Obra de Ionesco revela-se "perigosamente atual" na nova produção do Teatro da Garagem
O Teatro da Garagem estreia, no dia 12, no Teatro Taborda, em Lisboa, a peça “O rinoceronte”, de Eugene Ionesco, para recuperar “uma inquietação" que julgava histórica e "descobri-la perigosamente atual”, anunciou hoje a companhia.
Na nova criação, a companhia aborda “um dos maiores clássicos do teatro do absurdo”, levantando algumas questões, nomeadamente “como permanecer humano num tempo que se habitua à desumanização”.
“Ionesco escreveu sob a sombra do totalitarismo. Esta encenação interroga a 'des-democracia', esse território confortável onde o consenso substitui o debate e a unanimidade dispensa pensamento”, frisa o diretor da companhia, o encenador Carlos J. Pessoa, no texto de apresentação da peça.
Publicada em 1959, "O rinoceronte" teve como ponto de partida, segundo o próprio dramaturgo franco-romeno, a expansão dos fascismos na Europa, nos anos de 1930, acabando por se revelar um caso sério de análise política e social, através dos momentos de humor causados tanto pelo insólito como pelo absurdo das situações.
A partir da “rinocerite” que avança como uma epidemia, alienando os habitantes de uma cidade, a obra expõe a facilidade com que setores ou ideologias totalitários manipulam a seu favor, e os perigos da indiferença, do alheamento ou do mero conformismo perante estes processos.
Nos tempos atuais em que muitas palavras de ordem “marcam os movimentos cívicos e políticos do nosso tempo”, a constante que prevalece “é a da revolta e da reivindicação”, refere Carlos J. Pessoa.
“Neste jogo de forças, neste equilíbrio precário entre quem detém o poder e quem sofre abusos, há uma tentação comum: um traço instintivo que fundamenta o extremar de posições, uma ideia totalitária que alimenta essa guerra violenta”, acrescenta o encenador.
Mas a tentação totalitária “não nasce apenas do confronto”, “nasce também do hábito". "Primeiro estranha-se, depois tolera-se, depois justifica-se”, acrescenta a companhia sediada no Teatro Taborda, em Lisboa, sublinhando que quando damos por isso “já nos habituámos”.
E o “que ontem parecia monstruoso torna-se banal". "O absurdo instala-se devagar, e o hábito encarrega-se de o tornar aceitável”, frisa, sublinhando que a peça de Ionesco que a companhia ergue agora não tem ideologia, não se assume como de esquerda ou de direita.
“'O rinoceronte' é uma denúncia da tentação totalitária, seja ela qual for. E se isto parece profundamente humano, este desejo de debelar a ambiguidade e a contradição, se essa rejeição do paradoxal como sustentáculo de uma vida consciente, menos dada a certezas do que a incertezas, é o fulcro da tentação totalitária, então 'O rinoceronte' é um alerta para os abismos que se abrem na disputa por esse reino de certezas e conveniências”, argumenta.
Sem se conformar com a incerteza, a dúvida ou a complexidade, o encenador questiona ainda: “Como não aceitar o tempo da manada ululante, seguindo cegamente o chefe que nunca se engana e sabe sempre a verdade? Como não seguir a manada?”.
“É muito mais fácil do que pensar”, conclui.
Com encenação de Carlos J. Pessoa a partir do texto de Eugène Ionesco, “O rinoceronte” tem dramaturgia de Cláudia Madeira, assistência de encenação de Luís Puto, sonoplastia e operação de som de André Carinha e desenho e operação de luz e vídeo de Carlos Vinícius.
A interpretar estão Dai Ida, Pedro Lacerda, Rita Loureiro e Rui Maria Pêgo.
A peça fica em cena até 22 de março, com sessões à quinta-feira, às 19:30, à sexta-feira e ao sábado, às 21:00, e, ao domingo, às 16:30.
No dia 15 de março, logo após o espetáculo, a companhia convida o público a ficar mais um pouco para uma conversa com o investigador João Constâncio, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e Alexandre P. Calado da Escola Superior de Teatro e Cinema.