País tem prestado "pouca atenção" a fogos com origem na rede elétrica

O especialista em incêndios florestais Domingos Xavier Viegas alertou para o aumento do número de fogos que começam durante a noite com origem na rede elétrica, sustentando que o país tem “prestado pouca atenção” a este assunto. O responsável fala ainda em negligência no sistema de supervisão de fogos.
Agência Lusa
Agência Lusa
14 abr. 2026, 14:50

“Há uma causa a que parece muito importante prestar atenção que é a causa da rede elétrica. Conheço vários incêndios que começam com rede elétrica de noite. A rede elétrica está abandonada no meio do território e à noite há episódios de vento que potenciam [os incêndios]”, disse o diretor do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) aos negócios dos incêndios florestais.

Na opinião de Xavier Viegas, “a sociedade e o país têm estado a prestar pouco atenção a este assunto e por vezes a investigação das causas não é feita com o devido cuidado”.

Exemplificou com a investigação ao incêndio de Pedrógão Grande, em 2017, em que “a Polícia Judiciária foi atrás da ideia de que tinha sido causado por uma descarga de trovoada que não houve”.

O investigador disse ainda que os acidentes originados em linhas elétricas, que têm causas acidentais, têm provocado “áreas ardidas importantes”.

Indicou também que as percentagens de incêndios com causas naturais são “bastante baixas”, mas há anos, como 2025, em que houve “uma área ardida bastante importante devido a causas naturais”.

Aos deputados da CPI, Xavier Viegas afirmou que Portugal é dos países onde mais se estudam as causas dos incêndios, frisando que “o número de causas não investigadas tem vindo a diminuir”.

O investigador disse também que a área ardida devido ao fogo posto tem vindo a aumentar e manifestou-se surpreendido por fumar ter sido no ano passado “uma causa de área ardida muito importante”.

Segundo Xavier Viegas, a pirotecnia é marginal nos últimos anos e os incêndios causados por queimas e queimadas têm vindo a diminuir.

O especialista em incêndios florestais manifestou ainda dúvidas sobre a existência de “ações concertadas” nos negócios ligados aos fogos, mas admitiu “alguma negligência” e que o sistema carece de maior supervisão.

“Eu não nego que tal suceda [negócios fraudulentos], mas tenho dúvida que o volume destes negócios seja relevante e significativo”, disse o diretor do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) aos negócios dos incêndios florestais, referindo-se à possibilidade de existirem suspeitas de fraude em alguns negócios associados à gestão dos fogos rurais.

Ao longo da audição, sustentou não ter “conhecimento direto” de atividades ilícitas ligadas aos negócios dos incêndios, quer de madeireiros, quer de empresas de materiais de apoio à atividade de combate, e considerou que “não haja propriamente uma concertação de grande dimensão”.

“A expressão maior da suspeita levaria a considerar que pessoas interessadas empregariam meios para causar mais incêndios, para reduzir a eficácia do combate, para haver maior duração dos incêndios, mais reacendimentos e, consequente, maior área ardida. Tenho dúvidas que haja ações concertadas nesse sentido”, disse, admitindo a existência de “ações que manifestam alguma negligência neste âmbito”.

Como exemplo, referiu o que considerou ser uma “negligência muito grande” o facto de não se usarem produtos retardantes no combate, o que facilita e reduz “a eficácia do combate, sobretudo os meios aéreos, que são aqueles mais dispendiosos”.

Outra das negligências apontadas é não existirem dados sobre o movimento das aeronaves, nomeadamente a ausência de dados sobre onde estão a voar e descarregam os helicópteros e os aviões, além de ter manifestado uma “grande preocupação” com a gestão das faixas da rede elétrica.

Domingos Xavier disse ainda que “o sistema carece de uma maior supervisão pelos próprios cidadãos e depois pelas entidades responsáveis”.

“Todo este sistema dos incêndios, como aliás outras coisas no país, andam em roda livre. Ninguém as vigia. E temos que olhar para isso", apelou, acrescentando que a CPI, "mais do que a mera busca de fraudes em negócios", deveria "identificar e corrigir diversas outras falhas que existem".

O especialista apontou ainda falhas à Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais, considerando que errou ao separar a proteção civil dos serviços florestais e ao “não ter prestado atenção” aos bombeiros.

“Creio que a AGIF [Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais] teve e tem um papel importante, mas tem também algumas falhas (…). Quando a AGIF define uma estratégia com base numa segmentação dos incêndios rurais, separação entre a proteção civil e os serviços florestais, creio que aqui se cometeu um erro estratégico e que está na génese de algumas das falhas”, disse o diretor do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) aos negócios dos incêndios florestais.

“Não podemos estar a criar metas que não dependem só da atividade humana. Por exemplo, dizer que não vai arder mais que 660 mil hectares em 10 anos. E o que já se viu é que em seis anos já praticamente atingimos essa meta”, disse.

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) aos negócios dos incêndios florestais, imposta pelo Chega, pretende investigar as causas, a gestão e os eventuais negócios associados aos grandes fogos florestais.