Portugal está "a meio de um processo complicado": rios e cidades em risco de cheias e ventos fortes
Depois das últimas tempestades que afetaram Portugal, o país prepara-se para enfrentar uma semana crítica no que toca ao mau tempo, com chuva intensa em intervalos curtos, vento forte e agitação marítima, de forma persistente. Já no próximo domingo, 1 de janeiro, uma nova tempestade deverá afetar o território continental, com maior intensidade a norte, especialmente junto da Serra do Montejunto e da Serra da Estrela.
Segundo o meteorologista Mário Marques, a tempestade possivelmente nomeada “Leonardo”, deverá afetar o continente entre 1 e 7 de fevereiro, sendo o período mais crítico nos primeiros dias da semana. Durante este período, é esperada chuva persistente e por vezes intensa, acompanhada de vento forte e agitação marítima significativa.
As rajadas de vento poderão atingir entre 70 e 80 km/h, entre os dias 1 e 5 de fevereiro, enquanto a precipitação horária poderá variar entre 15 e os 25 mm, acumulando em apenas seis horas entre 50 a 60 mm de água. O fenómeno preocupa os especialistas, dado que ao longo de toda a semana a perpetuação poderá chegar aos 250 mm, sendo as regiões de maior altitude as mais afetadas.
Já o antigo presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), Miguel Miranda, sublinha ao Conta Lá que o país ainda está “a meio de um processo complicado" que junta vários riscos: "o excesso de precipitação e o vento muito intenso, a que se junta ainda um terceiro fator, que é a ondulação”, afirmou. O especialista refere que esta combinação cria riscos particularmente graves nas zonas litorais e em regiões próximas de rios, alertando que “não há forma de fazer desaparecer a água”, acrescentou.
A ondulação marítima deverá situar-se entre 4 e 5 metros, podendo atingir 7 metros nos dias 30 e 31 de janeiro e 6 metros no dia 3 de fevereiro. Segundo o meteorologista Mário Marques, estas condições deixam o alerta para o risco de inundações urbanas rápidas, cheias de rios e ribeiras, derrocadas e queda de árvores ou estruturas.
O especialista elabora que este cenário resulta do desenvolvimento sucessivo de depressões e de superfícies frontais constantemente alimentadas por humidade, formando “um verdadeiro rio atmosférico”. Neste processo, massas de ar húmidas vindas do sul misturam-se com ar mais frio do norte, intensificando a precipitação e agravando os riscos em várias regiões do país.
"Ainda há muita água para cair"
Mário Marques reafirma que os solos já estão “completamente saturados e qualquer chuva adicional escorre imediatamente, elevando o risco de cheias”. O Mondego é considerado um dos rios mais sensíveis devido à forte precipitação prevista na Serra da Estrela, podendo subir de forma significativa, devido ao descongelamento e a precipitação. Outros rios, como o Minho, Lima, Douro, Tejo e Viana, também poderão atingir níveis preocupantes, sobretudo nas zonas historicamente vulneráveis, devendo as populações destas áreas manter-se atentas e seguir as recomendações das autoridades locais.
As regiões do norte e centro, incluindo Porto, Braga, Viseu e Leiria, enfrentam risco de inundações urbanas rápidas devido a elevadas taxas de precipitação horária. Em Leiria, recentemente afetada por fortes aguaceiros, Mário Marques afirma que é esperada chuva praticamente toda a semana, “não sendo tão castigada pelo vento, mas a precipitação pode causar problemas, sobretudo a quem já está fragilidade”. Por isso, Miguel Miranda não exclui a necessidade de evacuar populações em leito de cheias, "se a situação piorar".
Os meteorologistas não antecipam melhorias significativas nas primeiras semanas de fevereiro, alertando que “pelo menos até ao dia 10 não estão previstas mudanças relevantes no tempo (…). A primeira quinzena de fevereiro será muito húmida”, garante Mário Marques, lembrando que “ainda há muita água para cair” e que o cenário exige vigilância constante por parte das autoridades e da população.
Vários municípios já emitiram alertas devido à previsão de cheias nos próximos dias. A Proteção Civil recomenda à população que se mantenha informada sobre a evolução do tempo, evitar circular em áreas inundáveis e seguir todas as instruções das autoridades locais. Além do risco de inundações, os moradores devem estar preparados para possíveis interrupções no abastecimento de água, na eletricidade e nas telecomunicações, sobretudo nas regiões mais afetadas pelo mau tempo.
Pelo seu lado, Miguel Miranda alude a pelo menos "mais uma semana de precipitação pela frente" e à capacidade praticamente esgotada das barragens em Portugal e Espanha. "Vão ter que se fazer descargas e nós vamos viver aquilo que eu espero que não seja um filme catástrofe, que seja o contrário. Mas há filmes catástrofe que acabam bem, espero que este seja um deles", confessa.