O que guarda, afinal, a Casa do Infante no Porto? Sete séculos de história preservados na Ribeira

A Casa do Infante nasceu como alfândega régia. Foi aqui que, durante séculos, se cobraram taxas sobre as mercadorias que entravam e saíam da cidade. Hoje, o espaço é um dos mais importantes polos culturais e de preservação da memória da cidade do Porto. 
Sofia Dias Olmedo
Sofia Dias Olmedo Jornalista
12 jun. 2026, 08:00

Entre vestígios romanos, documentos medievais, milhares de livros e quilómetros de arquivo, a Casa do Infante continua a afirmar-se como um dos mais importantes centros de preservação da memória da cidade do Porto. O edifício, que em 2025 assinalou os 700 anos do início da sua construção, é hoje muito mais do que um monumento histórico: tornou-se um espaço cultural multifacetado que reúne arquivo, museu, bibliotecas, exposições, concertos e atividades educativas.

As comemorações dos sete séculos de existência deram o mote para uma programação especial, inspirada no documento mais antigo conservado na instituição. Trata-se de um fragmento musical dos séculos XI e XII, reutilizado posteriormente como capa de um livro administrativo do século XVI.

"Como eram sete séculos, desenhámos uma programação com sete momentos grandes", explica Daniela Fernandes, chefe de divisão do Arquivo Histórico da Câmara Municipal do Porto. "O que nos inspirou para a criação desta programação foi o documento mais antigo que temos na casa. E o documento mais antigo é um documento musical."

A programação arrancou e terminou com música, numa homenagem simbólica a esse manuscrito medieval e às múltiplas funções que o edifício desempenhou ao longo dos séculos. Pelo caminho, acolheu encontros dedicados à arquitetura, à memória da habitação e à arqueologia, áreas profundamente ligadas à história da Casa do Infante.

Mas a história do edifício começa muito antes das atuais funções culturais. Segundo Paula Cunha, arquivista da instituição, a Casa do Infante nasceu como alfândega régia.

"Este lugar é um lugar que tem uma existência de vários séculos e, portanto, nas suas paredes, estão gravadas várias marcas da evolução do edifício, das várias funções e usos que ele foi tendo ao longo destes 700 anos", refere.

Foi aqui que, durante séculos, se cobraram taxas sobre as mercadorias que entravam e saíam da cidade. Mais tarde, a proximidade da Casa da Moeda e sucessivas ampliações reforçaram a sua importância económica. Com a construção de uma nova alfândega em Miragaia, na segunda metade do século XIX, o edifício entrou num período de declínio, embora nunca tenha desaparecido da memória coletiva dos portuenses.

A associação ao nascimento do Infante D. Henrique acabaria por devolver protagonismo ao imóvel. Em 1924 foi classificado como Monumento Nacional e, já nos anos 60 do século XX, foi doado ao município, que aqui instalou o então Gabinete de História da Cidade, antecessor do atual Arquivo Histórico.

Hoje, a Casa do Infante preserva um vasto património documental. São mais de 34 arquivos privados, documentação municipal que atravessa séculos de história e cerca de seis quilómetros de documentação armazenada.

"Apesar de sermos o garante da Câmara do ponto de vista da guarda do seu arquivo municipal, que vem desde a Idade Média até aos dias de hoje, a verdade é que hoje em dia a cultura tem que ser fruída e tem que ser disponibilizada", sublinha Daniela Fernandes.

A instituição integra, ainda, duas bibliotecas abertas ao público: a Biblioteca de Assuntos Portuenses e a Biblioteca do Cineclube do Porto. Estas bibliotecas disponibilizam cerca de 20 mil títulos. Além disso, acolhem investigadores, estudantes e visitantes que procuram conhecer melhor a história da cidade.

Em 2025, a Casa do Infante recebeu mais de 61 mil visitantes e registou cerca de 12.500 participantes em concertos, oficinas, colóquios, workshops e outras iniciativas culturais.

Para Daniela Fernandes, esta diversidade de atividades faz com que a Casa do Infante seja hoje "uma espécie de hub cultural". Um espaço onde o património documental convive com a criação artística contemporânea e onde diferentes públicos encontram motivos para regressar.

Essa capacidade de cruzar passado e presente é também visível na própria arquitetura do edifício. As obras de requalificação concluídas em 2001 permitiram abrir todas as alas ao público e criar um diálogo entre estruturas históricas e equipamentos modernos.

O resultado é um espaço onde convivem vestígios romanos, salas de leitura com vista para o Douro, depósitos de arquivo, laboratórios de restauro e áreas museológicas.

Durante as escavações arqueológicas realizadas nos anos 90 foram identificados importantes vestígios da época romana e recolhidas cerca de dois milhões de peças arqueológicas, reforçando o valor científico do local.

"É um edifício que tem já uma existência multisecular e que, no fundo, é o espelho da própria cidade do Porto, da sua capacidade de renovação", afirma Paula Cunha. "Ele resume todas estas facetas que são também traços distintivos da cidade do Porto."

As comemorações dos 700 anos prolongam-se ao longo de 2026 e incluem o lançamento de uma publicação dedicada à Casa do Infante e uma exposição associada aos 30 anos da classificação do Centro Histórico do Porto como Património Mundial da UNESCO. Uma ligação que não é por acaso: foi precisamente neste edifício, enquanto Arquivo Histórico, que foi preparada a candidatura que viria a garantir esse reconhecimento internacional.

Sete séculos depois do início da sua construção, a Casa do Infante continua, assim, a desempenhar o papel que sempre teve: guardar a memória da cidade e partilhá-la com quem a visita.