao que mudou após o 25 de Abril de 1974, a dificuldade de entrada no mercado de trabalho e a persistência do nomadismo, sobretudo a sul do país, e em 2024 chegou “o impulso de avançar para um livro”.

“Quando se desconhece a história não se entende o presente da população cigana. Não se vê as raízes da marginalização. Os problemas sociais graves são encarados como ‘culturais’. Isso é terreno fértil para a reprodução de ideias como: ‘são todos iguais’, ‘não se querem integrar’, ‘gostam de viver assim’. As pessoas ciganas não são julgadas pelo que são, mas pelo grupo de pertença. Legitima-se a desigualdade, a exclusão, a discriminação”, explica.

Com figuras como o ex-futebolista Ricardo Quaresma ou o ator Vicente Gil entre os ‘protagonistas’ do retrato, lado a lado com pessoas ‘anónimas’, este “livro pequeno e escrito de forma acessível” mas que “aborda assuntos de grande complexidade” procura contrariar uma ideia de homogeneidade que, para a autora, está associada ao preconceito.

“A ideia de que as pessoas ciganas são todas iguais é falsa e é usada para justificar desigualdade e exclusão. Parafraseando Ortega y Gasset, as pessoas são as pessoas e as suas circunstâncias. E muitas estão a abrir novos caminhos, algumas sem revelar que são ciganas”, afirma.

Lançado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, a autora de “Mulheres da minha ilha, mulheres do meu país” ou “Movimento Perpétuo” olha, na nova obra, para questões como o anticiganismo, a história e o quotidiano das pessoas ciganas, as “pequenas e grandes exclusões”, saindo do estereótipo para mostrar “a pluralidade da população portuguesa cigana”.

O livro analisa políticas públicas ao longo de 500 anos e “desmonta a construção histórica da figura do cigano”, procurando revelar dinâmicas e tensões internas, focar o papel das mulheres na mudança e questiona como os ‘media’ e a democracia se relacionam com esta minoria, convocando as pessoas “para pensar sobre tudo isto”.

Também muitas pessoas ciganas “crescem sem conhecer a sua história”, lembra, e por isso compreendem menos bem o ódio ou a diferença com que são tratados.

Quando, em 2022, o então Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa destacou Jerónimo da Costa e outros 250 ciganos que serviram na fronteira portuguesa, diz Ana Cristina Pereira, isso deixou “muita gente de boca aberta”.

Esse legado é também invisível nos manuais escolares, como a participação em guerras, a chegada a Portugal, ou “as consecutivas leis de assimilação forçada”, como a proibição de falar a própria língua, vestir trajes típicos ou ler a sina, sob ameaça de trabalho forçado.

O livro será lançado no sábado, pelas 17:00, na Feira do Livro de Lisboa.

Ana Cristina Pereira, licenciada em Comunicação pela Universidade do Minho, é repórter do Público desde 1999, dedicando-se em particular ao tratamento de temas de direitos humanos e exclusão social.