O Natal dos emigrantes: do bacalhau cozido à carpa frita, das saudades do mar à falta de uma couve portuguesa

São todos portugueses, com menos de 40 anos, a viver fora do país. Ao contrário de muitos emigrantes, não fazem a viagem para Portugal neste Natal. Há quem procure manter uma ceia portuguesa e há quem já se tenha rendido às tradições de outros países.
Sofia Santana
Sofia Santana Editora Digital
24 dez. 2025, 07:00

Colagem que junta quatro fotografias de emigrantes portugueses
Fotografia: Filipa Oliveira, Duarte Moura, Cláudia Barroso e Carolina Ramires são emigrantes e passam o Natal fora do país

Filipa Oliveira, cientista de Guimarães, tem 36 anos e vive em Praga há quase seis. Vai passar o Natal com o companheiro, também português, na capital da Chéquia. "O prato principal será amêijoas à bulhão pato e camarão tigre no forno. Nada típico para um jantar de Natal de portugueses, mas é o que apreciamos comer nestes dias", explica ao Conta Lá.

É o quarto Natal passado longe do Minho. Não podem faltar os doces, claro, mas a tradição portuguesa junta-se à checa e já encomendou uns biscoitos típicos do país onde vive, 'cukroví', feitos pela avó de uma amiga. "Temos ainda a sorte de conhecer uma checa (casada com um português) que cozinha bastante bem e nos ajuda a matar saudades de alguns doces sempre que precisamos. Para este Natal, encomendámos também um pão de ló e um rolo de cenoura", acrescenta. 

Já se habituou a passar a quadra fora do país, mas confessa que, se quisesse, seria muito difícil replicar uma típica ceia portuguesa: "Além do bacalhau, aqui não há a típica couve portuguesa", explica.

Quem também vai passar o Natal em Praga é Carolina Ramires, de 27 anos, especialista no setor imobiliário. Natural de Armação de Pêra, vive nos Países Baixos há um ano e meio, mas o namorado é checo. É a terceira vez que passa esta data com a família do companheiro.

"Normalmente, são os meus sogros que cozinham para a família inteira. O menu é o mesmo todos os anos: para entrada sopa cremosa de peixe, carpa frita com salada de batata para prato principal e umas bolachas típicas para sobremesa", revela.

A jovem algarvia diz-se completamente encantada com o Natal naquele país: "Sinto que o verdadeiro significado da família e do Natal é mais vívido 'à letra' do que em Portugal. Definitivamente é muito menos materialista, o que eu aprecio", afirma.

E explica algumas tradições que já a conquistaram: "É tradição os checos comprarem a carpa que irão cozinhar ainda viva e colocarem-na na banheira até ao Natal. No dia, deve-se escolher uma escama da própria carpa, secá-la e guardá-la na carteira até ao próximo Natal pois é vista como símbolo de dinheiro e prosperiedade visto que as escamas da carpa são douradas após secarem", conta.

Carolina Ramires não tem dúvidas: "Se depender de mim, continuarei a passar [o Natal] em Praga nos próximos anos", admite.

De Praga viajamos até Zurique. É aqui que vive Cláudia Barroso, de 37 anos, natural de Covide, Terras de Bouro. Investigadora na área de desenvolvimento de polímeros, tem mais familiares a viver na Suíça e, por isso, o Natal é em família. "A família cresceu e é mais fácil os de Portugal virem cá", revela.

"Por incrível que pareça, mesmo estando cá continuamos a fazer o típico Natal tradicional, com bacalhau cozido, legumes e batatas, muitas rabanadas e sonhos e até o bolo-rei", afirma.

Com a família por perto e a comida tradicional à mesa, as saudades do país revelam-se de outra forma: "Sinto mesmo muita falta do mar, daquela brisa do mar, da calma que me transmite, é sem dúvida o que mais me faz falta", confessa.

A Suíça tem uma forte comunidade portuguesa, tal como a Alemanha e o Reino Unido. E é entre estes dois últimos países que se divide Duarte Moura nesta época. Engenheiro biomédico de 33 anos, natural de Paços de Ferreira, vive em Franfurt am Main, Alemanha, há dois anos, mas vai passar o Natal ao Reino Unido, onde reside a irmã, casada com um britânico.

"Tentamos sempre manter a ceia de Natal o mais portuguesa possível, com pratos e doces tradicionais como bacalhau, rabanadas, bolo-rei e outros doces típicos portugueses. No dia 25, ao almoço, a refeição costuma ser diferente. Optamos por um almoço mais ao estilo inglês, uma vez que a minha irmã é casada com um britânico", afirma.

Não é a primeira vez que passa a quadra fora da 'Capital do Móvel', mas sempre que isso aconteceu foi em família. E isso, sublinha, é o mais importante: "Sempre que passei o Natal fora foi com a família e conseguimos ter comida portuguesa à mesa, pelo que nunca senti grande falta de nada. Acredito que o mais importante no Natal é estar com a família, independentemente do local", frisa.