Os últimos guardiões do barro negro de Gondar: a história de uma tradição moldada por pai e filho
Há tradições que se contam em livros e outras que continuam a ser escritas com as mãos. Em Gondar, no concelho de Amarante, é o barro que guarda a memória de um ofício com séculos de história. Durante décadas, dezenas de oleiros moldaram a terra retirada da natureza e transformaram-na em peças escuras que atravessam gerações. Hoje, a roda continua a girar, mais silenciosa, mas ainda viva.
A antiga escola primária de Vila Seca é agora o espaço desta olaria, onde todos os movimentos são cuidadosamente pensados. A roda manual gira enquanto o barro, ainda húmido, começa a ganhar forma entre as mãos dos únicos oleiros desta freguesia, César Teixeira e João Paulo Teixeira. É um gesto secular, repetido inúmeras vezes ao longo dos anos, mas que continua a exigir o mesmo cuidado.
“Aquilo que torna esta técnica única é o facto de ser genuína”, explica César Teixeira. “Desde a roda manual, que é a tradicional, até à preparação do barro, que é moído num tronco de árvore, a chamada pia”.
Nada é feito de forma industrial, o processo continua a ser como antigamente. O barro chega diretamente da terra com a humidade e tudo aquilo que a natureza traz consigo. Primeiro, deixa-se secar até endurecer e só depois é partido e transformado em pó. Esse pó passa por uma peneira, isto é, um utensílio de rede simples, mas essencial. É aqui que o barro se separa das pequenas pedras, raízes e restos de vegetação que chegam misturados com o barro.
Só quando o pó fica limpo e fino é que está pronto para começar a ganhar textura. A água é depositada em pequenas quantidades e as mãos começam a misturar a massa. O gesto faz lembrar o de amassar pão. Aos poucos, a terra transforma-se numa pasta homogénea, pronta para seguir para a etapa seguinte, ou seja, a modelação.
Na oficina, a roda gira devagar com a força que lhe é dada. João senta-se diante dela e empurra-a com o pé, mantendo um movimento constante enquanto o barro começa a subir entre as mãos. “Esta é a roda tradicional do norte”, explica. “O design dela tem mais de 400 anos e é manual. É mais trabalhosa, mas também mais artesanal”.
E é ali que nascem as peças tradicionais de Gondar, quase todas pensadas para a cozinha tradicional portuguesa. “As peças tradicionais são sobretudo utilitárias”, afirma João Teixeira. “Temos o alguidar para o arroz seco, a caçoila para arroz de tomate ou de feijão, e a chocolateira que antigamente servia para cozinhar o café”.
Há também peças ligadas a práticas antigas, como a vinagreira, usada para transformar vinho azedo em vinagre. Para João, é precisamente essa utilidade que mantém viva a ligação entre o passado e o presente: “o meu foco é fazer peças que tenham função, que não estejam ali só para decorar".
Depois de moldadas, os objetos precisam de tempo. Secam lentamente durante dias, por vezes semanas antes de passarem pelo momento mais delicado do processo.
A poucos metros dali o fogo já arde. É na soenga, um forno escavado diretamente no chão com uma profundidade que ronda os 50 centímetros, que as peças vão ganhar a cor que distingue o barro negro de Gondar. “A profundidade é o mais importante”, explica César Teixeira. “Se for muito superficial, arde rápido demais e não conseguimos a temperatura certa. Se for muito fundo, a chama perde intensidade".
À volta, a temperatura sobe lentamente enquanto a lenha alimenta as chamas, “este processo de cozedura demora cerca de quatro horas”, explica César Teixeira.
Antes de entrarem no calor mais intenso, as peças passam por um pré-aquecimento - é uma forma de evitar que o choque térmico as faça rebentar. “Se colocássemos uma peça fria diretamente no fogo forte, ela rebentava”, explica o oleiro. Quando finalmente atingem temperaturas que podem chegar aos mil graus, os objetos ficam incandescentes. Nesse momento, a cor do barro ainda não é a que se conhece. “O barro pode ser castanho, vermelho ou azul”, explica, “mas no nosso processo ele fica sempre preto”.
E é precisamente ali, entre a terra, a lenha e o fogo que o barro muda de cor. O segredo está no passo final, as peças são isoladas do oxigénio e cobertas com terra. O fumo que fica preso no interior acaba por ser absorvido pelo barro. “O que acontece é que elas absorvem o fumo”, explica César Teixeira.
Nem sempre foi assim tão raro encontrar quem dominasse esta arte. Em tempos, chegaram a existir cerca de 80 oleiros na aldeia. O barro fazia parte da vida dos habitantes como fonte de sustento para muitas famílias. No entanto, com a chegada de outros materiais como o alumínio ou o plástico, a realidade mudou. Aos poucos, os oleiros foram abandonando a profissão, o que fez com que este ofício se tornasse uma atividade em vias de extinção.
Quando César Teixeira se aproximou pela primeira vez desta arte, ela já estava quase a desaparecer. Foi em 1988, quando participou numa formação promovida pela Câmara Municipal de Amarante. Na altura, quatro jovens aprenderam então o ofício com aquele que era o último oleiro da terra.
Em 1998, a Junta de Freguesia desafiou-o a retomar a atividade e a dar continuidade à tradição. “Eu gostava muito disto, por isso aceitei logo”, explica. Desde então, César Teixeira mantém-se ligado à olaria, uma vez que, “se fosse pelo dinheiro já tinha abandonado há muito tempo”, admite. “Faço isto por prazer”, acrescenta.
Durante anos, foi mesmo o único oleiro a trabalhar o barro negro de Gondar. O trabalho, além de ser de se traduzir num ato de homenagem à tradição, é exigente e fisicamente duro, uma vez que requer preparar a lenha, trabalhar o barro e lidar com as cozeduras.
Nos dias de hoje, escreve-se um novo capítulo. Como diz o provérbio, “em casa de ferreiro, espeto de pau” e João Teixeira decidiu seguir as pisadas do pai. Cresceu entre o barro, as rodas e as fogueiras, pois aquilo que para muitos seria apenas um ofício antigo, para ele sempre fez parte da rotina.
“Isto sempre foi parte da minha vida”, afirma. “Desde pequeno que ficava fascinado com o trabalho e com a dimensão das fogueiras”.
João Teixeira recorda que o aprender não foi imediato, dominar a roda do oleiro exige tempo, paciência e muitas tentativas até adquirir a experiência, “demorei muito tempo até dominar o básico”, admite.
Há tarefas que continuam a ser especialmente exigentes fisicamente, como por exemplo, amassar o barro. “Qualquer parte deste ofício ataca a lombar, mas essa é a pior”, diz enquanto dá forma a uma peça. As marcas do trabalho já se fazem sentir no corpo, mas não as encara como um peso. “Tenho lesões, mas orgulho-me delas. Foram por uma causa nobre”, reitera com orgulho.
Para João, continuar esta tradição não significa apenas honrar o passado, mas garantir que o barro negro continua a ter um lugar no presente e nas gerações vindouras. “Gosto de fazer coisas que tenham função, se for para industrializar isto, então mata-se a tradição”, afirma.
Desta forma, João Teixeira deixa a promessa: “nunca vou industrializar isto, vou continuar a ser assim”, lançando o repto a quem queira aprender - a porta vai estar sempre aberta.
Entre a roda que gira para dar forma às peças e o fogo da soenga que as coze, o barro negro de Gondar continua a moldar-se, como se cada peça guardasse não apenas a terra de onde nasceu, mas também a história de uma arte que insiste em não desaparecer.