Plano de gestão da barragem de Girabolhos tem como prioridade minimizar o risco de cheias

Anunciada a construção da barragem de Girabolhos, os ambientalistas alertam que o estudo de impacto ambiental tem muitos anos e já houve várias evoluções técnicas. Em resposta, o presidente da APA confirmou na rubrica Informação Objetiva, conduzida pela jornalista Estela Machado no programa Juca, que vai ser preciso um novo estudo ambiental e que esta barragem vai servir para outros fins que não, apenas, a produção elétrica.
Inês Miguel
Inês Miguel Jornalista
Redação
Redação
02 abr. 2026, 11:15

A barragem de Girabolhos, situada no concelho de Seia, surgiu na sequência das cheias que atingiram o rio Mondego entre janeiro e fevereiro. O colapso de um troço da principal autoestrada do país, bem como o alerta gerado pela possibilidade de “cheias históricas” em Coimbra, pareceram suficientes para reavivar um projeto que tinha sido abandonado há cerca de uma década por falta de viabilidade económica. No entanto, ambientalistas defendem que a sua construção não trará benefícios relevantes.

O projeto da barragem de Girabolhos abrange territórios dos concelhos de Seia e Fornos de Algodres, no distrito da Guarda, e de Nelas e Mangualde, no distrito de Viseu. Era um de 10 novos empreendimentos do Programa Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroelétrico, aprovado em dezembro de 2007 pelo Governo de José Sócrates. A Agência Portuguesa do Ambiente reitera a decisão anunciada no início de fevereiro pela Ministra do Ambiente e espera-se agora a qualquer momento que seja lançado o prometido concurso público.

A construção deve arrancar este ano e ficar concluída em 2037, com um investimento de 300 milhões de euros para controlar cheias, abastecer água e produzir energia renovável. 
Os ambientalistas da Associação Zero alertam que os estudos de impacto ambiental sobre esta barragem tem muitos anos e já houve várias evoluções técnicas. Em entrevista ao Conta Lá, Sara Correia, defende uma nova avaliação ambiental ao projeto e alerta que o que está previsto não vai resolver os problemas das inundações junto ao Rio Mondego.

José Pimenta Machado, presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), em declarações na rubrica Informação Objetiva, admite que o projeto ganhou agora destaque na sequência das cheias que afetaram o Rio Mondego. "Esta barragem vem ajudar a barragem da Aguieira para, acima de tudo, minimizar o risco de cheias", refere.

O responsável diz que também terá outras utilizações quer para o abastecimento público, quer para a agricultura, quer para a produção de energia hidroelétrica. "É uma barragem de fins múltiplos. Este ano, Coimbra bateu o recorde de precipitação que datava de 1976 e, portanto, neste contexto é preciso preparar todo o projeto do aproveitamento hidráulico do baixo Mondego adaptado àquilo que é esta nova realidade, no caso da barragem da Aguieira serve para minimizar o risco de cheias", explica José Pimenta Machado.

Questionado sobre se há ou não a necessidade de agora se rever o estudo de impacto ambiental, o presidente da APA relata que quando lançaram o concurso público, o projeto teve ligeiras alterações àquilo que era o projeto inicial."Aquilo que é o plano de gestão da albufeira terá como primeira prioridade, minimizar o risco de cheias. Logo isso é uma alteração àquilo que estava pensado à data, uma vez que tinha como grande prioridade a produção de energia hidroelétrica", declara, acrescentando que com esta barragem, a montante da Aguieira, o caudal nunca ultrapassaria os 1800 m³ por segundo, logo não ocorria o colapso dos diques.

José Pimenta Machado alerta também que estes fenómenos extremos vão ser cada vez mais frequentes e mais intensos. "É preciso preparar o país, as bacias hidrográficas e o território para esta nova realidade. A barragem é um instrumento, contudo também temos de pensar nas questões de prevenção, ligadas ao ordenamento do território. Não é por acaso que a APA desenhou os planos de gestão de riscos, cheias e inundações e que são instrumentos de planeamento". 

Salientou ainda que está prevista a barragem do Alvito, no Rio Ocreza, para trazer alguma independência de Espanha e garantir um caudal ambiental nesse troço e há previsão também da construção da barragem de Alportel, no Algarve.  "Lançámos agora o edital para perceber se há novos concorrentes para a nova concessão na barragem do Cabril, no Rio Zêzere", remata.