O quadro de Marcelo que surpreendeu o Presidente antes do retrato de Vhils. A história de uma obra pouco oficial

António Bessa diz ter sido surpreendido ao saber que o retrato oficial de Marcelo Rebelo de Sousa no Museu da Presidência da República seria da autoria do artista urbano Vhils. Em 2017, o pintor portuense fez um retrato do Presidente e, durante muito tempo, acreditou que a obra poderia integrar o espaço reservado aos retratos presidenciais.
Pedro Marcos Editor de imagem
Regina Ferreira Nunes
Regina Ferreira Nunes Jornalista
Nuno Miguel Santos Repórter de imagem
09 mar. 2026, 08:00

O retrato oficial de Marcelo Rebelo de Sousa no Museu da Presidência da República foi criado pelo artista urbano Alexandre Farto, mais conhecido por Vhils, numa obra construída com recortes de jornais das duas décadas da sua presidência. A escolha surpreendeu o pintor portuense António Bessa, que em 2017 tinha retratado o Presidente. 

Ao Conta Lá, o artista recorda que soube da decisão apenas na véspera da inauguração do retrato oficial. “Fiquei surpreendido” afirma, acrescentando que recebeu um telefonema depois de Marcelo Rebelo de Sousa a justificar a situação e a elogiar o retrato que tinha pintado.

A obra de António Bessa surgiu depois de um encontro com o Presidente, durante uma cerimónia com visita dos reis de Espanha a Portugal. O pintor recorda que se aproximou de Marcelo Rebelo de Sousa para lhe pedir um abraço e que foi esse momento que o levou a decidir retratá-lo. 

“Nesse momento, senti que aquele abraço não era de um homem, mas sim de Portugal que me estava a abraçar, senti aquela emoção, de ser português”, afima.

O retrato foi feito a partir de uma fotografia e chegou a ser mostrado ao Presidente no atelier do pintor, na Rua do Almada, no Porto, um dia antes do dia de Portugal, isto é, no dia 9 de junho. Segundo António Bessa, Marcelo Rebelo de Sousa perguntou quanto custava a obra, ao que o artista respondeu que o quadro “tinha apenas o custo de um abraço”.

Durante a conversa, o Presidente perguntou também pelas medidas da tela, uma questão que levou o pintor a interpretar como um sinal de que a obra poderia vir a integrar o espaço reservado aos retratos presidenciais.

No entanto, o quadro acabou por não ser escolhido para o museu. Ainda assim, António Bessa diz compreender a decisão e elogia o trabalho de Vhils. “Dou os meus parabéns. É uma belíssima obra”, afirma, evidenciando o conceito de usar jornais como base para o retrato.

António Bessa trabalha no atelier da Rua Almada, no centro do Porto, onde se tornou uma figura conhecida da vida cultural da cidade.

O pintor diz que o interesse pela arte surgiu de forma inesperada. Recorda que começou a desenhar com um pedaço de carvão e que se surpreendeu com o resultado, momento que considerou decisivo para seguir aquela arte, a pintura.

Ao longo da sua carreira tem-se dedicado, sobretudo, ao retrato. Segundo o artista, o objetivo não é apenas reproduzir o rosto, mas tentar captar os traços da personalidade da pessoa retratada.

Para isso, procura conhecer melhor cada personagem e, em alguns casos, ouvir a música de que essa pessoa gosta enquanto trabalha. António Bessa diz que este processo ajuda a criar uma ligação com a figura que está a pintar e a desenvolver o retrato para além da semelhança física.