Pedrógão Grande luta contra o trauma dos incêndios depois da destruição causada pelas tempestades

A viagem do Conta Lá pela Estrada Nacional 2 chegou ao quilómetro 324, no concelho de Pedrógão Grande, distrito de Leiria. Quase uma década após os fatídicos incêndios que assolaram o território, a população tenta ainda reerguer-se, numa vila onde a tempestade Kristin abriu a ferida e expôs as fragilidades das redes de comunicação e da gestão florestal.
Ana Rita Cristovão
Ana Rita Cristovão Jornalista
12 mai. 2026, 14:44

Entre as paisagens serranas e a característica tranquilidade rural, Pedrógão Grande é casa de cerca de três mil habitantes, dispersos por três freguesias. Tem na gastronomia típica, com o bucho, e na Barragem do Cabril, com uma estação náutica certificada, os seus pontos fortes.

Mas é também uma região marcada pelo infortúnio da destruição. Nos caminhos que percorrem a vila, são ainda visíveis os danos das tempestades de fevereiro, com árvores caídas, cabos de comunicação soltos e infraestruturas danificadas.

“Desde o estádio, a Câmara Municipal também sofreu danos, a Casa da Cultura, infraestruturas turísticas como as praias fluviais”, enumera ao Conta Lá na emissão especial da Nacional 2 o vice-presidente da autarquia de Pedrógão Grande, Luís Filipe Correia.

A recuperação tem sido feita “a nível gradual”, diz, uma vez que é necessária “muita mão de obra” que não existe na região. Há, inclusive, situações que a Câmara “não consegue controlar só por si”, como é o caso das telecomunicações.

Três meses passaram mas repor as comunicações ainda “irá demorar algum tempo”

“Existem ainda situações que não foram resolvidas, apesar da insistência do município junto das operadoras. A resposta que temos tido é que estão a fazer o que conseguem, porque não foi só Pedrógão Grande, foram muitos quilómetros de cabos danificados na região e irá demorar algum tempo”, admite o vice-presidente.

No entanto, o edil deu conta de que junto à Nacional 2, importante ponto turístico, a cobertura está garantida, e que foi recentemente instalada uma antena “numa zona estratégica na parte a norte do concelho, que serve um conjunto de aldeias e minimiza a falta de comunicação nestas zonas brancas”.
“Há uma necessidade de reposição urgente, as pessoas precisam para o dia a dia, por questões de segurança”, conclui.

É também segurança que a população pede, a caminho de mais um verão que faz reabrir a ferida que o território não esquece.

“Quando as coisas mais são precisas são quando falham, no incêndio de 2017 o SIRESP falhou completamente, as pessoas estiveram imenso tempo sem comunicação. (…) Espero que as operadoras percebam que vem aí um verão muito sensível e é uma questão de segurança para a comunidade”, alerta Dina Duarte, da Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande.

Depois dos incêndios, as tempestades: uma população que luta contra o trauma

A memória do dia 17 de junho de 2017 vive ainda na memória da população de Pedrógão Grande. 

“É uma memória que não se vai perder, mas por vezes quem de direito esquece-se e é importante que a sociedade civil se relembre que há um conjunto de trabalho que tem de continuar a ser feito para preservar a natureza e as aldeias que restam, têm de ser tratadas como uma forma de permanecerem resilientes no território”, lembra Dina Duarte.

Hoje, o medo do regresso do fogo agiganta-se com o rasto de destruição que as tempestades deixaram no território.

“O que não ardeu no dia 17 de junho de 2017, há nove anos, caiu agora com a tempestade, a maior parte dos nossos sobreiros. (…) A gestão florestal está um bocadinho ao abandono e isso veio-se agora a verificar com a tempestade Kristin, há um território que perdeu parte da sua riqueza florestal”, aponta a responsável da Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande.

“Com a tempestade, voltámos a ver um conjunto de casas destelhadas, a própria natureza está como está, e isso traz sempre um reviver, um reabrir de uma ferida que está a cicatrizar e volta a ser reaberta.

E não só a ferida continua aberta como a reparação do que o fogo destruiu ainda não terminou, nove anos depois.

“Temos ainda casas por recuperar, que são segundas habitações e não foram inseridas no programa de recuperação, há também uma habitação que não estará concluída por questões de burocracia”, refere Dina Duarte, numa altura em que o fundo Revita, destinado aos concelhos afetados pelos incêndios de 2017, foi entregue à Comunidade Intermunicipal de Leiria para “projetos de reconversão de algo novo para o território”.

Depois da tragédia, fica a resiliência. A autarquia espera hoje a conclusão, ainda no primeiro trimestre deste ano, de um investimento de uma unidade hoteleira no concelho que vai gerar 200 postos de trabalho e que se espera que venha atrair habitantes e mais investidores para a região.

Em Pedrógão Grande, a população deixa a mensagem a todo o país: “Houve a tragédia, agora há que viver o território, os portugueses devem fazer as pazes com este interior que precisa de visitas com calma e usufruto”.