Porto-Lisboa de bicicleta: a clássica que chegou a ser a mais longa do mundo volta à estrada para celebrar o 25 de Abril
Foi considerada a “prova rainha” do ciclismo nacional durante décadas e chegou mesmo a ser clássica mais longa do mundo. Se ainda existisse, a Porto-Lisboa, cuja primeira edição ocorreu em 1911, seria a mais antiga competição do calendário do ciclismo nacional. Duas décadas depois do seu desaparecimento, em 2004, a prova icónica regressa à estrada, não nos moldes oficiais, mas pelas mãos de várias associações, no âmbito das celebrações do 25 de Abril.
A iniciativa surge como homenagem à clássica e encerra um valor simbólico: realiza-se na véspera do 25 de Abril para destacar a importância da cultura e do desporto de massas. Fazem parte da organização a Associação Desportiva e Recreativa "O Relâmpago", o Praça da Alegria Futebol Clube, Bando à Margem e Oficina 35.
“No ano em que celebramos 50 anos da Constituição, este tributo à Clássica assume um papel fundamental na afirmação da cultura e do desporto de massas, das suas raízes populares, dos valores da democracia, da solidariedade e dos direitos fundamentais para todas e todos nós”, lê-se no texto de divulgação da prova.
Serão 358 quilómetros a pedalar, com partida agendada para o dia 24 de abril, à meia-noite, da sede do Praça da Alegria FC, no Porto, e chegada prevista às 19h, na Praça Paiva Couceiro, em Lisboa, a tempo das celebrações populares do 25 de Abril.
Trata-se de “uma iniciativa interna, organizada pelas secções de ciclismo dos coletivos envolvidos”, com um pelotão oficial fechado, alertando as associações que “pelo grau de exigência física do percurso, não conseguem garantir a segurança de quem se junte por iniciativa própria”.
Há, no entanto, forma de participar: será possível acompanhar este pelotão resistente na partida, no Porto, e nos últimos quilómetros da chegada a Lisboa, na ponte ciclopedonal do Trancão, perto do Parque das Nações. Momentos do percurso serão também divulgados pelas associações nas suas redes sociais.
Num total de cerca de 330-340 quilómetros, a Porto-Lisboa chegou a ser a prova mais longa do mundo, com o fim, em 1989, da francesa Bordeaux-Paris, de 560 quilómetros.
O primeiro vencedor, em 1911, foi o francês Charles George, que demorou mais de 17 horas a fazer o trajeto. O último, Pedro Soeiro (Boavista), completou-a em 8 horas e 22 minutos. Já o tempo recorde pertence a Melchor Mauri (Benfica), que a terminou, em 2000, em 7 horas e 56 minutos.
A competição, que se realizava no 10 de Junho, teve 74 edições, com alguns interregnos. A subida de Santa Clara, em Coimbra, a rampa das Padeiras, em Alcobaça, as lombas de Vila Franca do Rosário, antes da Malveira, e a chegada a Lisboa, pela Calçada da Carriche, eram locais míticos do trajeto e atraíam milhares de pessoas.
Chegou a rivalizar com a Volta a Portugal, mas foi perdendo relevância e popularidade a partir dos anos setenta, numa altura em que as estradas se tornaram mais acessíveis e menos sinuosas.
Com a camisola do Benfica, Fernando Mendes averbou três triunfos consecutivos, em 1971, 1972 e 1973. Também com três vitórias surgem João Francisco, (Campo de Ourique e Belenenses), em 1927, 1928 e1933, José Maria Nicolau (Benfica), em 1932, 1934 e 1935 e Alexandre Rua (Coelima e FC Porto), em 1980, 1982 e 1984.