O design que nos liga: Entre o saber antigo e o pensar novo

Raquel Branco é Professora Assistente Convidada (Faculdade de Economia, Universidade do Algarve), Doutoranda em Ciências Económicas e Empresariais (Ramo de Gestão) e Coordenadora da Rede de Doutorandos do CinTurs – Research Centre for Tourism, Sustainability and Well-being. 
 
Raquel Branco
Raquel Branco Doutoranda em Ciências Económicas e Empresariais (Ramo de Gestão)
04 mar. 2026, 11:52

Quando se fala em design, a estética surge quase sempre como a primeira associação. A forma, a cor e o atrativo visual continuam a ser determinantes para captar a atenção e despertar o desejo entre os consumidores. No entanto, essa dimensão, isolada, é insuficiente. Um objeto só se torna verdadeiramente desejável quando responde a necessidades concretas. A funcionalidade é como uma base para a aceitação, se um produto não cumpre o seu propósito de forma eficaz, por mais atraente que seja, acaba por cair no esquecimento. Um bom design não se limita a agradar, resolve problemas reais do quotidiano.

Mas reduzir o design a formas e funções é ignorar uma dimensão igualmente decisiva: o simbolismo. Muitas das nossas escolhas de consumo são guiadas por identificações profundas, nem sempre por nós percebidas. Compramos objetos que representam valores, visões do mundo e formas de estar na vida e, principalmente, que nos representam. A sustentabilidade é hoje um desses valores centrais e, no design, manifesta-se não apenas no resultado, mas também nos processos, nos materiais e na sua relação com o território e com as comunidades. Projetos como o Loulé Criativo mostram como a natureza e os recursos locais podem ser utilizados como matéria-prima principal, garantindo autenticidade e coerência nos produtos. Não se trata de seguir uma tendência, mas de construir um sentido.

Todas as opções de design têm impacto direto na forma como vivemos. Em objetos utilitários do dia a dia, as boas decisões de design podem significar maior conforto, maior autonomia e maior inclusão. Produtos ergonómicos, utensílios adaptados ou soluções que apenas simplificam a nossa vida pessoal ou profissional são exemplos claros de como o design influencia a nossa vida. Aqui, o design assume um papel ético e social. Como defendia Victor Papanek, o design não é e nunca será neutro na nossa vida: ou contribui para a melhoria da qualidade de vida ou reforça desigualdades e desperdício. Ignorar essa responsabilidade é uma escolha.

Nos contextos comunitários, essa responsabilidade torna-se ainda mais visível. O Loulé Criativo opera à escala local, valorizando saberes tradicionais, materiais regionais e histórias partilhadas. Ao fazê-lo, não apenas se criam objetos, mas também se fortalecem identidades regionais que dão visibilidade a práticas e profissionais que, de outra forma, poderiam desaparecer. O design funciona aqui como um mediador entre o passado, o presente e o futuro.

É precisamente nesta relação entre tradição e inovação que reside um dos maiores desafios do design contemporâneo. Inovar não significa romper com tudo o que existia antes, pelo contrário. Muitas das soluções mais consistentes surgem quando a tradição e a inovação trabalham em conjunto.

O artesão traz consigo o conhecimento do material, do gesto e do tempo. O designer acrescenta método, visão contemporânea e capacidade de adaptação a novos contextos. Quando estes dois olhares se cruzam, a tradição deixa de ser vista como algo estático e obsoleto, passando a ser entendida como a base viva da inovação.

Assim, o design deveria partir sempre das necessidades reais das pessoas e dos contextos específicos em que vivem. Isso implica aprender a escutar quem sabe fazer, quem conhece o território e quem carrega a memória coletiva no seu trabalho. A inovação que ignora estas vozes corre o risco de ser superficial, desligada da realidade e facilmente descartável.
Mesmo quando os produtos resultantes são utilitários ou decorativos, carregam consigo narrativas que vão além do objeto. São testemunhos de uma cultura, de uma forma de viver e de produzir. Incorporar estas histórias no design contemporâneo não é um exercício de nostalgia, mas um ato de responsabilidade e respeito pelo património da comunidade. Num mundo acelerado e uniformizado, a tradição oferece referências, continuidade e sentido para o futuro.

No fundo, o design está presente em quase tudo o que nos rodeia, influenciando silenciosamente a nossa vida. Entre estética, funcionalidade e simbolismo, exige-se hoje uma abordagem mais crítica e consciente.

Valorizar o passado não significa rejeitar o futuro. Significa sim construir uma inovação com memória, respeito e propósito.

E é aí que o design encontra o seu verdadeiro papel na comunidade.