Num universo em crise, Cinema Trindade tem o melhor ano da sua história: "Não é um acaso"

Os cinemas portugueses registaram, no ano passado, o número mais baixo de espectadores desde 1996, à exceção da pandemia. Mas no Porto, o Cinema Trindade rema contra a maré, esgotando sessões e conquistando um número recorde de espectadores, 96 mil. O diretor, Américo Santos, explica, em entrevista ao Conta Lá, que o segredo está numa "forma diferente de pensar a exibição de cinema”.
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
25 jan. 2026, 07:00

À primeira vista, nada distingue o Cinema Trindade de tantas outras salas independentes espalhadas pelo país. Duas salas, um ‘foyer’ discreto, uma porta aberta para a rua. Ainda assim, enquanto muitos cinemas adotam estratégias e lutam para manter público, o Trindade está a fazer exatamente o contrário e a crescer.

Em 2025, o cinema registou 94 mil espectadores, o melhor ano da sua história. Um número que contrasta com a quebra generalizada de audiências nas grandes cadeias e nos cinemas de shopping. Para 2026, o objetivo é claro: ultrapassar os 100 mil espectadores e consolidar um modelo que aposta na proximidade, na curadoria e na experiência coletiva do cinema.

“Não é um acaso”, garante Américo Santos, diretor do Cinema Trindade, em entrevista ao Conta Lá. “É o resultado de uma forma diferente de pensar a exibição de cinema”.

À porta do Cinema Trindade, no coração do Porto, o cenário de grandes filas repete-se com uma regularidade improvável em tempos de salas vazias e audiências em queda, que deixa claro: o espaço vive “em contraciclo”.

“Este contraciclo deve-se, essencialmente, a uma forma diferenciadora de mostrar cinema”, explica O diretor do Trindade. “Aqui, a fruição é do cinema pelo cinema. Não temos pipocas. Não queremos distrações. Isso fideliza um público que não se revê na experiência do multiplex.”

Esta ideia de contraciclo vem mesmo depois de os cinemas portugueses registarem o pior ano desde 1996, à exceção da pandemia. Os cinemas portugueses registaram no ano passado 10,9 milhões de espectadores, uma quebra de 8,2% face a 2024. Se falarmos só de cinema português, em 2025 contam-se quase 230 mil espectadores, o que significa menos de metade da audiência do cinema português em 2024, com mais de 536 mil entradas.

Foto: Fachada do cinema (DR)

 

Um cinema de rua, de proximidade e encontro

O Trindade é um cinema e rua, literalmente. Porta aberta para a cidade, bem servido de transportes, integrado no quotidiano urbano ao nível da programação. Mas é também um cinema de proximidade num sentido mais profundo:  “As pessoas conversam entre si no foyer, ficam depois das sessões a falar sobre os filmes. O cinema tornou-se um ponto de encontro”, explica Américo Santos. “Nós percebemos que recuperámos a dimensão social do cinema”, acrescenta.

Num tempo em que muitos espaços culturais se tornaram impessoais, o Trindade seguiu uma onda contrária: há diálogo, atendimento e relação. “Hoje, os multiplexes são quase máquinas. Aqui, as pessoas falam com quem está no atendimento, trocam impressões sobre os filmes. Isso cria uma ligação”, destaca o responsável.

Essa ligação reflete-se também no público e engana-se quem diz que aquela é uma sala de nicho fechado. “É transversal. Mas o que mais nos orgulha é termos um público muito jovem”, sublinha Américo Santos, que olha para “o futuro com esperança”.

Apesar de apresentar um público muito jovem, o Trindade é um local onde várias gerações se sentam lado a lado. “O filme 'Ainda Estou Aqui' foi muito sintomático. Conseguimos juntar avó, filha e neta na mesma sessão. Esse arco geracional é extremamente importante para nós”.

Foto: Américo Santos, diretor do Cinema Trindade (DR)

 

O empurrão brasileiro 

Foram, aliás, dois filmes brasileiros que mais garantiram sucesso no cinema Trindade. Verdadeiros “fenómenos” aos olhos do diretor, pelos picos de afluência muito acima da média. “Falamos do filme do Walter Salles ("Ainda estou aqui"), no início do ano, e depois "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho”, recorda. “Houve uma presença forte da comunidade brasileira, mas os filmes foram muito além disso.”

Outro momento marcante aconteceu em fevereiro: uma conferência que juntou Aki Kaurismäki, Pedro Costa e Vítor Eiriz. “Se o Trindade tivesse mil lugares, tinha enchido”, diz Américo Santos. “Foi talvez o acontecimento mais extraordinário de sempre aqui”.

Em outubro, o ciclo ‘É Tudo Brasil’ voltou a colocar o Trindade no radar internacional, com uma homenagem à atriz Maeve Jinkings que se tornou viral nas redes sociais.

O Trindade é um lugar de memória na cidade do Porto. com uma trajetória que inclui um encerramento. “Quando reabrimos, em 2017, mudámos o paradigma da exibição de cinema no Porto”, afirma o diretor. “Passámos a ter sessões diárias, contínuas, da tarde à noite. As pessoas sabiam que havia um espaço onde podiam sempre ir ao cinema”, continuou.

O sucesso conquistado pelo cinema foi um “autêntico puzzle com várias peças que se encaixaram”, afirma o diretor, que fala de elementos como a programação, do investimento técnico ao nível de projeção de alta qualidade e até de políticas como o Tripass, um cartão que garante um desconto a clientes habituais.

E portanto, o contraciclo atual que aquele espaço vive atualmente “não é, de todo, um acaso”. Américo Santos afirma que nunca desistiu do projeto e que acreditar nele foi meio caminho andado para a abertura. Mas tem de haver investimento cultural. Até porque não é um luxo, mas uma necessidade, defende: “A cultura é fundamental para a formação da cidadania. O cinema capta o mundo quase em tempo real. Saímos da sala depois de ver uma história que pode ser a súmula de uma época”.

 

Programar com intenção e formar públicos

Um dos pilares do sucesso do Trindade está na programação que é pensada e assumidamente curatorial. Ao longo do ano, sucedem-se ciclos dedicados a cineastas, retrospetivas, focos temáticos e estreias nacionais e internacionais.

Os ciclos, em particular, tornaram-se fundamentais: "Sentimos que contribuíram muito para a fidelização do público. As pessoas veem o primeiro filme e depois querem ver o segundo, terceiro. Criam um hábito”, explicou o diretor.

A isto junta-se o chamado “cinema com valor acrescentado”, que incorpora sessões com realizadores, debates após os filmes e conversas regulares. “Também demos voz a um público que gosta de ver cinema e falar sobre ele”.

Foto: DR

Futuro com mais público e “mais mundo”

Em 2026, o Trindade quer crescer sem perder identidade. A meta dos 100 mil espectadores está em cima da mesa, mas há outros horizontes. Um deles é a internacionalização, através de parcerias com salas da rede Europa Cinemas, da Holanda ao Brasil. “Queremos trocar experiências, sobretudo ao nível do digital e das estratégias de comunicação. É algo que já está a ser feito."

Outro ponto alto continuará a ser o aniversário do cinema, celebrado agora entre 5 e 16 de Fevereiro. É pensado como “um pequeno festival”, sem o caráter competitivo, com retrospectivas, realizadores em foco e também apostas de risco. Um dos grandes objetivos é que o aniversário seja “o grande cartão de visita, o ponto mais alto do ano”.

Num setor marcado pela estagnação, o Trindade escolheu a renovação constante. “O grande perigo dos espaços culturais é parar no tempo”, refere Américo Santos. 

“A nossa missão é continuar abertos, vivos, ligados à cidade. Que as pessoas passem na rua e entrem. Espontaneamente.” E, pelos números, parece estar a resultar.

 

Programa de aniversário

Entre 5 e 16 de fevereiro, antecipando uma retrospetiva maior para mais tarde, o Trindade vai exibir cinco filmes do realizador francês François Truffaut, entre os quais “Os quatrocentos golpes” (1959) e “Jules e Jim” (1962).

O filme “Hamnet”, de Chloé Zhao, quatro filmes do espanhol Oliver Laxe e as primeiras obras do argentino Martín Rejtman também fazem parte da programação.

Haverá também a antestreia do último filme de Gus Van Sant, intitulado "Crime em Direto", e uma sessão especial com o filme "Nuestra Tierra", de Lucrecia Martel.

Para dar visibilidade ao cinema que é feito no Porto, o Trindade acolherá os filmes “Tebas” (2007), de Rodrigo Areias, “O atelier radical de Henrique Silva” (2023), de Emília Simão e Samuel Barbosa, e “Porto da minha infância” (2001), de Manoel de Oliveira.

“Entroncamento”, de Pedro Cabeleira, “Projecto Global”, de Ivo M. Ferreira, e “Terra Vil”, de Luís Campos, são algumas das estreias de cinema português que o Trindade também vai fazer nos próximos meses.

Sob o 'chapéu' “Expectativa' 26”, a Nitrato Filmes elenca ainda alguns realizadores “que pela primeira vez vão ter estreia na distribuição nas salas de cinema em Portugal”, como Lois Patiño, com “Ariel”, rodado nos Açores, e “O misterioso olhar do flamingo”, de Diego Céspedes.