"Paredes abertas como se fossem feridas": o que mais impressionou jornalistas do Conta Lá no território da depressão Kristin
Pedro Miguel Costa
Mónica
Mónica Fernandes está sentada numa cadeira na sede da União de Freguesias de Colmeias e Memória, a norte de Leiria. À sua volta, há dezenas de pacotes de bolachas, latas de atum, produtos de higiene pessoal e tanto mais, trazido por voluntários, até do Porto, que responderam a um apelo colocado pela própria junta nas redes sociais, pedindo ajuda a quem a pudesse oferecer.
Mónica continua sentada, de olhos vazios; parece passar despercebida entre os tantos que chegam pedindo lonas, telhas, comida para os vizinhos idosos, sem luz nem água em casa, sem conseguirem ir a Leiria levantar dinheiro, sem conseguir pagar a conta no supermercado, que não tem o multibanco a funcionar.
É um corrupio de gente a entrar e a sair: bombeiros perguntam qual o próximo caminho a desobstruir; uma moradora não precisa de comida, mas precisa de um fogão, o dela é elétrico; não há fogões, mas, se quiser, enlatados há muitos.
Mónica escuta e espera. Quando lhe perguntamos o que a trouxe até à junta, desata num pranto: “Chove na minha sala como chove na rua”, começa por contar. Tem dois filhos pequenos, o ex-marido não lhe paga a pensão, o senhorio diz que é melhor sair, não consegue reparar o telhado agora, e o patrão exige que vá trabalhar, caso queira manter o emprego.
Há momentos em que a força de uma pessoa não se mede pelo que consegue fazer, mas pelo simples ato de permanecer sentada, a tentar não desabar.
Naquela sala onde tudo é urgência, Mónica é o retrato silencioso de uma parte do país que espera na solidariedade o consolo que a tempestade levou.
Isabel Osório
Sopro de um gigante
Há um poste de eletricidade na berma a tombar e um cabo pendurado que atravessa a estrada de um lado ao outro. E se não conseguirmos travar? E se fosse de noite… Há perigos que se escondem subtilmente no meio da devastação.
Na berma da estrada meia dúzia de pessoas teimam arrastar um tronco de árvore para fora do caminho. Pesa o triplo da soma do que pesam todas elas. A determinação vai vencer o atrito. A areia da praia invadiu as ruas, entrou pelas frestas das casas bloqueou portas e janelas. Há braços que empurram pás e vassouras, mãos que agarraram estilhaços e os largam.
Não há sinais de trânsito a indicar o caminho. Tombaram, vergaram, foram projetados para longe pela força do vento infernal. Não há gps que facilite a deslocação. Quem não conhece os caminhos, segue errante, volta atrás, repete e arrisca uma qualquer direção.
O horizonte é um lençol interminável de árvores tombadas, quebradas arrancadas do chão. Como se uma máquina esmagadora tivesse passado por ali, ou o sopro de um gigante derrubado toda a vegetação. Há chapas de metal, que eram ontem coberturas de edifícios, hoje dobradas como papel, espalhadas, partidas, contorcidas, acomodadas em sítios longínquos e improváveis.
Por estes dias, com o repórter de imagem Vitor Quental, tenho percorrido sobretudo a zona costeira, nos concelhos da Marinha Grande e de Leiria. Depois das limpezas possíveis e dos remedeios improvisados para proteger o que resta dos negócios afetados, as ruas estão desertas. Os poucos residentes que vivem aqui durante todo o ano, resguardam-se agora em casa. Sem luz, sem água, sem comunicações, esperam desolados, mergulhados numa apatia silenciosa que parece envolver todo o litoral.
Luís Varela de Almeida
As pessoas que se sentem esquecidas
Uma semana depois da tempestade Kristin, o país ainda não voltou a caber dentro de si. Há lugares onde o tempo anda mais devagar. Não porque alguém o pediu, mas porque a realidade o obriga. Nas aldeias da Marinha Grande, em Ourém, ou em Leiria sente-se isso: um relógio partido que já não mede horas, mede ausências. Mede telhados que desapareceram. Mede paredes abertas como se fossem feridas. Mede a vida a tentar recomeçar com a pressa de quem não tem alternativa.
No terreno, aquilo que mais me marcou não foi o estrondo do vento, foi o silêncio que ele deixou. Um silêncio que não é vazio. É pesado. É feito de perguntas que ninguém consegue responder com segurança: como vai ser o amanhã? E se chover outra vez? Quem chega primeiro: a ajuda ou a próxima noite? Há inquietações que não se dizem alto. Apenas se vivem. No olhar. Nas mãos. Na forma como as pessoas andam pela casa — quando ainda há casa — como quem anda por dentro de uma memória.
E, no meio disto, vi uma coisa que me voltou a surpreender: a força dos portugueses. Não aquela força grandiosa dos discursos, mas a força pequena e insistente de todos os dias. A força de quem não sabe como vai ser o amanhã e, ainda assim, levanta-se. A força de quem já perdeu muito e, mesmo assim, encontra um pedaço de si para dar aos outros.
Há imagens que ficam. Uma delas foi uma senhora que nos ofereceu um galo guisado para o almoço. Simples assim. Parte da casa destruída, a vida desarrumada, e ainda assim… comida. Como se dissesse: eu posso não ter telhado, mas ainda tenho gesto. Aquilo não foi apenas uma atitude. Foi uma lição de humanidade. Uma forma de resistência. Um abraço servido à mesa, quando o mundo, lá fora, parecia não ter braços.
Outra marca que levo: uma senhora a tomar banho com água da chuva. Há qualquer coisa de brutal nesta frase, porque não é metáfora, é verdade. E, quando o essencial falta, percebe-se o quanto o essencial é frágil. Banhar-se em água da chuva não devia ser coragem. Devia ser impensável. Mas ali, uma semana depois, torna-se rotina improvisada. E a pergunta que me ficou foi esta: como é que um país se habitua a achar normal aquilo que nunca devia ser normal?
E há uma marca que não é bonita, mas é impossível de ignorar. A sensação de distância. A falta de sensibilidade de quem nos governa. Não falo de promessas, nem de palavras. Falo de presença. De proximidade. De saber o nome das aldeias isoladas, de ver com os próprios olhos o que é esperar ajuda enquanto o frio entra por onde antes havia parede. No terreno, há pessoas que se sentem esquecidas. E quando alguém se sente esquecido, não é só o telhado que cai, é a confiança. É a ideia de pertença. É a esperança a ficar sem lugar onde se segurar.
No estádio de Leiria, o contraste foi um murro silencioso. Um autêntico banco alimentar montado com toneladas de alimentos. E filas. Filas de pessoas para pedir comida. Filas para ir buscar telhas. Filas para reconstruir o que, até há poucos dias, era apenas “casa”. Aquilo pareceu-me um retrato do país num só enquadramento: a generosidade organizada, o socorro possível… e, ao lado, a necessidade. Uma fila diz sempre muita coisa. Diz que alguém precisa. Diz que alguém não tem. Diz que alguém espera. E, às vezes, diz também que alguém perdeu a vergonha porque já não há espaço para ela quando se perde tudo o resto.
O que mais me marcou, afinal, foi isto: a tempestade passou, mas a luta fica. E há uma espécie de heroísmo discreto a acontecer em cada aldeia, em cada rua, em cada prato partilhado, em cada balde a recolher água, em cada telha carregada ao ombro como se fosse o futuro.
Tudo isto deixa-me com uma inquietação: quando as câmaras se forem embora e o assunto deixar de ser manchete, quem fica para segurar estas pessoas? Quem garante que a solidariedade não é só um pico de emoção? Quem transforma o choque em resposta, a compaixão em ação, a presença em compromisso?
Uma semana depois, o que mais me marcou foi a resiliência. Mas também me marcou a pergunta que ela esconde: até quando é que vamos pedir a um povo que seja sempre forte, em vez de lhe garantirmos que não estará sozinho?