O manjerico também se pode servir à mesa: como utilizar o símbolo dos Santos Populares na alimentação

Junho cheira a manjerico. A planta que marca as festas dos Santos Populares esconde, porém, um lado menos conhecido, mas elogiado por especialistas: as suas características nutricionais e as inúmeras possibilidades que oferece na cozinha.
Regina Ferreira Nunes
Regina Ferreira Nunes Jornalista
11 jun. 2026, 08:00

É presença obrigatória nas festas dos Santos Populares, acompanha os tradicionais versos de amor e enche ruas e varandas com o seu perfume. Para a maioria dos portugueses, o manjerico é visto como um elemento decorativo, mas a verdade é que esta planta aromática também pode ser utilizada na cozinha e contribuir para uma alimentação mais saborosa.

Foi precisamente para dar a conhecer esta outra componente da planta que a Associação Portuguesa de Nutrição (APN) lançou o guia Manjerico à Lupa, integrado na coleção de conteúdos informativos disponibilizados gratuitamente pela instituição.

Helena Real, nutricionista e secretária-geral da APN, explica que esta iniciativa surge da necessidade de combater a desinformação na área da alimentação e da nutrição.

“Infelizmente vivemos num mundo onde prolifera muita informação na nossa área, nem sempre informação de muita qualidade técnico-científica”, refere, acrescentando que o objetivo passa por disponibilizar conteúdos acessíveis e rigorosos sobre alimentos e hábitos alimentares.

E a escolha do manjerico não foi aleatória. Todos os anos a associação planeia materiais relacionados com diferentes efemérides e, nesta época do ano, esta planta assume um papel essencial nas festas populares do nosso país.

“Não há uma festa popular que não tenha o manjerico, sobretudo aqui na zona do Porto, onde o São João está muito associado ao manjerico, à sardinha e aos pimentos”, recorda.

Apesar de ser visto sobretudo como um adorno, o manjerico pertence à mesma família do manjericão e apresenta um aroma muito semelhante, podendo ser utilizado na culinária de forma idêntica. O próprio guia recorda que, embora seja uma planta ornamental originária da Índia, pode ser incorporada em diferentes pratos gastronómicos.

Do ponto de vista nutricional, Helena Real explica que, sendo uma erva aromática, o manjerico contém compostos fenólicos, ou seja, substâncias naturais das plantas que podem contribuir para efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios no organismo. Ainda assim, alerta que estes benefícios devem ser enquadrados nas quantidades normalmente consumidas.

“Não é o consumo deste tipo de produtos, nomeadamente as ervas aromáticas, que nos vai trazer um benefício para a saúde muito pronunciado. Contudo, são adjuvantes muito interessantes para nos trazer outro tipo de vantagens”, sublinha.

Para a nutricionista, a grande mais-valia destas plantas está na capacidade de enriquecer os pratos sem recorrer ao excesso de sal, um problema que considera ser persistente na alimentação dos portugueses.

“As ervas aromáticas são ótimas para poder reduzir ou nem sequer utilizar o sal na cozinha”, afirma, lembrando que Portugal continua a apresentar um consumo elevado deste ingrediente. Além disso, acrescenta, permitem diversificar os sabores e combater a monotonia alimentar: “Às vezes podemos estar a trabalhar ingredientes de base que são semelhantes, mas basta mudar a erva aromática, basta usar um manjerico, um manjericão ou um tomilho e é já algo completamente diferente”.

A utilização do manjerico na cozinha continua, no entanto, a ser pouco habitual. Segundo Helena Real, isso explica também a ausência de informação especifica sobre esta planta na Tabela da Composição de Alimentos, motivo pelo qual o guia apresenta os valores nutricionais do manjericão, considerado o alimento mais semelhante.

“Na realidade, não é muito comum consumir-se o manjerico. Acaba por ser uma planta muito mais de adorno do que propriamente de consumo”, explica.

A nutricionista admite que persistem vários mitos associados ao manjerico, nomeadamente a ideia de que não deve ser cheirado diretamente e considera que esta poderá ser uma oportunidade para lhe dar uma nova utilização na cozinha.

Na prática, o seu uso pode ser semelhante ao do manjericão ao ser incluído em molhos, saladas, pratos frios ou quentes e outras iguarias, já que “o próprio cheiro e o sabor são muito semelhantes, portanto a utilização que se dá para um pode ser dada para o outro também”.

Quanto à conservação, Helena Real lembra que, depois de colhidas, as folhas são extremamente perecíveis e devem ser utilizadas rapidamente, uma vez que se deterioram com facilidade. Congelá-las também não é a melhor solução, já que os cristais de gelo acabam por destruir a sua estrutura.

A nutricionista deixa ainda um apelo ao aproveitamento total das ervas aromáticas, incluindo talos e caules, frequentemente desperdiçados: “Nós acabamos por ter aqui muito desperdício alimentar que poderia eventualmente ser reduzido, ou não existir, se fizéssemos o uso integral dos alimentos”, defende, lembrando que pequenos gestos repetidos diariamente podem ter um impacto significativo na redução do desperdício.

Num olhar mais abrangente sobre a alimentação, Helena Real recorda que a dieta mediterrânica privilegia os alimentos de origem vegetal e que as ervas aromáticas desempenham um papel importante como forma de enriquecer o sabor e diversificar pratos.