Opinião. Se 12 pessoas concentram tanta riqueza como metade da humanidade, ainda faz sentido falar em democracia?
A concentração extrema de riqueza atingiu um novo máximo histórico. O número de multimilionários ultrapassou os 3.000 e, no topo da hierarquia, surge Elon Musk. Para perceber a escala, façamos um exercício matemático simples: imaginemos que 1 grão de arroz representa 1 milhão de dólares. Um pacote de arroz de 1 kg contém cerca de 50 mil grãos, o equivalente a 50 mil milhões de dólares. Nesta analogia, a fortuna de Elon Musk, avaliada em 788 mil milhões de dólares, corresponde a mais de 15 pacotes de arroz. A maioria de nós não tem um único grão e, provavelmente, nunca chegará a ter.
Esta não é apenas uma curiosidade visual. É a descrição de uma distribuição altamente assimétrica, típica de sistemas regidos por processos de feedback positivo: quem já tem muito tem maior capacidade de continuar a acumular.
O problema aqui não uma mera diferença de riqueza entre indivíduos. O problema é que, a partir de certos níveis, a riqueza deixa de ser apenas económica e passa a ter poder estrutural. De acordo com um relatório recente, um multimilionário tem cerca de 4.000 vezes mais probabilidade de ocupar um cargo político do que um cidadão comum, e países com elevados níveis de desigualdade apresentam um risco sete vezes maior de retrocesso democrático. Quando o dinheiro compra influência sistemática, o princípio “uma pessoa, um voto” deixa de funcionar na prática.
A matemática ajuda-nos a perceber que este resultado não é acidental. Sem mecanismos de redistribuição, sistemas económicos tendem naturalmente para extremos. A boa notícia é que desigualdades desta magnitude não são inevitáveis. A má é que não se corrigem espontaneamente. Precisamos de refletir com urgência sobre a forma como queremos distribuir recursos (e poder) numa sociedade que se pretende democrática.