“Perante o touro, somos todos iguais”: Marta Mateus transforma as histórias esquecidas do Alentejo em cinema
Sentada numa das salas da Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, Marta Mateus fala do Alentejo muito antes de falar de cinema. As histórias surgem primeiro. Histórias de trabalhadores rurais, de mulheres que tiveram os filhos em casa porque não havia hospitais, de homens enviados para guerras que não escolheram e de pessoas que raramente entram nos livros de História. Ao longo da conversa, a realizadora regressa repetidamente a esse universo, como se todas as perguntas acabassem por conduzir ao mesmo lugar: as memórias que passam de geração em geração e as vidas que ficam de fora das narrativas oficiais.
Natural de Estremoz, Marta Mateus admite que teve uma relação difícil com a escola e que foi precisamente essa inquietação que a levou a procurar um caminho artístico. Tinha apenas 15 anos quando percebeu que queria ser realizadora, apesar de não fazer ideia do que significava fazer cinema. Curiosamente, decidiu que a única coisa que não queria estudar era cinema. Optou pela fotografia e por outras disciplinas que considerava paralelas à realização, mas que hoje vê como complementares. Mais do que aprender uma técnica, interessava-lhe encontrar uma forma de olhar para o mundo. E esse olhar começou muito antes de pegar numa câmara.
A realizadora cresceu rodeada por pessoas que muitas vezes não sabiam ler nem escrever, mas que dominavam aquilo que considera uma arte essencial: a capacidade de contar histórias. Eram histórias sobre trabalho, pobreza, família, guerra e sobrevivência, transmitidas oralmente e quase sempre ausentes da História ensinada nas escolas. Quando questionada sobre o que aprendeu com essas pessoas, a resposta surge sem hesitação. “Aprendi sobre a minha humanidade”, diz. Para Marta, “a palavra é aquilo que nos faz humanos”, porque é através dela que se transmitem experiências, valores e formas de compreender a vida que dificilmente cabem em números, estatísticas ou manuais escolares.
Essa visão ajuda a perceber a relação crítica que mantém com a História oficial. Na sua perspetiva, a narrativa que aprendemos tende a privilegiar os grandes acontecimentos e os seus protagonistas, deixando frequentemente de lado as pessoas comuns que viveram as consequências desses mesmos acontecimentos. “Às vezes caímos numa certa abstração”, observa. “É difícil perceber que aqueles acontecimentos tiveram um impacto real naquilo que é a nossa vida hoje.” É precisamente nesse espaço entre a “História com H maiúsculo” e as histórias individuais que se move grande parte do seu trabalho.
As histórias que não entram nos livros
Essa preocupação está no centro de Fogo do Vento, a sua primeira longa-metragem, que demorou quatro anos a filmar e que percorreu festivais internacionais antes de chegar às salas portuguesas. O filme acompanha um grupo de trabalhadores rurais que sobe às árvores depois do aparecimento inesperado de um touro. A partir desse acontecimento aparentemente simples, a narrativa expande-se em múltiplas direções, cruzando memórias, fábulas, figuras históricas e experiências partilhadas. Marta Mateus descreve-o como uma espécie de manta de retalhos construída a partir de imagens que lhe pertencem, mas também de imagens que foram surgindo através das histórias e das memórias das pessoas que participam no filme.
Ao falar do processo de criação, insiste numa ideia que atravessa toda a conversa: a memória não é um arquivo perfeito. “Nós também construímos e criamos imagens e significados”, explica. “Às vezes, lembramo-nos das coisas de uma maneira que não é exatamente a forma como aconteceram.” Mais do que reconstruir o passado, Fogo do Vento procura explorar a forma como esse passado continua vivo dentro das pessoas, misturando aquilo que aconteceu com aquilo que foi imaginado, reinterpretado ou transmitido ao longo dos anos. É por isso que o filme se move constantemente entre diferentes tempos e diferentes camadas de realidade, recusando as fronteiras rígidas entre a memória, a imaginação e a experiência vivida.
Essa lógica ajuda também a compreender a figura do touro, que atravessa todo o filme. Marta Mateus conta que já ouviu interpretações muito diferentes para aquele animal: houve quem o associasse ao capitalismo, ao patrão, à extrema-direita ou a figuras mitológicas. Nenhuma dessas leituras lhe parece errada. “Ele é isso tudo”, afirma. Mas recusa escolher apenas uma explicação. No Alentejo, diz, “uma pedra nunca é apenas uma pedra e um lugar raramente existe sem uma história associada. Há fontes, árvores ou rochedos que carregam lendas, memórias e personagens transmitidas ao longo de gerações”. O touro pertence a esse universo simbólico e aberto, onde cada pessoa é convidada a construir o seu próprio significado.
Ao longo da conversa, torna-se evidente que Marta não está interessada em oferecer respostas definitivas ao espectador. Pelo contrário. Prefere abrir caminhos de interpretação e deixar espaço para a dúvida. Essa posição atravessa todo o filme e está ligada à forma como encara a própria memória. Recordar não significa reproduzir fielmente o passado, mas reconstruí-lo continuamente, atribuindo-lhe novos sentidos. Talvez por isso Fogo do Vento se aproxime tantas vezes da fábula, do mito ou da lenda popular. Mais do que explicar o mundo, procura criar um espaço onde diferentes leituras possam coexistir.
“Só o coletivo nos pode salvar”
Ao longo da nossa conversa, há uma palavra que regressa tantas vezes quanto memória ou história: comunidade. Marta fala dela sem nostalgia excessiva, mas com a convicção de quem sente que algo importante se perdeu. Quando lhe pergunto o que mudou no Alentejo das últimas décadas, faz questão de sublinhar primeiro aquilo que melhorou. Recorda uma região marcada pela pobreza extrema, por profundas desigualdades sociais e por uma realidade em que muitas famílias lutavam simplesmente para conseguir comer. “Embora nos queiram fazer acreditar que antes é que era bom, não era”, diz. Ainda assim, acredita que as transformações económicas e sociais trouxeram consigo outra perda, menos visível, mas igualmente significativa.
“O que se tem perdido é um bocado transversal ao mundo: a noção de comunidade.” A resposta surge sem hesitação. Na sua perspetiva, a sociedade contemporânea promove cada vez mais a competição e o individualismo, enfraquecendo os laços que durante muito tempo permitiram às pessoas enfrentar dificuldades em conjunto. É precisamente essa reflexão que atravessa Fogo do Vento. Perante a ameaça do touro, as personagens sobem às árvores e ficam suspensas entre o medo e a espera. Têm percursos diferentes, pertencem a universos distintos e carregam histórias próprias. Ainda assim, a sobrevivência depende do coletivo. “Só o coletivo nos pode salvar”, resume.
Essa mesma lógica estende-se à relação com a natureza, outro tema central da conversa. Crescer no campo permitiu-lhe compreender desde cedo que existem limites que escapam ao controlo humano. As estações, as colheitas, a chuva ou a seca recordam constantemente a fragilidade da nossa condição. Marta Mateus acredita que parte da crise ambiental atual resulta precisamente do afastamento progressivo dessa realidade. “As pessoas estão desligadas da natureza, mas a natureza somos nós”, afirma. A frase surge quando fala das alterações climáticas, mas acaba por funcionar como uma síntese da sua visão do mundo. Para a realizadora, a natureza não é algo exterior ao ser humano. Faz parte dele.
Essa ideia está presente em todo o filme. As árvores não são um simples cenário. São elas que salvam as personagens, são elas que interrompem o ritmo habitual da vida e obrigam aquelas pessoas a parar. Enquanto permanecem suspensas nos ramos, têm finalmente tempo para recordar, conversar e pensar. Marta Mateus acredita que essa possibilidade se tornou rara numa sociedade obcecada pela velocidade. “As pessoas têm dificuldade em parar”, observa. Talvez por isso defenda que a contemplação se transformou numa forma de resistência. Num tempo marcado pela aceleração permanente, parar para observar, refletir ou simplesmente escutar pode ser um gesto profundamente político.
“A palavra é aquilo que nos faz humanos”
Se existe uma ideia que une todo o filme, é a da escuta. Marta Mateus acredita que a forma como aprendemos a linguagem molda profundamente a forma como vemos o mundo. Cresceu a ouvir histórias e a transformá-las em imagens mentais muito antes de pensar em cinema. Por isso, quando fala da oralidade alentejana, fala também de uma linguagem ligada ao movimento, à natureza e à experiência concreta da vida. Muitas das falas de Fogo do Vento parecem poemas, não porque tenham sido escritas como poesia, mas porque nascem dessa tradição oral que continua a considerar uma das maiores riquezas da região. “A forma como nós aprendemos a falar e aquilo que escutamos quando a nossa língua está em formação forma a nossa maneira de ver”, explica.
Essa relação entre palavra e imagem está no centro do seu trabalho. Quando era criança, bastava-lhe ouvir uma história para construir imediatamente cenários, personagens e paisagens inteiras na imaginação. O cinema surgiu mais tarde como uma extensão natural desse processo. Antes da imagem filmada, existiu sempre a palavra. E antes da palavra escrita, a palavra dita. É essa herança oral que continua a alimentar a sua forma de criar e que ajuda a explicar porque tantos diálogos de Fogo do Vento soam simultaneamente familiares e poéticos.
Uma das figuras centrais desse universo é Maria Catarina, hoje com 86 anos. Não sabe ler nem escrever, mas Marta descreve-a como uma das pessoas mais poéticas que conhece. “Quando ela fala, a forma como constrói as frases e como conta é um pensamento poético”, explica. Muitas das histórias presentes no filme nasceram diretamente das suas palavras. Ao invés de lhe entregar um texto para decorar, a realizadora trabalhou com ela através da repetição, da escuta e da reorganização das suas próprias memórias, construindo um processo colaborativo que respeitasse a forma como pensa e comunica. Primeiro através de ensaios presenciais e, mais tarde, recorrendo a gravações áudio que lhe permitiam continuar a trabalhar os textos sem depender da leitura.
Essa opção está intimamente ligada à preferência da realizadora por trabalhar com atores não profissionais. Apesar de ter estudado teatro, Marta admite que nunca sentiu um verdadeiro interesse em seguir o caminho mais convencional. O que procura são pessoas capazes de levar para o ecrã não apenas uma personagem, mas também a experiência das vidas que viveram. Ao falar de Maria Catarina, não destaca apenas as histórias que conta, mas aquilo que o seu próprio corpo revela. “Quando a Maria Catarina conta a sua história, vemos aquele rosto marcado pelo sol e aquelas mãos de trabalho.” Para Marta Mateus, os corpos e as vozes destas pessoas transportam uma verdade impossível de reproduzir artificialmente. São eles que dão densidade às palavras, que ligam as histórias à realidade concreta de quem as viveu e que transformam a memória numa presença viva.
É precisamente aí que o cinema da realizadora encontra uma das suas maiores forças. Não na recriação perfeita do passado, mas na capacidade de devolver visibilidade a pessoas que raramente ocupam o centro das narrativas. Pessoas como Maria Catarina, cujas histórias poderiam desaparecer sem deixar rasto, mas que continuam vivas porque alguém decidiu escutá-las, preservá-las e transformá-las em cinema.
O soldado, o filho e a memória da guerra
A palavra, a memória e a oralidade atravessam todo o universo de Fogo do Vento e a guerra surge como uma das suas feridas mais profundas. Ao longo do filme, entre trabalhadores rurais refugiados nas árvores, aparece um jovem soldado que parece deslocado do tempo. A personagem nasceu de uma memória familiar, mais concretamente, da figura do avô de Marta Mateus, que combateu na Primeira Guerra Mundial e morreu antes de a realizadora nascer. Durante anos, a única ligação que teve a ele foi uma fotografia antiga na qual surge vestido de soldado. O que mais a impressionava não era a farda nem o contexto histórico. Era a idade. “Na fotografia que eu tenho dele vestido de soldado, ele parece uma criança, um adolescente”, recorda.
A imagem acompanhou-a durante décadas e acabou por encontrar lugar no filme. Mas Fogo do Vento não se limita a recuperar a memória de um familiar. Através daquele rapaz, Marta Mateus procura refletir sobre todas as guerras e sobre a facilidade com que continuamos a aceitá-las como inevitáveis. Ao longo da conversa, regressa várias vezes à forma como os conflitos armados são consumidos diariamente através de imagens que circulam sem parar nos meios de comunicação. Na sua perspetiva, essa exposição permanente não nos aproxima da realidade da guerra. Muitas vezes produz precisamente o contrário. “A banalização das imagens de guerra que vivemos hoje desliga-nos da realidade daquelas pessoas”, afirma. Por detrás das estatísticas, dos mapas e dos discursos políticos existem sempre vidas concretas, famílias e jovens que nunca escolheram participar nesses acontecimentos.
A escolha do ator reforça essa dimensão íntima da narrativa. O soldado é interpretado pelo filho de Marta Mateus, de 22 anos, criando uma ligação entre três gerações da mesma família. A memória do avô que combateu na guerra atravessa a experiência da realizadora e ganha uma nova vida através do bisneto, que a transporta para o ecrã. Mais do que uma homenagem familiar, trata-se de uma reflexão sobre a forma como os traumas e as memórias atravessam o tempo, sobrevivendo muito para além daqueles que os viveram.
O final do filme condensa essa ideia numa das suas imagens mais fortes. Depois de atravessar a narrativa carregando uma arma que nunca parece verdadeiramente sua, o jovem soldado atira a espingarda ao rio e partilha pão com uma figura misteriosa que emerge das rochas. Marta Mateus recusa oferecer uma interpretação fechada para esse encontro, mas não esconde a dimensão política do gesto. “Eu sou fã dos desertores”, assume. Para a realizadora, a recusa da violência representa uma escolha profundamente humana. “Uma mãe não tem um filho para servir no exército e matar outras pessoas.” Mais do que um final sobre guerra, aquele momento fala de solidariedade, de sobrevivência e da possibilidade de escolher outro caminho.
Um país que não se vê ao espelho
A certa altura, a conversa afasta-se naturalmente do filme e aproxima-se do estado do cinema português. Ou talvez não se afaste assim tanto, porque muitas das preocupações presentes em Fogo do Vento reaparecem quando Marta fala sobre cultura, acesso e representação. Apesar do reconhecimento internacional do seu trabalho, a realizadora lamenta a dificuldade que muitos filmes portugueses continuam a enfrentar para chegar ao público nacional. Fogo do Vento percorreu festivais internacionais, recebeu distinções e conquistou atenção fora do país antes mesmo de estrear em Portugal. Ainda assim, a sua passagem pelas salas comerciais tem sido curta.
“Hoje, a NOS tirou o filme das salas porque supostamente não teve espectadores suficientes”, conta, sem esconder a frustração. A questão vai muito além de um caso individual. Para Marta Mateus, existe um preconceito persistente em relação ao cinema português. “Muitas pessoas classificam-no como lento, difícil ou aborrecido sem sequer o conhecerem”, resume. O problema torna-se ainda mais evidente quando olha para o interior do país, onde o acesso à cultura continua a ser desigual. Dá o exemplo de Beja, cidade onde não conseguiu exibir o filme por falta de salas disponíveis.
A crítica não se limita à distribuição. Estende-se à forma como o país olha para si próprio. Marta recorda a importância internacional de cineastas como Manoel de Oliveira e lamenta que o reconhecimento externo nem sempre tenha correspondência dentro de portas. “Cá, santos da casa não fazem milagres”, comenta. Ao mesmo tempo, questiona uma cultura audiovisual cada vez mais orientada para o consumo rápido e para a distração permanente. Durante a entrevista, recupera uma expressão que ouviu de uma amiga e que nunca esqueceu: “É o cinema do xanax”. Filmes que entretêm durante algumas horas, mas que não deixam espaço para a reflexão nem para o envolvimento ativo do espectador.
A realizadora prefere outro caminho. Não procura respostas simples nem consensos fáceis. Pelo contrário. “Prefiro a discussão ao consenso”, afirma. A frase ajuda a compreender não apenas o seu cinema, mas também a forma como encara o papel da cultura. Para Marta Mateus, um filme não tem de confirmar aquilo que já pensamos. Deve desafiar-nos, obrigar-nos a olhar para a realidade de outra forma e criar espaço para perguntas que nem sempre têm resposta.
“Perante o touro, somos todos iguais”
A dimensão política de Fogo do Vento torna-se particularmente evidente quando a conversa chega à comunidade cigana. Marta Mateus cresceu em Estremoz e conviveu desde cedo com muitas das famílias que hoje participam nos seus filmes. A presença dessas pessoas na narrativa não resulta apenas de uma escolha artística. É também uma tomada de posição perante aquilo que considera ser um agravamento do discurso hostil dirigido à comunidade cigana nos últimos anos.
“A retórica recente contra os ciganos mudou a vida destas pessoas para pior”, lamenta. A preocupação surge associada a uma ideia mais ampla de representação. Ao longo da entrevista, a realizadora regressa várias vezes à questão de quem tem direito a ocupar o centro das narrativas e quem continua a ser empurrado para a margem. É uma reflexão que atravessa toda a sua obra e que ganha particular relevância neste filme.
No universo de Fogo do Vento, porém, essas fronteiras tendem a desaparecer. Trabalhadores rurais, familiares, vizinhos e membros da comunidade cigana partilham o mesmo espaço e enfrentam a mesma ameaça. “Perante o touro, somos todos iguais”, resume. A frase funciona quase como uma declaração de princípios. O filme não ignora diferenças sociais, culturais ou históricas, mas recusa transformá-las em barreiras intransponíveis. O que une aquelas personagens é mais forte do que aquilo que as separa.
Antes de nos despedirmos, pergunto-lhe o que espera que o público leve consigo depois de ver Fogo do Vento. A resposta recupera muitos dos temas que atravessaram a conversa. “Espero que levem um bocadinho da natureza, da partilha e do tempo. Que recebam as imagens sem tentar encontrar uma explicação lógica.” Depois, recorda uma frase do realizador Pedro Costa que continua a guardar consigo: “No princípio, o cinema foi inventado para nos ajudar a ver e a ouvir melhor.”
Não é difícil perceber porquê. Ao longo de quase duas horas de conversa, Marta Mateus falou de memória, de comunidade, de guerra, de natureza e das histórias que raramente encontram lugar nas narrativas oficiais. No fundo, falou de pessoas. E é precisamente através delas que continua a construir o seu cinema, convencida de que “cada vez que uma memória é partilhada e uma pessoa é lembrada, ela volta a viver”.