Perito explica “os dois fatores” que tornam 2026 um dos anos mais perigosos para a floresta
Luís Calaim não tem dúvidas de que este é um dos anos mais perigosos para a floresta em matéria de incêndios, com a região Centro a causar mais preocupação “e a zona de Leiria em particular”. Em entrevista à jornalista Estela Machado na “Objetiva”, o espaço de informação do programa Juca, esta quinta-feira, o perito afirma que “há dois fatores” que explicam este receio.
O primeiro fator é desde logo o material lenhoso que se encontra por limpar, depois do comboio de tempestades que arrasou a zona Centro do país. “O material lenhoso está no chão, está caído e é muito mais fácil arder junto ao solo do que em fogos de copa”, afirma.
Mas há um segundo motivo, relacionado com um período cíclico dos incêndios de maiores dimensões.
“De oito em oito anos ou de 10 em 10 anos, é cíclico, existem incêndios de maiores dimensões e os últimos foram em 2017, aquele ano terrível. Estamos em 2026, estamos mesmo num ano charneira de oito, dez anos”, sublinha.
O especialista lembra ainda que não foi possível realizar ações de fogo controlado para queimar o potencial combustível nas zonas afetadas pelas tempestades devido ao elevado risco que essas operações representavam.
Luís Calaim foi ainda questionado sobre as mudanças na Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), depois da demissão de Tiago Oliveira, que era presidente da agência desde 2017. O perito faz um "balanço positivo" do trabalho realizado por Tiago Oliveira, ainda que tenha sido marcado por "muitos constrangimentos" e "situações que não foram felizes", destacando uma mudança de paradigma.
"Houve um ano, 2024, onde se investiu mais em prevenção do que em combate e há aqui uma mudança clara do que tem de ser o nosso foco, onde devemos apostar as nossas energias, que é na prevenção, não é no combate", vinca.
Tiago Oliveira liderou a AGIF desde 2017, tendo sido escolhido pelo antigo primeiro-ministro António Costa para criar no país um sistema para coordenar, planear e avaliar os fogos rurais com foco para a prevenção depois dos incêndios desse ano.
"A agência tem feito um trabalho de coordenação entre as diferentes áreas, entre os diferentes corpos de intervenção porque existem os bombeiros, a polícia, os militares, os sapadores florestais, as organizações, as câmaras e a AGIF faz essa coordenação, juntando todas estas entidades, criando objetivos", explica Luís Calaim.
Durante o Governo socialista, a AGIF esteve na tutela do primeiro-ministro, passando para o Ministério da Agricultura com o Governo da AD e tem sido alvo de críticas de algumas organizações do setor, como a Liga dos Bombeiros Portugueses.
"Tiago Oliveira reportava ao primeiro-ministro, mas agora reportava ao ministro da Agricultura", nota Luís Calaim, considerando que "a ligação ao primeiro-ministro é importante". O perito florestal não esconde o receio de que seja tomado um rumo diferente do quem sido seguido: "O meu receio é que haja um desinvestimento na prevenção e que se foque no combate".